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A saúde mental e a velhice: um estudo com idosos da Lima Metropolitana
César Vásquez Olcese
2001

Idioma: Espanhol
Palavras-chave: Velhice, saúde mental, percepção de envelhecimento, autonomia funcional

Resumo

Resumo

Aborda-se o estudo da velhice a partir de três aspectos concretos: saúde mental, percepção do envelhecimento e autonomia funcional. Trabalhou-se com uma amostra de 159 idosos de ambos os sexos, com mais de 65 anos, de classe média de Lima e não institucionalizados. Aplicou-se, como guião de entrevistas, a Escala de Saúde Mental do Índice Médico de Cornell, uma escala de autonomia funcional e outra de percepção de envelhecimento. Não se encontraram diferenças significativas entre estes três aspectos em função do género e idade dos idosos. Em contrapartida, encontrou-se uma relação significativa entre saúde mental e percepção de envelhecimento. Reportam-se também as características mais destacadas pelos idosos quanto às três variáveis estudadas.

Introdução

Tradicionalmente, o Perú é considerado um país jovem e de jovens. Isto é especialmente evidente se se considerar que a população menor de 25 anos constitui quase 60% do total de habitantes (Ricketts, 1991). Neste sentido, a população idosa constitui, no que se refere a percentagens, um grupo minoritário. Estando a esperança de vida do peruano, em média, um pouco acima dos 60 anos (Ugarte, 1986), o total de pessoas que superam a dita idade ronda à volta de 5% e 6%. Este dado tende a ocultar um problema latente, que não se consegue captar com precisão, se se assumir em termos absolutos. O gerontólogo peruano Carlos Vivanco Eguiluz (1982) afirma que, entre os anos de 1876 e 1980, a percentagem de pessoas com mais de 60 anos pouco se alterou, apesar de que em números reais o total tenha aumentado mais de dez vezes. No presente ano o seu número ultrapassa o milhão de idosos, sendo a estimativa da ONU para o ano 2000 de 1 853.000, isto é, quase o dobro em menos de dez anos (CIGS, 1986). Como se pode observar, no Perú a população idosa ou em vias de o ser, aumenta silenciosa e progressivamente.

No entanto, actualmente não se tem plena consciência deste facto e das suas implicações futuras. Os problemas derivados do subdesenvolvimento e das necessidades, cada vez maiores, de uma população que se torna mais exigente, induzem o Estado a fixar a sua atenção e esforços na procura de uma solução a problemas conjunturais, que dizem respeito à “generalidade” dos habitantes, em vez de desenhar estratégias de intervenção em função das características concretas de cada sector da população.

Por isso, é comum afirmar que os velhos da nossa sociedade estão marginalizados. Afastados da produção contra a sua vontade, pouco consumidores dada a sua escassez numérica e a sua falta de rendimentos, os peruanos da terceira idade sobrevivem como a maioria dos seus contemporâneos de todo o mundo: às custas de uma sociedade quase sempre hostil e recebendo as esmolas que esta se digna oferecer-lhes. Síntoma deste descuido é o escasso conhecimento que se possui da realidade psicológica do idoso peruano, da sua subjectividade e da percepção de si mesmo e do mundo em que vive. Os estudos sobre a velhice centram-se, em geral, em aspectos demográfios, socioeconómicos, de segurança social e de saúde física, deixando de lado a visão mais ampla e a saúde mental do homem que envelhece.

Assim, é imperiosa uma aproximação e um resgate da sua dimensão subjectiva; conhecer a sua problemática de saúde mental e as suas potencialidades subjacentes; saber como se percebe a si mesmo e ao seu envelhecimento, a fim de estabelecer uma psicologia do idoso peruano e rastrear os factores materiais e sociais que a determinam. Para tal, investigar a realidade do idoso de classe média parece ser o mais adequado. Não só por constituir o grupo maioritário dentro desta faixa etária, como também porque as suas características socioeconómicas intermédias permitem uma maior generalização dos resultados, já que não se encontram na situação extrema e multiplamente deficitária dos idosos pobres e também não compõem o grupo privilegiado e minoritário de idosos de classe alta.

O presente estudo procurou realizar uma abordagem à Psicologia do idoso de classe média a partir de três áreas concretas de investigação: saúde mental, percepção de envelhecimento e automomia funcional. Pretende-se reconstruir, na medida do possível, a problemática real dos idosos, detectando, no interior do sector seleccionado, os grupos que requerem atenção prioritária e peremptória. Desta forma, este trabalho constitui a segunda etapa de um projecto de investigação mais amplo, tendo sido a primeira etapa realizada com o estudo da realidade psicosocioeconómica dos idosos do sector urbano de Lima (Bibolini, Cano e Vásquez, 1990). Neste sentido, foram procuradas respostas às seguintes questões:

1) Que características de saúde mental apresentam os idosos de classe média em função das variáveis idade e género?

2) De que maneira percebem o seu envelhecimento em função das variáveis mencionadas?

3) Que nível de autonomia funcional é característico deste sector de idosos, segundo o seu género e idade?

Na presente investigação, foram incluídos na categoria de idosos todos os sujeitos, homens e mulheres, com mais de 65 anos, de classe média e residentes na cidade de Lima. Considararam-se como sujeitos de classe média aqueles idosos que reuniam as seguintes características: 1) habitação de material nobre; 2) sendo esta propriedade do idoso ou alugada; 3) rendimentos pessoais regulares; 4) com acesso à satisfacção de necessidades básicas; 5) que habitem em sectores urbanos considerados de classe média, que contem com serviços básicos de luz, água e esgotos; e 6) que se incluam a si mesmos dentro do dito estracto social.

Definiu-se saúde mental como o equilíbrio psíquico que resulta da interacção do indivíduo com o meio envolvente e que lhe permite desenvolver todas as suas potencialidades humanas. Está estreitamente associada à satisfacção das necessidades. Operacionalmente ela é definida pela pontuação obtida na “Escala de Autonomia Funcional”.

A percepção do envelhecimento é a manifestação subjectiva das mudanças sofridas a nível somático e funcional, atribuíveis ao envelhecimento. Isto expressa-se numa mudança da identidade pessoal, da imagem corporal, da auto-valorização, etc. Operacionalmente pode definir-se como a auto-atribuição de traços de velhice.

Material e Métodos

A amostra com a qual se trabalhou foi composta por um total de 159 idosos, os quais reuniam as seguintes características:

- mais de 65 anos.

- homens e mulheres.

- pertencentes ao estracto socioeconómico médio.

- não hospitalizados nem institucionalizados.

- dispostos e aptos a responder ao questionário por si mesmos.

Partiu-se de uma lista de 250 idosos, chegando-se à quantidade atrás referida de 159 a partir de vários processos de depuração da amostra. O critério que guiou todo o processo de selecção da amostra foi o de amostra intencional, que se considerou o mais adequado dada a carência de dados demográficos fiáveis que poderiam ter permitido uma selecção mais rigorosa da amostra. Para o processamento estatístico utilizaram-se o “t” de Student e o Índice de correlação de Spearman.

A seguir apresenta-se uma descrição muito sucinta das principais características da amostra, de acordo com as variáveis idade, género, grau de instrução, distrito de residência, estado civil e situação laboral.

A maior percentagem de idosos (39.4%) encontra-se no intervalo de idade compreendido entre os 65 e 69 anos, a partir daí a percentagem decresce constante e uniformemente em direcção aos mais idosos.

Constata-se também que a amostra está composta por uma maior percentagem de mulheres (59.7%) do que de homens (40.3%).

Quanto ao nível de instrução, o grupo maioritário está constituído por idosos com estudos secundários (37.6%), seguido pelos que possuem algum tipo de estudos primários (36.7%). Ambos compõem três quartos da amostra. A quarta parte restante (24.4%) é composta por aqueles idosos que frequentaram algum tipo de educação superior (seja universitária ou técnica). Por outras palavras, 4 em cada 10 idosos da amostra referem ter tido algum tipo de educação secundária; 3 em cada 10 estudaram na primária e 2 a 3 em cada 10 estudaram no ensino superior. Isto significa que os sujeitos estudados possuem um nível educativo mais ou menos aceitável para um meio socio-cultural como o nosso.

Os idosos foram seleccionados na sua grande maioria em distritos considerados como típicos da classe média ou média alta (Miraflores, San Borja, San Isidro, etc.); incluindo-se alguns distritos de classe média baixa, porque os idosos que ali residiam contavam com os requisitos exigidos no processo de amostragem.

Quanto ao estado civil, o sector maioritário é constituído por idosos viúvos (46.9%), chegando a alcançar quase metade do total; seguidos de muito perto pelos idosos que ainda conservam o seu companheiro (39.3%). Um aspecto interessante destes dados é que se se considerarem as percentagens de idosos divorciados (2.2%), viuvos (46.9%), separados (2.7%) e solteiros (8%) em conjunto, verifica-se que cerca de 60% da amostra vive em situação de “solidão conjugal”; tal significa que não contam com um companheiro com o qual partilhar a sua existência. Isto não deve confundir-se com isolamento ou abandono social, já que na sua maioria estes idosos formam parte de famílias nucleares, na qualidade de agregados. Desta maneira, é pouco comum o caso de sujeitos a viverem completamente sós. De qualquer forma, o caso de “solidão conjugal” deve ser tomado em consideração devido à sua influência na vida emocional e sexual dos idosos.

Finalmente, no que concerne a situação laboral dos sujeitos da amostra, verifica-se que esta é formada, na sua maior parte, por idosos pensionistas ou reformados (36.3%); isto é, que gozam de rendimentos permanentes graças ao trabalho que desempenharam durante várias décadas. Em segundo lugar, encontramos os idosos que se dedicam exclusivamente a realizar trabalhos domésticos (32.3%) como parte das suas obrigações familiares (em especial as idosas donas de casa). Apesar de não receberem rendimentos por este trabalho, tal não impede que tenham rendimentos de outro tipo, como rendas, ajuda de familiares, etc. Em seguida, encontramos os idosos que, aquando das entrevistas, se encontravam a trabalhar (13.7%), sendo estes na sua maioria profissionais liberais e comerciantes, que não estão sujeitos a um regime de reforma forçada. Por último, estão os que não realizam nenhum trabalho importante ou destacável dentro ou fora de casa (os desocupados) e que também não são pensionistas, sendo na sua maioria os mais idosos (10.6%), e aqueles que realizam trabalhos pontuais, pequenos ofícios, mesmo que o seu sustento não dependa totalmente da sua realização, fazendo-o apenas por hábito, para se manterem ocupados ou para terem um rendimento extra (7.1%).

O instrumento utilizado na investigação era composto por quatro secções do “Questionário de atitudes e condições de existência”, utilizado por Bibolini, Cano e Vásquez (1990) na sua investigação sobre idosos de sectores marginais de Lima.

Na sua primeira secção procura recolher informação geral sobre a situação socioeconómica e demográfica, que permita classificar os idosos. Na segunda secção incluiram-se 30 itens da escala de saúde mental do Índice Médico de Cornell. Estes itens eram representativos das seguintes 10 secções do IMC: G (sistema nervoso); I (fatiga); L (hábitos de vida); N (depressão); P (sensibilidade); Q (cólera); O (ansiedade); M (insuficiência ou inadequação); J (hipocondria); e R (antecedentes de saúde mental). Estes itens deviam ser respondidos com sim ou não, segundo a realidade de cada idoso. Desta forma, a pontuação podia variar entre 0 e 30, sendo atribuído um ponto por cada sim.

A terceira secção pretendia averiguar diversos aspectos da autopercepção do envelhecimento. Incluíram-se itens que procuravam fazer o idoso reflectir sobre as várias mudanças que observou na sua aparência física, no funcionamento do seu organismo e na sua forma de ser.

Com a quarta secção avaliou-se a autonomia funcional dos idosos; isto é, a capacidade de cuidarem de si próprios socialmente e de interagirem com o meio de forma independente. Elaboraram-se 16 itens que representam actividades sociais específicas e que supõem um determinado nível de autonomia, que é aferido segundo a capacidade do idoso de as realizar ou não.

Resultados

1) Saúde Mental: no que respeita a esta área de investigação, descobriu-se o seguinte:

- Os idosos da amostra caracterizam-se por apresentar dificuldades em responder com eficácia aos estímulos do meio. Em especial, observa-se que eles percebem-se lentos a nível de reacções, tendendo também a equivocar-se nas suas respostas e no processamento da informação recebida do meio (56.6%). Isto parece corroborar, em certa medida, o estereótipo amplamente difundido sobre a lentidão dos idosos.

- O problema que destacam em segundo lugar refere-se à esfera da afectividade. A este respeito, os idosos propõem como uma dificuldade especial nas suas vidas, a extrema sensibilidade que os caracteriza; assim sendo, a maioria tende a ofender-se com facilidade ou a mostrar timidez ou inibição (45.9%).

- A isto agrega-se, em terceiro lugar, uma relação com o mundo marcada pela ansiedade. Um grupo importante de idosos manifesta que enfrenta a sua realidade quotidiana com uma grande carga de temores e preocupações. Entre elas destacam-se as que se referem ao seu estado de saúde. É por isso que o idoso de classe média se mostra hipocondríaco, dado que a sua preocupação com as doenças e dores tende a ser excessiva (43.3%).

- Por outro lado, também se sentem afectados pelo cansaço e fadiga constantes (38.4%), o que lhes provoca, ao que parece, alterações no sono (39.6%) e propensão a encolerizarem-se ou irritarem-se (39%) de acordo com um quadro “neurótico” (ainda que este termo já esteja em desuso) (Kolb, 1978).

- O panorama descrito até ao momento parece corroborar, de maneira geral, as afirmações de Mishara e Riedel (1986), a propósito dos problemas de saúde mental que se apresentam associados à idade. Do mesmo modo, coincidem com as descobertas de Bibolini, Cano e Vásquez (1990) relativamente a idosos de sectores marginais.

- Ainda que não se tenham encontrado diferenças a nível de saúde mental entre os idosos homens e mulheres, já que o número de sintomas que afectam os indivíduos de um e outro sexos são, em média, similares (6.2 e 6 respectivamente), encontraram-se aspectos interessantes quanto aos sintomas específicos de cada género. Assim, verificou-se que, tomados individualmente, quase todos os problemas psicológicos avaliados se encontram mais presentes nas idosas do que nos idosos. Isto significa que são as mulheres que chegam à terceira idade quem tende a ver-se mais afectadas pela sua situação de idosas, repercutindo-se isto na sua integração psicológica e emocional e no funcionamento do seu sistema nervoso. Tal está em concordância com a situação das idosas dos sectores menos favorecidos, mencionada anteriormente, que também apresentam graves dificuldades de saúde mental (Bibolini, Cano e Vásquez, 1990). Assim, pode-se de alguma forma afirmar que o sector feminino dos idosos é o que conta com menos recursos para enfrentar a velhice saudavelmente (apesar do que dizem as estatísticas demográficas sobre o facto das mulheres sobreviverem aos homens) constituindo, desta forma, um grupo de alto risco a nível de saúde mental.

- Por outro lado, também não se encontrou relação significativa entre a idade dos idosos e a sua saúde mental. Pode-se dizer que, em geral, o envelhecimento não acarreta necessariamente uma maior quantidade de problemas de saúde mental. À semelhança do caso de saúde mental e género, a relação deve procurar-se no específico. Pretende-se com isto dizer que só alguns problemas concretos parecem acentuar-se à medida que se envelhece. Verificou-se, por exemplo, que os problemas de insuficiência ou inadequação em relação ao meio tendem a aumentar com a velhice, tornando-se mais evidentes nos idosos de 85 anos. O mesmo se pode dizer quanto à preocupação com as doenças, a fatiga e a tendência a irritar-se ou ser colérico.

- Com isto verifica-se que, tal como no grupo de mulheres, o sector dos mais idosos também constitui um sector de alto risco a nível de saúde mental.

2) Percepção de envelhecimento: O mais destacável a este nível é o seguinte:

- Os idosos da amostra, ao descreverem os traços de velhice que são mais notórios em si, tendem a ressaltar mais as mudanças ocorridas no plano físico. De acordo com o observado, pode-se dizer que perceber-se velho na classe média de Lima é perceber mudanças na aparência física: menos cabelo, cabelo branco (91.2%); manchas e rugas na pele (81.1%); maiores problemas de visão e de audição (74.9%); défices na força muscular (59.7%), etc. Isto é, a metamorfose típica de qualquer idoso. A isto agrega-se uma característica psicológica, que é o seu forte apego ao passado (57.2%), sendo sob a forma de recordações (pensar sobre o passado) ou assumindo-o como um modelo para o presente.

- A influência do género e da idade na forma como os idosos percebem o seu processo de envelhecimento, apresenta-se de maneira similar ao que se observou em saúde mental. Aqui também se encontram médias similares entre homens e mulheres, quanto à quantidade de traços que se autoatribuem (12.8 e 14.6 respectivamente).

- Também não há uma associação significativa entre o passar do tempo e o número de traços que percebem em si mesmos. Onde se nota a influência das duas variáveis mencionadas é na percepção de traços específicos. No caso, por exemplo, da presença de manchas e rugas na pele, que têm maior destaque nas mulheres e nos idosos (homens ou mulheres) com mais de 85 anos e da diminuição de força muscular, mais sentida pelos homens e pelo sector com mais de 85 anos.

- A este respeito, o factor social e os papéis genéricos parecem exercer uma forte influência. As mulheres têm mais em conta a mudança da sua aparência exterior, vinculada à beleza, sedução e feminilidade; os homens, por sua parte, ressentem mais a debilidade física pois está associada ao trabalho duro, a agressividade e a protecção ao sexo fraco. A sua perda pode ser vista como uma diminuição da virilidade e um aumento da dependência (Acevedo, 1985).

- A nível da percepção de envelhecimento, convém chamar a atenção para a explicação (atribuição de causas) que os idosos encontram para a sua velhice e para a rapidez com que esta se instaura neles. O critério cronológico (isto é, explicar a velhice pelo passar do tempo e acumulação de anos), que foi destacado em primeiro lugar pelos idosos pobres de Lima (Bibolini, Cano e Vásquez, 1990), é também o mais destacado no sector de classe média (76.1%) e, em especial, entre os homens (83.3%). As mulheres também o destacam (71%), ainda que mencionem também outras causas, como as doenças sofridas (16.1%) e o tipo de vida que levaram (16.1%). A este respeito, a diferenciação de papéis volta a prevalecer: as mulheres idosas viveram a maior parte da sua vida sujeitas a critérios machistas, que as condicionaram para o sacrifício e o sofrimento (espécie de desânimo aprendido). Não é em vão que um terço da amostra é composto por donas de casa.

- O critério cronológico parece perder importância à medida que o sujeito se torna mais velho; isto é, que a vivência da velhice vai minando esta explicação tão simples e adicionando outras explicações.

- O ritmo do envelhecimento é percebido de forma diferente por homens e mulheres. A maioria dos homens (59.1%) pensa que envelhece de forma lenta ou pouco a pouco. As mulheres, por sua vez, na sua maioria (52.7%) entendem este processo como algo normal, nem lento nem rápido.

- A idade também parece influir na percepção de rapidez do envelhecimento. A velhice nos seus inícios é percebida como um processo lento, mudando para uma visão de normalidade até aos 85 anos. Isto faz supor que os idosos mais velhos vão-se “acostumando” à sua velhice, começando a considerá-la como algo natural.

- Antes de comentar a terceira variável do estudo, considerou-se conveniente fazer menção à correlação encontrada entre saúde mental e percepção de envelhecimento. Esta relação, que se manifesta como substancial ou marcada (0.62), faz supor uma influência negativa dos problemas psicológicos sobre a autopercepção dos idosos e vice-versa. A presença de características tais como a ansiedade, irritabilidade, sensação de insuficiência para actuar face ao meio, sensação de inutilidade, entre outras, pode levar os idosos a sobrevalorizar (e em alguns casos extremos, a criar e/ou acelerar) alguns traços próprios da velhice. De igual modo, pode-se supor que a presença dos ditos traços e os seus efeitos nas vidas das pessoas avaliadas pode gerar problemas psicológicos, já que, pelo que parece, as limitações que sofrem e a marginalização social que lhes é concomitante, acabam por afectar o equilíbrio interno dos indivíduos. O mais provável é que exista uma influência recíproca entre ambos os factores, retroalimentando-se mutuamente num ciclo vicioso.

3) Autonomia Funcional:

- Entre as principais características desta área destacam-se os problemas para se deslocarem a lugares distantes (40.9%), preparar os seus alimentos (32.7%) e conseguir as coisas de que necessitam (29.6%). Aqui, à semelhança das variáveis anteriores, não se notou a influência do género no nível total de autonomia funcional.

- Também não se encontrou relação significativa entre a limitação geral para cuidarem de si próprios e a idade dos idosos. A influência do sexo e a idade deve procurar-se nas limitações específicas, isto é, nas dificuldades concretas que os idosos experimentam. Por exemplo, a proporção de mulheres que tem problemas a deslocar-se a lugares distantes (51.6%) é o dobro que a dos homens (25.8%), ocorrendo exactamente o contrário no caso dos idosos que têm problemas a preparar os seus alimentos (47% homens e 22.6% mulheres). A explicação para este fenónemo pode encontrar-se, novamente, na diferenciação de papéis gerais. Por exemplo, sabe-se que as mulheres de 50 ou 60 anos (em especial, as Limenas de classe média) não estavam habituadas, por diversos motivos, a deslocar-se sozinhas a lugares distantes, costume este que mantinham desde a sua juventude. Se procurarmos uma explicação doutro tipo, esta teria que abarcar também os homens, provocando um impedimento similar (o qual, como já se disse, ocorre numa proporção muito inferior). Não se nega a existência de impedimentos reais (artrites, paralisias, desorientação, medo de se perder, etc.), mas estes dizem respeito a casos isolados, de um ou outro sexo, e não podem utilizar-se para explicar o fenómeno geral.

- Por outro lado, os homens de gerações passadas não costumavam entrar na cozinha “para nada”, por este ser um “lugar de mulheres” (a este respeito, é importante referir que muitos dos homens da amostra especificaram aos entrevistadores que não preparavam os seus alimentos porque os seus familiares ou outras pessoas o faziam por eles). As mulheres também têm mais dificuldade que os homens para conseguir bens de consumo necessários (22.7% e 34.4%). Isto parece estar associado à limitação anteriormente mencionada, dado que se não puderem deslocar-se, dificilmente poderão fazer compras.

- Quanto à influência da idade na autonomia funcional, não se notou uma correlação significativa entre a acumulação de anos e o nível geral de dependência. Tal como nos casos anteriores, a influência deve ser procurada nas limitações específicas.

Discussão

É evidente que os fenómenos descritos devem estar determinados por diversas causas, mas as principais devem ser procuradas na diferenciação dos papéis genéricos que regem sociedades como a nossa. A discriminação de que sofrem as mulheres a nível laboral, económico, familiar e outros, parece produzir um efeito acumulativo que, a posteriori, redunda numa velhice mais problemática. Neste sentido, a teoria da continuidade de Atchley (Mishara e e Riedel, 1986) parece cumprir-se: Uma vida marginalizada e deficitária (ainda que isto, na classe média, se verifique de maneira diferente à da classe baixa) produz quase sempre uma velhice com problemas. Para tal pode contribuir o facto da maioria dos sujeitos da amostra serem reformados ou desocupados. Não possuindo uma actividade significativa actual, ocupam o seu tempo pensando no já vivido. Esta situação coincide com o que Simon de Beauvoir (1983) e Carlos Vivanco (1982) defendem sobre as mudanças que se experienciam na terceira idade abarcarem, em maior ou menor grau, todas as esferas da vida. O facto dos idosos destacarem mais as mudanças físicas do que as psicológicas parece estar associado à maior notoriedade das primeiras e à sua vinculação ao estereótipo que se tem do velho (velho = enrugado e/ou cabelos brancos).

Quanto à autonomia funcional, o que mais se ressalta é o estado relativamente aceitável dos idosos da amostra, em comparação com o estado de marcada dependência que caracteriza a velhice pobre. Os problemas de autonomia são escassos e abarcam um sector da amostra mais pequeno do que aquele que é afectado por problemas de saúde mental ou de percepção de envelhecimento. Os idosos de classe média são mais favorecidos do que os idosos pobres em relação a condições materiais de existência e a redes de apoio familiar. As suas necessidades estão melhor satisfeitas e eles conservam-se melhor em todos os aspectos (Beauvoir, 1983; Casals, 1982). A consequência é óbvia: existe maior independência e liberdade de acção nos de classe média, assim como tempo livre.

Em síntese, muitos problemas detectados na autonomia funcional podem explicar-se a partir da participação de factores individuais, mais do que colectivos ou grupais. Entre estes encontram-se a aprendizagem, as experiências de vida críticas, os acidentes ou doenças, a educação, a ocupação, etc. Não se pode descartar a influência restritiva que a sociedade exerce sobre os idosos, limitando-os quanto às suas possibilidades de actuação, classificando-os segundo modelos e padrões de “velho” e retirando-lhes possibilidades de participação. As diferenças encontradas na forma de viver e exteriorizar a velhice, nos membros de classe média e baixa, chamam atenção para os factores sociais, refractados por cada indivíduo de maneira peculiar.

Não existe uma velhice tipo mas sim múltiplas velhices; tantas quantas as sociedades, culturas e classes sociais. Esta é a lição principal que se retira da presente investigação.

As conclusões principais são as seguintes:

1) Não existem diferenças significativas nos níveis de saúde mental, autonomia funcional e percepção de envelhecimento entre os idosos homens e mulheres da amostra. Também não existe relação significativa entre as ditas variáveis e a idade dos idosos.

2) As variáveis género e idade não influem de forma geral, mas manifestam-se de maneira específica em certos aspectos de saúde mental, autonomia funcional e percepção de envelhecimento e sobre alguns grupos de idosos, como as mulheres e os mais idosos.

3) Quanto à saúde mental, os idosos apresentam mais problemas nas áreas da insuficiência em relação ao meio, sensibilidade, ansiedade, hipocondria, fadiga e irritabilidade.

4) Quanto à percepção de envelhecimento, os idosos destacam mudanças na sua aparência externa, défices sensoriais e de força muscular e variação da sua percepção de tempo.

5) No que se refere à autonomia funcional, os idosos destacam-se por possuir um nível aceitável de recursos para actuar com independência em relação ao meio.

6) Detectou-se uma relação substancial entre a presença de problemas de saúde mental e a percepção de envelhecimento.

Referências Bibliográficas

1) BEAUVOIR, S. La vejez. Buenos Aires. EDHASA, 1985.

2) BIBOLINI, A., CANO, E., y VASQUEZ, C. Condiciones de existencia y actitudes ante la vida en ancianos de poblaciones urbanomarginales de Lima. Lima: AMIDEP, 1990.

3) CASALS, I. Sociología de la ancianidad. Madrid: Mezquita, 1982.

4) Centro Internacional de Gerontología Social. "Consideraciones demográficas". En: Programa de formación en gerontología. Lima: CIGS. pp 760, 1986.

5) KOLB, L. Psiquiatría clínica moderna. Mexico: Científico Médica, 1978.

6) MISHARA y RIEDEL. El proceso de envejecimiento Madrid: Morata,1986.

7) RICKETTS,P. "Los jóvenes peruanos de hoy". En: Expreso. Lima: 15 de setiembre de 1991. p. A14, 1991.

8) UGARTE, C. "El estado de salud". En: Temas poblacionales I. Lima: AMIDEP, 1986.

9) VIVANCO, C. Tercera edad Lima: Pablo Villanueva editor, 1982.

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