A Influência da família no desenvolvimento vocacional de adolescentes e jovens Carlos Manuel Gonçalves carlosg@psi.up.pt Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto 1998
Comunicação apresentada na 5ª Conferência Bienal da EARA. Budapeste, Hungria, 3 a 7 Junho de 1998.
Idioma: português Palavras-chave: Família, desenvolvimento vocacional
O objectivo deste estudo pretende ser um contributo para promover a
reflexão e a compreensão sobre a influência explícita ou implícita
O objectivo deste estudo pretende ser um contributo para promover a reflexão
e a compreensão sobre a influência explícita ou implícita que o contexto
familiar tem no desenvolvimento vocacional dos adolescentes e jovens, para que,
conhecendo, se possa intervir para o influenciar, através de intervenções
intencionais e sistemáticas. Especificamente, procura-se, aqui, analisar, como
algumas variáveis do contexto familiar, – coesão e expressividade, conflito,
orientação intelectual/cultural e recreativa, orientação para o sucesso, ênfase
religiosa e organização e controle – podem estar associadas a variáveis do
desenvolvimento vocacional – exploração, investimento, e tendência para excluir
opção (ou seja, realizar investimentos sem exploração) – verificando, também, se
existem diferenças, em função das variáveis: ano de escolaridade, género e nível
socio-económico.
Nas perspectivas clássicas da Psicologia e Orientação Vocacional, o
desenvolvimento vocacional era conceptualizado como uma dimensão ao lado do
desenvolvimento psicológico global (Campos, 1980), introduzindo um sistema de
clivagens no funcionamento psicológico e social do indivíduo, como se o sujeito
psicológico não fosse um todo integrado no seu desenvolvimento pessoal e social.
Além disso, geralmente, circunscrevia-se esta dimensão do desenvolvimento ao
sistema individual, negligenciando a poderosa influência dos contextos sociais
de vida no processo. Até mesmo as perspectivas desenvolvimentais (Super, 1950;
1980), que chamaram a atenção para a influência dos contextos de vida no
desenvolvimento vocacional conceberam-no numa perspectiva unidireccional, nem
sempre levando na devida linha de conta o facto de que os contextos e o
indivíduo estão em constante interacção, influenciam e são influenciados (Grotevant
& Cooper, 1988). Daí, neste estudo, se tenha privilegiado a importância dos
contextos de vida, especificamente um dos mais importantes – a família –, numa
dimensão específica do desenvolvimento psicológico, o desenvolvimento
vocacional.
Assim, o desenvolvimento vocacional, neste estudo, é conceptualizado como uma
dimensão do desenvolvimento psicológico global referindo-se à confrontação do
indivíduo com as sucessivas tarefas relacionadas com a elaboração, implementação
e reformulação de projectos de vida multidimensionais, onde estão em jogo a
educação, a formação, a qualificação profissional e a actividade profissional,
na articulação com a escolha de um estilo de vida que comporta a coordenação dos
diferentes papéis da existência: familiar (como filho(a), cônjuge, pai ou mãe),
cidadão, consumidor, membro de grupos de vária ordem, etc.. Considera-se, ainda,
a exploração e o investimento como os dois processos psicológicos dialécticos e
activadores do desenvolvimento vocacional, porque é mediante a exploração,
através da relação que o sujeito estabelece com o mundo físico e sobretudo
social – mediante a procura, questionamento e experienciação –, que se constrói
e reconstrói os investimentos vocacionais.
Parte-se de uma perspectiva construtivista, ecológica e desenvolvimental, em
termos epistemológicos, e da preocupação pragmática da transformação da
realidade (a intervenção psicológica vocacional).
Das razões que fundamentaram esta opção construtivista sublinham-se estas
ideias força: (a) é a perspectiva de raiz psicológica que permite uma leitura
integradora das várias dimensões da complexidade do funcionamento psicológico
que intervêm na construção do itinerário vocacional, porque a relação dialéctica
que o sujeito estabelece com o mundo, mediante a exploração e o investimento
vocacionais, é, simultaneamente, afectiva, cognitiva e indissociável da acção
(Campos, & Coimbra, 1991), garantindo a construção de significados
idiossincráticos que torna possível a viabilização de projectos humanos,
historicamente organizados e socialmente inscritos; (b) além disso, é a
abordagem mais adequada para ultrapassar visões lineares, unidireccionais e
ascendentes das trajectórias vocacionais, inadequadas à complexidade do
funcionamento individual e social, propondo, em alternativa, uma concepção do
desenvolvimento vocacional, multidimensional e recorrente, onde a lógica das
possibilidades e da viabilidade se sobrepõem aos critérios da verdade e da
validade (Coimbra, 1996).
A escolha da perspectiva ecológica e desenvolvimental justifica-se pelo facto
de proporcionar um quadro conceptual que permite articular as variáveis pessoais
e as contextuais, ultrapassando as dicotomias do “todo social” extrapessoal –
das abordagens de cariz mais sociológico – e o “todo pessoal” intrapessoal – da
tradição psicológica clássica – (Campos, 1992). A perspectiva ecológica do
desenvolvimento humano (Bronfenbrenner, 1997; 1986) oferece a possibilidade de
uma reconceptualização do desenvolvimento humano em geral no contexto de
interacções significativas, dinâmicas e recíprocas entre o sujeito em
desenvolvimento e os seus contextos de vida, percepcionando-se, especificamente,
o desenvolvimento vocacional como um processo desconstrutivo/reconstrutivo de
significados e representações que o self estabelece na relação com a
família e com o mundo em que se insere (Vondracek et al., 1986). Porque
os sujeitos não se constróem exclusivamente a partir de guiões, planos,
projectos e recursos internos, mas estes entrecruzam-se com os guiões, planos,
projectos e recursos do mundo dos outros (Gergen, 1989).
Esta perspectiva também proporciona um quadro de referência fundamental para
a intervenção psicológica, colocando em questão as intervenções clássicas que
limitam o âmbito da sua acção aos sistemas pessoais, para propor, em
alternativa, o alargamento da intervenção aos contextos de vida mais imediatos.
Como o presente trabalho se circunscreve aos limites da família, enquanto
primeiro e nuclear contexto de desenvolvimento, com incidências na
auto-organização do indivíduo, para avaliar em que medida os outros
significativos têm um impacto relevante no desenvolvimento vocacional,
recorreu-se à perspectiva sistémica da família, como instrumento de análise,
para perceber como a realidade familiar se auto-organiza e auto-regula ao longo
do ciclo vital, como constrói a sua identidade sistémica e, simultaneamente,
como contribui para a construção da identidade de cada um dos elementos que a
constituem.
Objectivos específicos
Assim, os objectivos específicos deste estudo podem ser enunciados como
segue:
1. analisar a influência de um conjunto de variáveis do clima psicossocial da
família no desenvolvimento vocacional, através de um estudo transversal, numa
população de adolescentes e jovens portugueses, do 9º e 12º anos de
escolaridade;
2. Identificar e analisar as diferenças da influência do contexto
psicossocial da família no desenvolvimento vocacional em função das variáveis
ligadas ao género, nível de escolaridade e ao nível socio-económico.
Hipóteses levantadas
Neste estudo de carácter exploratório foram levantadas algumas hipóteses a
partir da revisão da literatura sobre o domínio em análise, da experiência da
intervenção em consulta psicológica vocacional e da produção teórica nesta
temática, que seguidamente se enunciam:
1. Espera-se encontrar uma relação entre contextos familiares com níveis
satisfatórios equilibrados de coesão (grau de compromisso, ajuda e apoio que os
membros da família providenciam uns aos outros) e expressividade (até que ponto
os membros da família são encorajados a agir abertamente e a expressar
directamente os seus sentimentos), e um maior envolvimento em actividades de
exploração vocacional e investimentos e uma baixa tendência para excluir opções,
ou seja, de fazer investimentos sem exploração.
2. Espera-se encontrar uma relação positiva entre famílias conflituosas
(zangas, agressões e conflitos frequentes, que são expressos abertamente entre
os membros da família) e níveis baixos de actividades de exploração e
investimento vocacional.
3. Espera-se encontrar uma associação entre as dimensões de crescimento
proporcionadas pelos contextos familiares (orientação intelectual, cultural e
recreativa e orientação para o sucesso) e níveis elevados de exploração e
investimento vocacional.
4. Espera-se encontrar uma relação positiva entre níveis funcionais
(equilibrados/adequados) de organização e controle (grau de importância dada à
estrutura familiar e à definição de regras e procedimentos para gerir a vida da
família) do sistema familiar e comportamentos de exploração e investimento
vocacional.
5. Espera-se encontrar, diferenças entre os alunos do 9º e do 12º anos de
escolaridade quanto às representações das variáveis do contexto familiar no
desenvolvimento vocacional.
6. Não se espera encontrar diferenças quanto ao sexo, relativamente às
condições do clima psicossocial da família e ao nível de exploração e
investimento vocacionais.
7. Espera-se encontrar diferenças quanto ao nível socio-económico,
relativamente às condições do clima psicossocial da família e ao nível de
exploração e investimento vocacionais.
Variáveis
As variáveis consideradas neste estudo são: o clima psicossocial da família,
o desenvolvimento vocacional, o género, o ano de escolaridade e o nível
socio-económico.
O clima psicossocial da família foi avaliado através da Escala do Ambiente
Familiar, Family Environment Scale - Forma R (Moos & Moos, 1986), que
operacionaliza as representações do ambiente familiar através das dimensões:
coesão/expressividade, conflito, orientação intelectual/cultural e recreativa,
orientação para o sucesso, ênfase religiosa e organização e controle.
O desenvolvimento vocacional foi avaliado recorrendo à Escala do Investimento
na Escolha Vocacional, Commitment to Career Choice Scale (Blustein et
al., 1989), que operacionaliza o desenvolvimento vocacional em comportamentos de
exploração, investimento e investimento sem exploração (tendência para a
exclusão de opções).
Caracterização da amostra
A amostra é constituída por 426 alunos, sendo 183 rapazes (43%) e 243
raparigas (57%), do 9º e 12º anos de escolaridade da região do Grande Porto, de
duas escolas secundárias situadas em áreas geográficas diferentes: uma numa zona
residencial mais favorecida do ponto de vista socio-económico, e outra da
periferia, atingindo uma população mais desfavorecida de bairros sociais, para
que se pudesse garantir uma amostra equilibrada, tendo em conta a variável nível
socio-económico (ver quadro 1).
Quadro 1
Caracterização da amostra em função do NSE, sexo,
ano de escolaridade. N= 426
|
NSE |
Alto |
Médio |
Baixo |
Total |
|
SEXO
ANO |
Fem |
Masc |
Total |
Fem |
Masc |
Total |
Fem |
Masc |
Total |
Fem |
Masc |
Total |
|
|
9º |
47 |
41 |
88 |
29 |
32 |
61 |
36 |
36 |
72 |
112 |
109 |
221 |
|
|
12º |
38 |
17 |
55 |
46 |
22 |
68 |
47 |
35 |
82 |
131 |
74 |
205 |
|
|
TOTAL |
85 |
58 |
143 |
75 |
54 |
129 |
83 |
71 |
154 |
243 |
183 |
426 |
|
Apresentação e discussão dos resultados do clima psicossocial da família e
o desenvolvimento vocacional
Neste momento, apresentam-se e discutem-se os resultados da correlação entre
dois conjuntos de variáveis, dos quais o primeiro diz respeito ao ambiente
psicossocial da família e o segundo ao desenvolvimento vocacional, para
verificar se existem e, em caso afirmativo, quais as relações que poderão
existir entre os contextos familiares e a orientação e desenvolvimento dos
filhos adolescentes.
Para comparar os dois conjuntos de variáveis optou-se pela correlação
canónica, como técnica de análise estatística. Este tratamento é particularmente
útil em situações empíricas em que se pretende comparar dois conjuntos de
variáveis métricas ou numéricas (Hair, Anderson, Tatan & Black, 1995; Stevens,
1996; Tabachnick & Fidel, 1989; Thompson, 1995).
Quando se pretende correlacionar múltiplas variáveis independentes e
dependentes, como é o caso desta investigação, a correlação canónica é o
tratamento mais adequado e poderoso, porque permite uma análise discriminativa
das múltiplas dimensões de cada conjunto de variáveis e proporciona a máxima
correlação entre as várias dimensões. Assim sendo, a correlação canónica oferece
a estrutura óptima de cada conjunto de variáveis que maximiza a relação entre os
dois conjuntos de variáveis, funcionando um dos conjuntos como variável
independente e outro como variável dependente.
Apresentam-se, no quadro 2, os resultados globais da correlação canónica para
avaliar como as dimensões do ambiente familiar propostas pelo FES (Moos & Moos,
1986) que interferem no desenvolvimento vocacional de adolescentes e jovens,
avaliado pelas dimensões subjacentes ao CCCS (Blustein et al., 1989).
Quadro 2
Análise da correlação canónica global do ambiente
psicossocial da família (FES) e do desenvolvimento vocacional (CCCS).
|
F. Can. |
Rc. |
R2 |
Eigenval. |
% Var. |
Lambda de Wilks |
F |
G. L. |
P |
|
1 |
.424 |
.180 |
.219 |
77,964 |
.771 |
6,062 |
18 |
.0001* |
|
2 |
.207 |
.043 |
.045 |
15,911 |
.940 |
2,490 |
10 |
.006** |
|
3 |
.130 |
.017 |
.017 |
6,124 |
.983 |
1,739 |
4 |
.140 |
Nível de significância: *p<.0001; **p<.01; F. Can.= Função
canónica; Rc.= correlação canónica; R2= =quadrado da correlação canónica;
Eigenval.= Valor próprio; %Var.= Percentagem da variância explicada.
Da análise dos resultados pode concluir-se que existem duas raízes canónicas
com uma relação significativa (embora, a magnitude da segunda raiz seja inferior
a .30) entre os seis factores do clima psicossocial do ambiente familiar (FES) e
os três factores subjacentes à escala do desenvolvimento vocacional (CCCS) para
o total da amostra, com um Lambda de Wilks =.771, F (G. L.= 18)= 6,062, P= .0001
para a primeira raiz canónica, e com um Lambda de Wilks = .940, F (G. L.= 10)=
2,490, P= .006 para a segunda raiz canónica. A primeira raiz canónica explica
78% da variância e a segunda raiz 16% da variância total. A leitura destes
resultados permite concluir, globalmente, que o ambiente familiar tem um
impacto, óbvio, no desenvolvimento vocacional de adolescentes e jovens.
Para que uma correlação canónica possa ser objecto de interpretação deve-se
ter em conta, por ordem de prioridades, a confluência de três critérios a saber:
a magnitude da raiz canónica a significância estatística da raiz canónica e o
nível de redundância resultante da percentagem da variância explicada a partir
dos dois conjuntos de variáveis (Hair et al., 1995). Como, neste caso, a
magnitude da segunda correlação canónica é baixa, apesar da sua significância,
e, como o seu contributo, relativamente à primeira, para explicar a percentagem
da variância é modesto, não se fará qualquer interpretação da mesma.
Para se fazer uma interpretação das correlações canónicas, normalmente
recorre-se à estrutura de correlação canónica ou canonical loadings, que
permite verificar qual o contributo ou peso que cada variável tem na correlação
canónica, e analisar a relação entre as várias dimensões.
Quadro 3
Estrutura de correlação canónica (canonical
loadings) da amostra total.
|
VARIÁVEIS |
RAIZ 1 |
|
Coesão e expressividade |
.037 |
|
Conflito |
.250 |
|
Ênfase religiosa |
.380 |
|
Orientação intelectual/cultural/recreativa |
.049 |
|
Organização e controle |
.450 |
|
Orientação para o sucesso |
.951 |
|
Exploração vocacional |
.544 |
|
Investimento vocacional |
-.370 |
|
Tendência para excluir opções |
.742 |
Partindo do valor .30 como referência com significado (Tabachnick & Fidel,
1989), verifica-se, quando se faz a análise da estrutura de correlação canónica
da raiz canónica 1, que explica 78% da variância, que as dimensões da orientação
para o sucesso, da organização e controle e da ênfase religiosa estão
positivamente relacionadas com as dimensões da tendência para a exclusão de
opções (tendência a fazer escolhas sem exploração) e para a exploração
vocacional e negativamente relacionadas com a dimensão de investimento
vocacional (cf. Quadro 3).
Realizaram-se correlações canónicas intra-grupos: rapazes e raparigas, alunos
do 9º e 12º anos de escolaridade, e os três níveis socio-económicos, alto, médio
e baixo, para explorar se existiriam diferenças significativas quanto ao sexo,
ano de escolaridade e nível socio-económico.
Apresentação dos resultados da correlação canónica da amostra relativos ao
ano de escolaridade e ao nível socio-económico
Quadro 4
Análise da correlação canónica do ambiente
psicossocial da família (FES) e do desenvolvimento vocacional (CCCS) nos alunos
do 9º ano.
|
F. Can. |
Rc. |
R2 |
Eigenval. |
% Var. |
Lambda de Wilks |
F |
G. L. |
P |
|
1 |
.476 |
.227 |
.293 |
78% |
.714 |
3.985 |
18 |
.0001* |
|
2 |
.231 |
.053 |
.057 |
15% |
.924 |
1.618 |
10 |
.099 |
|
3 |
.153 |
.023 |
.024 |
7% |
.976 |
1.211 |
4 |
.307 |
Nível de significância:*p<.0001; F. Can.= Função canónica; Rc.=
correlação canónica; R2= quadrado da correlação canónica; Eingenval.= Valor
próprio; %Var.= Percentagem da variância explicada.
Quadro 5
Estrutura de correlação canónica (canonical
loadings) dos alunos do 9º ano para a raiz significativa.
|
VARIÁVEIS |
RAIZ 1 |
|
Coesão e expressividade |
-.056 |
|
Conflito |
.389 |
|
Ênfase religiosa |
.574 |
|
Orientação intelectual/cultural/recreativa |
-.172 |
|
Organização e controle |
.523 |
|
Orientação para o sucesso |
.828 |
|
Exploração vocacional |
.615 |
|
Investimento vocacional |
-.265 |
|
Tendência para excluir opções |
.738 |
Quadro 6
Análise da correlação canónica do ambiente
psicossocial da família (FES) e do desenvolvimento vocacional (CCCS) nos alunos
do 12º ano.
|
F. Can. |
Rc. |
R2 |
Eigenval. |
% Var. |
Lambda de Wilks |
F |
G. L. |
P |
|
1 |
.312 |
.097 |
.108 |
52% |
.819 |
2.197 |
18 |
.003* |
|
2 |
.259 |
.067 |
.072 |
35% |
.908 |
1.905 |
10 |
.043** |
|
3 |
.163 |
.027 |
.027 |
13% |
.973 |
1.323 |
4 |
.263 |
Nível de significância: *p<.001; **p=<.05; F. Can.= Função
canónica; Rc.= correlação canónica; R2= quadrado da correlação canónica;
Eigenval.= Valor próprio; %Var.= Percentagem da variância explicada.
Quadro 7
Estrutura de correlação canónica (canonical
loadings) dos alunos do 12º ano para as duas raízes significativas.
|
VARIÁVEIS |
RAIZ 1 |
RAIZ 2 |
|
Coesão |
.023 |
-.876 |
|
Conflito |
.346 |
.635 |
|
Ênfase religiosa |
.057 |
-.099 |
|
Orientação intelectual/cultural/recreativa |
.024 |
-.647 |
|
Organização/controle |
.338 |
.368 |
|
Orientação para o sucesso |
.929 |
-.267 |
|
Exploração vocacional |
.505 |
.432 |
|
Investimento vocacional |
-.245 |
.901 |
|
Tendência para excluir opções |
.611 |
.178 |
Analisando os quadros relativamente ao ano de escolaridade (Quadros 4 a 7),
nota-se uma diferença de resultados entre os alunos do 9º ano e do 12º ano de
escolaridade, confirmando uma das hipóteses (nº 5) avançadas neste estudo.
Enquanto no grupo do 9º ano apenas existe uma correlação canónica de magnitude
aceitável e significativa com um valor de Lambda de Wilks = .741, F (18) =
3.985, p= .0001, explicando 78% da variância total (cf. Quadro 4), no grupo dos
alunos do 12º ano de escolaridade há duas raízes canónicas significativas com um
valor de Lambda de Wilks = .819, F (18) = 2.197, p= .003, explicando a primeira
raiz 52% da variância total e a segunda raiz com um Lambda de Wilks = .908, F
(10)= 1.905, p= .043, explicando 35% da variância total (cf. Quadro 6). Também
são evidentes as diferenças entre os dois grupos relativamente ao peso que as
várias dimensões dos dois conjuntos de variáveis tem no contributo para a
explicação das correlações canónicas.
Centrando-se a análise na estrutura da correlação canónica verifica-se que,
no grupo dos alunos do 9º ano (cf. Quadro 5), existe uma relação positiva entre
as dimensões do sucesso, ênfase religiosa, organização e controle e conflito
(relativamente ao ambiente familiar) e as dimensões da tendência para a exclusão
de opções (investimentos sem exploração) e a exploração vocacional
(relativamente ao desenvolvimento vocacional), que se orientam no mesmo sentido
dos resultados da amostra total e das sub-amostras relacionadas com o sexo.
Nos alunos do 12º ano de escolaridade salienta-se, sobretudo, uma relação
positiva da dimensão do sucesso com a tendência para excluir opções e a
exploração vocacional, relativamente à primeira raiz canónica, deixando de ter
um peso significativo a dimensão da ênfase religiosa da família, comum a todos
os grupos analisados até ao momento. Quanto à segunda raiz, verifica-se uma
relação inversa entre a coesão e orientação intelectual/cultural e recreativa
com o investimento e a exploração vocacionais, e uma relação positiva entre o
conflito e organização e controle, por um lado, e o investimento e exploração
vocacionais, por outro (Quadro 7). Sublinhe-se que só neste grupo emerge a
dimensão do investimento correlacionada positivamente com as dimensões do
ambiente familiar, precisamente as dimensões do conflito e de organização e
controle.
Apresentam-se, em seguida, os quadros de resultados relativos às correlações
canónicas dos vários níveis socio-económicos:
Quadro 8
Análise da correlação canónica do ambiente
psicossocial da família (FES) e do desenvolvimento vocacional (CCCS) relativo ao
nível socio-económico alto
|
F. Can. |
Rc. |
R2 |
Eigenval. |
% Var. |
Lambda de Wilks |
F |
G. L. |
P |
|
1 |
.496 |
.246 |
.327 |
76% |
.682 |
2.959 |
18 |
.0001* |
|
2 |
.246 |
.061 |
.065 |
15% |
.905 |
1.335 |
10 |
.221 |
|
3 |
.190 |
.036 |
.038 |
9% |
.963 |
1.240 |
4 |
.297 |
Nível de significância:*p<.0001; F. Can.= Função canónica; Rc.= correlação
canónica; R2= quadrado da correlação canónica; Eigenval.= Valor próprio; %Var.=
Percentagem da variância explicada.
Quadro 9
Estrutura de correlação canónica do nível
socio-económico alto (canonical loadings) das variáveis canónicas com a raiz
significativa.
|
VARIÁVEIS |
RAIZ 1 |
|
Coesão e expressividade |
.238 |
|
Conflito |
.020 |
|
Ênfase religiosa |
.597 |
|
Orientaçãointelectual/cultural/recreativa |
.411 |
|
Organização e controle |
.599 |
|
Orientação para o sucesso |
.914 |
|
Exploração vocacional |
.324 |
|
Investimento vocacional |
-.487 |
|
Tendência para excluir opções |
.671 |
Quadro 10
Análise da correlação canónica do ambiente psicossocial
da família (FES) e do desenvolvimento vocacional (CCCS), no nível
socio-económico médio.
|
F. Can. |
Rc. |
R2 |
Eigenval. |
% var. |
Lambda de Wilks |
F |
G. L. |
P |
|
1 |
.369 |
.136 |
.157 |
50% |
.743 |
2.038 |
18 |
.008* |
|
2 |
.333 |
.111 |
.125 |
39% |
.859 |
1.851 |
10 |
.053 |
|
3 |
.182 |
.033 |
.034 |
11% |
.967 |
1.014 |
4 |
.403 |
Nível de significância:*p<.01; F. Can.= Função canónica; Rc.=
correlação canónica; R2= quadrado da correlação canónica; ingenval.= Valor
próprio; %Var.= Percentagem da variância explicada.
Quadro 11
Estrutura de correlação canónica (canonical
loadings) do nível socio-económico médio das variáveis canónicas com as raizes
significativas.
|
VARIÁVEIS |
RAIZ 1 |
RAIZ 2 |
|
Coesão |
-.129 |
-.580 |
|
Conflito |
.415 |
.422 |
|
Ênfase religiosa |
.460 |
.312 |
|
Orientação intelectual/cultural/recreativa |
.090 |
-.702 |
|
Organização/controle |
.489 |
.026 |
|
Orientação para o sucesso |
.807 |
.470 |
|
Esploração vocacional |
.793 |
.509 |
|
Investimento vocacional |
.049 |
.947 |
|
Tendência para excluir opções |
.455 |
-.642 |
Quadro 12
Análise da correlação canónica do ambiente
psicossocial da família (FES) e do desenvolvimento vocacional (CCCS), no nível
socio-económico baixo.
|
F. Can. |
Rc. |
R2 |
Eigenval. |
% Var. |
Lambda de Wilks |
F |
G. L. |
P |
|
1 |
.476 |
.227 |
.293 |
78% |
.714 |
2.725 |
18 |
.0001* |
|
2 |
.250 |
.063 |
.067 |
18% |
.923 |
1.124 |
10 |
.343 |
|
3 |
.122 |
.015 |
.015 |
4% |
.985 |
.528 |
4 |
.715 |
Nível de
significância:*p<.0001; F. Can.= Função canónica; Rc.= correlação canónica; R2=
quadrado da correlação canónica; Eigenval.= Valor próprio; %Var.= Percentagem da
variância explicada.
Quadro 13
Estrutura de correlação canónica (canonical
loadings) do nível socio-económico baixo das variáveis canónicas com a raiz
significativa.
|
VARIÁVEIS |
RAIZ 1 |
|
Coesão e expressividade |
-.033 |
|
Conflito |
.377 |
|
Ênfase religiosa |
.128 |
|
Orientação intelectual/cultural/recreativa |
-.052 |
|
Organização e controle |
.304 |
|
Orientação para o sucesso |
.926 |
|
Exploração vocacional |
.666 |
|
Investimento vocacional |
-.368 |
|
Tendência para excluir opções |
.825 |
Pela análise dos quadros 8 a 13, pode constatar-se que existe nos três níveis
socio-económicos (alto, médio e baixo) apenas uma raiz canónica significativa,
embora no nível socio-económico médio existam duas raízes com magnitude
aceitável (.369 e .333) e nos NSE alto e baixo, apenas uma em cada.
Assim, a correlação canónica significativa para o nível socio-económico alto
tem um Lambda de Wilks = .682, F (G. L.=18)= 2.959, P= .0001, explicando 76% da
variância total (ver Quadro 8); no nível socio-económico médio tem um Lambda de
Wilks = .743, F (G. L.=18)= 2.038, P= .008, explicando 50% da variância total
(ver Quadro 10); no nível socio-económico baixo tem um Lambda de Wilks = .714, F
(G. L.=18)= 2.725, P= .0001, explicando 78% da variância total (ver Quadro 12).
A leitura das estruturas de correlação canónica permite concluir que, no
nível socio-económico alto, existe uma correlação positiva entre as dimensões do
sucesso, organização e controle, ênfase religiosa com a tendência para excluir
opções (realizar escolhas sem exploração) e a exploração vocacional e uma
relação negativa com o investimento (cf. Quadro 9), resultados comuns à amostra
total e ao sexo.
No nível socio-económico baixo, são as dimensões do sucesso e do conflito que
estão relacionadas positivamente com as dimensões da tendência para excluir
opções e a exploração vocacional, e negativamente com o investimento (cf. Quadro
13).
No nível socio-económico médio, porque se registam duas raízes canónicas com
uma magnitude superior a .30 (cf. Quadro 9), realizar-se-á uma interpretação dos
resultados das duas raízes, apesar de a segunda não ser significativa (Hair
et al., 1995).
Analisando a estrutura de correlação canónica da raiz 1, constata-se que
existe uma relação positiva entre o sucesso, organização e controle, ênfase
religiosa e conflito e a exploração vocacional e a tendência para realizar
escolhas sem exploração (excluir opções).
Na raiz 2, verifica-se existir uma relação positiva entre o sucesso e o
conflito e o investimento e exploração vocacionais e negativa com a tendência a
excluir opções; e além disso, constata-se uma associação negativa entre a
orientação cultural e recreativa e a coesão familiar e as dimensões do
desenvolvimento vocacional – investimento e exploração e positiva com a
tendência para excluir opções.
Discussão global dos resultados da influência das dimensões do contexto
familiar no desenvolvimento vocacional de adolescentes e jovens
Após se ter apresentado, minuciosamente, os resultados das correlações
canónicas dos vários sub-grupos analisados, para verificar a relação entre as
dimensões do contexto familiar, avaliadas pelo FES (Moos & Moss, 1986), e as do
desenvolvimento vocacional, avaliadas pelo CCCS (Blustein et al.,1989),
reflectem-se um conjunto de considerações na tentativa de explicar o significado
psicológico e social para os resultados na sua globalidade, nas relações
partilhadas entre os vários sub-grupos estudados em separado e uma interpretação
das especificidades dos vários sub-grupos onde se verificaram diferenças.
Registe-se, a partir da análise global dos resultados das correlações
canónicas dos vários sub-grupos, que as relações entre as várias dimensões do
contexto familiar e do desenvolvimento vocacional orientam-se, na sua
generalidade, no mesmo sentido, havendo uma forte articulação entre as
dimensões, por ordem de importância, do sucesso, organização e controle, ênfase
religiosa, conflito com a exploração vocacional e tendência para excluir opções
e uma relação inversa com o investimento vocacional.
De salientar que, nos alunos do 12º ano de escolaridade e o nível
socio-económico médio, existe, por um lado, uma relação positiva entre as
dimensões do contexto familiar (conflito e organização e controle) e o
investimento e exploração vocacionais, e, por outro, uma associação negativa
entre a coesão e a exploração e o investimento, e positiva com a tendência para
fazer escolhas sem exploração (exclusão de opções).
A interpretação que se poderá adiantar em relação aos resultados da amostra
total e das duas sub-amostras relativas ao género, quanto às representações que
os adolescentes e jovens possuem das mensagens transaccionadas na família sobre
a orientação para o sucesso e sua relação com a tendência para excluir opções,
ou seja, para fazer investimentos sem exploração, é compreensível dentro da
dinâmica da circularidade sistémica. Isto é, os contextos familiares marcados
pela competição, onde se transmitem mensagens insistentes de que o sucesso se
tem de conseguir a qualquer preço, pode levar o sujeito a fazer investimentos
imediatos sem os explorar, ao confrontar-se com a décalage entre as
expectativas dos pais, demasiado elevadas, e a inadequação aos seus recursos
pessoais (Young et al., 1994).
A relação entre organização e controle e a tendência para a exclusão de
opções pode ser interpretada a partir da teoria sistémica e confirmada por
várias investigações (Eigen et al., 1987; Penick & Jepsen, 1992; Young
et al., 1994). Estes autores sublinham que as famílias aglutinadas e pouco
diferenciadas, marcadas por um forte controle (rigidificação) das figuras
parentais, não proporcionam oportunidades de exploração.
Quanto à ênfase religiosa da família, se se fizer uma análise cuidadosa aos
itens da escala, aponta, na sua generalidade, para valores rigidificados e
tradicionais de uma religiosidade familiar, marcadamente sociológica,
institucionalizada e extrínseca ao sujeito, demarcando-se, claramente, de uma
opção livre e esclarecida pelos valores do Evangelho que mantêm uma abertura aos
princípios éticos universais, nomeadamente pelo respeito pela pessoa humana. Por
isso, famílias com esta identidade, em termos de cultura e valores religiosos,
poderão ser inibidoras de experiências diversificadas de exploração vocacional.
Pelo já dito, deixa-se antever que, famílias equilibradas entre um ambiente
estruturado e flexível, que incentivem o investimento, mas sem imporem padrões
de sucesso inadequados aos recursos dos sujeitos, poderão oferecer um contexto
que garante experiências multivariadas de exploração através da relação que se
estabelece com o mundo (Eigen et al., 1987; Penick & Jepsen, 1992; Young
et al., 1994).
Na tentativa de apresentar uma interpretação para os resultados diferenciados
em relação aos anos de escolaridade, remetem-nos para factores ligados ao
desenvolvimento global. Os alunos do 12º ano são mais diferenciados, autónomos e
com maior complexidade cognitiva do que os alunos do 9º ano de escolaridade, nas
suas análises e representações sobre o contexto familiar. Assim, a relação
negativa entre as dimensões de coesão e orientação para actividades culturais e
recreativas e comportamentos de exploração e investimento vocacional poderá
significar a afirmação do processo de autonomização dos jovens em relação às
figuras significativas e o assumir o seu próprio protagonismo na construção do
seu itinerário vocacional.
Este mesmo resultado, aparentemente, infirmaria a primeira hipótese levantada
neste estudo. Contudo, partindo da dinâmica circular sistémica, se, por um lado,
os contextos familiares demasiado coesos (aglutinados) podem inibir a
diferenciação e não proporcionar experiências de exploração do mundo, por outro,
contextos familiares que não garantam experiências de apoio doseados com
momentos de desafio, não se constituirão em ambientes seguros capazes de
promover sujeitos autónomos na construção dos seus itinerários vocacionais (Eigen
et al., 1987; Kinier et al., 1990; Lopez & Andrews, 1987; Young
et al., 1994)
A relação positiva entre a dimensão do conflito e a organização e controle e
o investimento e a exploração também parece estar em oposição à segunda hipótese
que se levantou neste estudo. Se atendermos, como já foi mencionado, que os
níveis de conflito, tal como este é definido pela FES, são, em média, baixos (no
12º ano, a média é de 23.22, numa margem de variação que tem 54 como valor
máximo) na amostra deste estudo, parece mais claro que contextos familiares que
oferecem um nível moderado de organização e controle com momentos de algum
conflito, produzido, eventualmente, pela confrontação de vários pontos de vista,
possam facilitar experiências de exploração e investimentos, cujo principal
protagonista seja o próprio sujeito (Young et al., 1994).
Relativamente, às diferenças verificadas nos diversos níveis socio-económico,
partindo da análise da estrutura de coeficientes da segunda raiz do nível
socio-económico médio, que explica 39% da variância total, (não se refere a
primeira raiz, porque as dimensões relacionadas orientam-se no mesmo sentido dos
resultados gerais), os resultados parecem indicar que estes sujeitos têm uma
representação do impacto do contexto familiar no desenvolvimento vocacional com
conotações diferenciadas em relação aos níveis socio-económicos altos e baixos.
Assim no nível socio-económico médio, por um lado, as dimensões doseadas e
equilibradas de sucesso e de conflito são importantes para promoverem
comportamentos de exploração vocacional e investimentos; por outro lado, as
dimensões de coesão elevada (neste caso, aglutinação) e de actividades
intelectuais, culturais e recreativas realizadas conjuntamente na família não
promovem a exploração e o investimento, mas sim escolhas sem exploração. Nos
sujeitos de níveis socio-económicos altos e baixos são as dimensões do sucesso,
da organização e controle e da ênfase religiosa que estão relacionadas
positivamente com a tendência para excluir opções e para a exploração vocacional
e negativamente com o investimento.
Ora, o sentido das diferenças constatadas pode ser interpretado como uma
tendência para um maior grau de autonomia dos sujeitos de nível socio-económico
médio em relação aos seus contextos familiares no domínio das escolhas
vocacionais. As diferenças tornam-se compreensíveis se considerar a abertura e
dinamismo que caracterizam os níveis socio-económicos intermédios relativamente
à mobilidade social ascendente. Nos níveis elevado e baixo, por razões de
natureza bem diversa, predomina a convencionalidade ligada à reprodução do
estilo de vida dominante ou à escassez de oportunidades para contrariar o
determinismo da origem socio-económica.
O significado psicológico e social destas diferenças pode ser explicado pelo
facto de o grupo de nível socio-económico médio, na cultura portuguesa, ser o de
maior mobilidade social, assumindo um papel decisivo nas grandes transformações
sociais e políticas. Por isso, surge como o grupo mais dinâmico, mais
competitivo e com expectativas elevadas quanto ao seu protagonismo no mundo da
cultura e profissional. Estas mensagens são transmitidas implícita ou
explicitamente no contexto familiar e coexistem com os dispositivos necessários
em termos de apoios afectivos e instrumentais para garantirem projectos de
formação e de profissão que possam proporcionar o sucesso pessoal e familiar.
Quanto ao nível socio-económico alto tende a ser, normalmente, um grupo mais
cristalizado e acomodado onde, em muitos casos, os apoios instrumentais se
sobrepõem aos emocionais. Por isso, nos sujeitos deste grupo nível
socio-económico alto, existe uma relação positiva entre as dimensões do contexto
familiar, sucesso, organização e controle e ênfase religiosa e orientação para
actividades culturais e recreativas com a tendência para excluir opções (fazer
investimentos sem exploração) e a exploração vocacional, e negativa com o
investimento. Estas famílias tendem a ser contextos favoráveis à emergência de
sujeitos com estatutos de identidade outorgada, favoráveis ao cumprimento do
projecto vocacional da família, ou então, sujeitos em difusão.
Relativamente ao nível socio-económico baixo, a relação positiva entre o
sucesso, organização e controle e conflito com a tendência para a exclusão de
opções (investimento sem exploração) e com a exploração, e negativa com o
investimento pode explicar-se pelo facto de estes sujeitos terem expectativas
reduzidas quanto ao seu projecto de vida (formação, profissão), porque as
mensagens veiculadas na sua família de origem e nos seus contextos de vida mais
próximos vão nesse sentido e porque os constrangimentos económicos e sociais os
empurram inevitavelmente para a primeira oportunidade de trabalho que lhes
garante a si e aos seus a sobrevivência, porque, em muitos casos, a exploração é
um privilégio que resulta de pertencer a uma família com um determinado nível
socio-económico (Gonçalves & Coimbra, 1995). No que se refere à dimensão da
exploração, provavelmente, explica-se pelas variáveis mediadoras que poderão
interferir nos resultados, porque os grupos socio-económicos em si não são
homogéneos, portanto, no grupo socio-económico baixo pode haver sujeitos que,
muito provavelmente, fazem investimentos sem exploração, por exemplo, aqueles
que deixam precocemente a formação e entram no mundo do trabalho; e haverá
sujeitos que continuam a exploração, provavelmente, aqueles que conseguiram
libertar-se da lógica do determinismo do seu grupo social de pertença.
A investigação realizada confirma, na sua globalidade, que o contexto
familiar influencia o processo de desenvolvimento vocacional dos adolescentes e
jovens, sublinhando que há contextos de vida que proporcionam experiências de
qualidade desenvolvimental, – em termos de oportunidades de exploração e
investimento –, e outros que inviabilizam essas oportunidades. O desenvolvimento
vocacional pode ser facilitado pelo ambiente familiar, quando fornece um
contexto securizante, apoiante, desafiante, encorajador e promotor da autonomia
ou obstaculizado, quando os contextos familiares são aglutinados,
desmesuradamente competitivos, negligentes, rigidificados e pouco facilitadores
da diferenciação e autonomia.
Como já foi sublinhado no decorrer deste trabalho, a produção de conhecimento
sobre a realidade deve implicar a transformação da realidade percebida. A
confirmação da relevância da influência do contexto familiar no desenvolvimento
vocacional de adolescentes e jovens coloca o repto aos profissionais de
psicologia que intervêm nesta dimensão do desenvolvimento psicológico, de
elaborarem, implementarem e avaliarem projectos de consulta psicológica
vocacional que não se circunscrevam apenas ao sistema individual, mas os
alarguem aos contextos de vida decisivos e de maior acessibilidade, como a
família, para proporcionar aos adolescentes e jovens um contexto securizante,
facilitando-lhes oportunidades, experiências e apoios qualificados neste domínio
do desenvolvimento psicológico e, simultaneamente, transformando a família num
agente dinâmico com protagonismo no desenvolvimento vocacional.
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