Novo modelo de intervenção em contexto de transição para a vida activa Casimiro Ferreira Gomes cgomes@iefp.pt Instituto do Emprego e Formação Profissional 2003
Idioma: português Palavras-chave: Exploração reconstrutiva, jovens, vida activa.
Resumo
Resumo
Em consequência da incerteza e da imprevisibilidade que actualmente rodeia o
mercado de trabalho, em que a relação entre formação, profissão e emprego é cada
vez mais precária e incerta, os indivíduos vêm-se confrontados, ao longo da sua
vida activa, com problemas complexos relacionados com o ingresso e permanência
no mercado de trabalho. Face a este aumento da incerteza em torno dos
itinerários profissionais, a orientação escolar e profissional deve ser encarada
como apoio sistemático à construção de projectos de vida, de modo a que seja
dada a todos, jovens e adultos, a oportunidade de em qualquer altura da suas
trajectórias, educativa ou profissional, explorarem e (re)direccionarem a sua
relação de investimento com o mundo. Nesta perspectiva, transição para a vida
activa já não deve ser encarada como um acontecimento ocasional, que se esgota
num acto único de escolha, mas sim como um processo que se desenrola ao longo do
ciclo de vida do indivíduo.
Introdução
O ingresso na vida activa é um caminho,
seguramente longo, muitas vezes escarpado
e com curvas cegas, mas, sendo caminho,
faz-se caminhando.
Em consequência da incerteza que actualmente rodeia o mercado de trabalho, os
indivíduos vêm-se confrontados, ao longo da sua vida activa, com problemas
complexos relacionados com o ingresso e permanência no mercado de trabalho.
Considerando que a relação sujeito-trabalho ocupa um lugar muito central no
projecto de vida que cada um constrói, a orientação escolar e profissional deve
ser encarada como apoio sistemático à construção de projectos de vida, de modo a
que seja dada a todos, jovens e adultos, a oportunidade de em qualquer altura da
suas trajectórias, educativa ou profissional, explorarem e (re)direccionarem a
sua relação com o mundo. Nesta perspectiva, transição para a vida activa já não
deve ser encarada como um acontecimento ocasional, que se esgota num acto único
de escolha, mas sim como um processo que se desenrola ao longo do ciclo de vida
do indivíduo, o que implica considerar os projectos de vida como estando
permanentemente em construção.
Por questões de método e de clareza, a abordagem do tema articular-se-à em
torno de duas partes: na primeira, de enquadramento, será apresentada, uma nova
concepção de intervenção em orientação escolar e profissional, conhecida como
modelo de “exploração reconstrutiva do investimento vocacional”; na segunda,
perspectivando a intervenção em orientação como apoio à gestão de carreira,
serão apresentados os objectivos desenvolvimentais e as estratégias de
exploração reconstrutiva em intervenções de desenvolvimento vocacional.
1. Exploração reconstrutiva do investimento vocacional
Face ao aumento da incerteza em torno dos itinerários profissionais a que
hoje se assiste, a orientação profissional já não pode ser encarada como uma
intervenção destinada a apoiar adolescentes e jovens na construção e
implementação de projectos pessoais e profissionais lineares, articulando,
sequencialmente, formação escolar, qualificação profissional, profissão e
emprego (Coimbra, 1997/ 1998). Esta lógica, decorrente dos modelos clássicos do
desenvolvimento vocacional, pressupondo a estabilidade dos atributos individuais
e das características das formações e das profissões (Imaginário, 1997/1998),
apresenta-se hoje como uma concepção muito discutível do processo de
desenvolvimento vocacional, muito particularmente durante o período de vida
adulta. Segundo esta perspectiva, o problema da escolha vocacional dos jovens
era reduzido a uma questão de (falta de) conhecimento na sua acepção mais
racionalista – a intervenção, assente em estratégias de tipo instrutivo, era
concebida como um mero processo de exploração de si próprio e da rede de
oportunidades disponíveis com vista a uma tomada de decisão racional sobre o
caminho a seguir.
Este tipo de intervenções, assente predominantemente na transmissão de
informação relativa a formações e profissões, não se tem revelado eficaz na
promoção de comportamentos de exploração vocacional. Para além disso, diversos
estudos têm questionado o papel da informação na orientação profissional. Bodden
e James (1976), citados por Campos (1992), num dos primeiros estudos sobre esta
questão verificaram que o fornecimento de informação, comparada com a sua
ausência, diminuía a diferenciação vocacional e os autores advertiam mesmo que
os Conselheiros de Orientação Profissional deveriam ter presente que os
indivíduos “podem distorcer a informação nova de modo a que esta se adeque às
visões preconcebidas do mundo do trabalho”, pelo que não deviam assumir com
facilidade que “fornecer informação é uma ajuda útil para uma boa decisão
vocacional”. Os referidos autores verificaram inclusivamente que,
contrariamente ao esperado, a oferta de informação diminuía a complexidade
cognitiva dos indivíduos na representação do mundo profissional.
Estudos posteriores permitiram clarificar melhor esta questão. Mais
precisamente, constatou-se que a simplificação cognitiva estava associada a
certas características da informação profissional. Assim, enquanto a informação
positiva sobre as profissões diminuía a diferenciação cognitiva do sistema de
construtos vocacionais, a informação negativa ou mista aumentava os níveis de
diferenciação. Por outras palavras, a capacidade dos indivíduos para construir
representações multidimensionais e complexas do mundo profissional, depende da
violação das suas expectativas (Gomes, 2002).
Hoje, perante o actual cenário de incerteza e de imprevisibilidade que o
futuro descarrega no presente, em que as relações entre formações, profissões e
empregos são cada vez mais precárias e incertas, a intervenção da orientação
profissional deve ser perspectivada como um processo de transformação da relação
que cada indivíduo estabelece com o meio envolvente, passando a racionalidade da
decisão para plano secundário.
Segundo esta perspectiva, dita de exploração reconstrutiva do investimento
vocacional, (Campos e Coimbra, 1991), não se considera o sujeito e o mundo
como duas realidades independentes entre as quais é necessário estabelecer
relações. O ponto de partida é precisamente a relação que o sujeito mantém
permanentemente com o mundo (escolar, profissional, social, etc.). Desta forma,
a intervenção da orientação profissional consiste em criar condições para que a
relação sujeito-mundo se vá progressivamente (re)construindo, proporcionando aos
jovens experiências de aproximação à vida activa susceptíveis de os ajudar a
transformar a sua relação com o mundo (Gomes, 2002). É no seio dessas
experiências de acção, de contacto directo com pessoas e situações
representativas da vida adulta e do mundo profissional, que os jovens vão
construindo os seus interesses e melhorando o conhecimento de si próprios e da
realidade circundante (Campos e Coimbra, 1991). Tais experiências devem ser
significativas para os sujeitos, isto é, devem corresponder às suas
necessidades, interesses e desejos (por outras palavras, devem fundamentar-se na
relação actual de investimento) e devem, tanto quanto possível, ser originadas
na insatisfação sentida pelo sujeito.
Segundo a concepção de exploração reconstrutiva, aptidões, capacidades,
interesses e motivações de cada um constituem não um dado a constatar, descobrir
ou avaliar, mas sim atributos a construir, desconstruir e reconstruir no decurso
das experiências de vida (Imaginário, 1997/1998). De acordo com o referido
modelo, a escolha de uma formação ou uma profissão não resulta tanto da relação
de conhecimento que o jovem estabelece com o mundo (variável de ordem
cognitiva), mas sim da articulação desta com variáveis afectivas, motivacionais
e comportamentais, o que transforma o processo de escolha vocacional numa
contínua (re)negociação dos compromissos estabelecidos, pelo sujeito, entre as
suas expectativas e desejos pessoais e as oportunidades e os constrangimentos
sociais.
Contudo, para que as experiências de aproximação à vida activa não se mostrem
improdutivas do ponto de vista de desenvolvimento vocacional dos jovens, é
necessário articular essas experiências de acção com ocasiões regulares de
integração, as quais poderão, por exemplo, ter lugar através de discussões de
grupo orientadas pelo Conselheiro de Orientação Profissional. Só desta forma
será possível promover nos indivíduos uma sucessão equilibrada de momentos de
desestruturação-estruturação, dotando-os de uma capacidade crescente para
compreender e agir sobre os meios escolar e profissional.
2. Objectivos desenvolvimentais e estratégias de intervenção
Face à turbulência e imprevisibilidade das mudanças que ocorrem no mercado de
trabalho, hoje, mais do que nunca, a construção de um projecto de vida é um
problema que diz respeito a todos – jovens e adultos, empregados ou
desempregados, ainda que se confrontem com problemas diferentes, todos têm
necessidade de usar os seus conhecimentos e competências para desenvolver e
concretizar objectivos realistas que contribuam para a sua satisfação pessoal e
profissional. De entre as múltiplas dimensões que constituem os projectos de
vida, há uma que assume particular importância – trata-se do planeamento e
gestão da carreira profissional, o que, no caso dos jovens, é genericamente
designado por processo de transição para a vida activa.
No caso dos jovens, planear uma carreira encerra, hoje, mais incógnitas do
que certezas. Planear significa obter um diploma e projectar a sua vida sem
saber quando obterão o primeiro emprego, quanto tempo durará, se esse e os
empregos ou actividades que se lhe seguem terão algo a ver com a formação
inicial ou quantas vezes terão de mudar de emprego ou mesmo de área de
actividade ao longo da vida profissional (Azevedo, 1999). Por outras palavras,
perante um tal cenário de imprevisibilidade, em que as carreiras profissionais
se desenvolvem em “voo de borboleta” (Azevedo, 1999), a adaptabilidade
afirma-se, desde o ingresso na vida activa, como uma condição essencial no que
respeita ao desempenho do papel de trabalhador.
Mas, apesar de todas as indefinições, o caso acima retratado (ingresso na
vida activa devidamente certificado escolar e profissionalmente), ainda é o dos
indivíduos melhor preparados para enfrentar o desafio de construção e de
implementação de projectos profissionais. E que dizer dos milhares de jovens que
todos os anos abandonam o sistema de educação-formação sem certificação escolar
e sem qualificação profissional? Estes jovens, ingressando na vida activa nesta
situação de dupla desqualificação, estão (praticamente) condenados a
trajectórias de vida caracterizadas, do ponto de vista profissional, por uma
empregabilidade reduzida, ocupação de postos de trabalho precários,
indiferenciados e mal remunerados, com todos os riscos que essa situação
comporta em termos de (potencial) exclusão social futura (Detry e Cardoso,
1996). Nesta perspectiva, em vez de se falar em transição para a vida activa,
mais adequado seria falar-se em transições, tal a diversidade possível de
situações dos jovens à saída do sistema de educação-formação.
Mas as tarefas de escolha vocacional não se restringem a uma determinada
altura da vida das pessoas. Essas tarefas vão emergindo sob a forma de problemas
que fazem a sua aparição ao longo da existência das pessoas. Longe vai o tempo
em que, feita a formação inicial, preferencialmente antes do ingresso na vida
activa, e adquirida uma determinada qualificação profissional, um indivíduo
podia projectar, com uma elevada dose de segurança, uma carreira profissional.
Hoje, mesmo os trabalhadores empregados e qualificados, devem prestar especial
atenção à gestão da sua profissionalidade e da sua própria carreira
profissional, mantendo, dessa forma, um elevado nível de empregabilidade ao
longo da vida activa. Esta necessidade advém tanto da actual reconfiguração
acelerada das profissões (introdução de novas tecnologias e consequente
obsolescência rápida das qualificações, emergência de novos perfis
profissionais, etc), como, fruto da globalização e das reestruturações de
empresas e ou de sectores de actividade um número crescente de trabalhadores
ver-se na contingência de operar profundas reconversões nas suas carreiras,
enveredando por profissões diferentes. Hoje, ingressar e permanecer no mercado
de trabalho, exige lidar, adequadamente, com as tarefas previsíveis e
imprevisíveis relacionadas com o desempenho do papel de profissional, ou, por
outras palavras, exige uma crescente capacidade de adaptabilidade e de
flexibilidade perante os desafios e uma permanente disponibilidade para formação
ao longo da vida.
Em consequência da flexibilização das leis laborais e da crescente
precarização dos vínculos contratuais, da passagem, ao longo da vida activa, por
vários períodos de emprego e de desemprego, a intervenção em orientação
vocacional deve ser perspectivada como apoio sistemático à gestão de carreira,
isto é, como apoio ao processo através do qual, jovens e adultos, implementam e
monotorizam objectivos e estratégias vocacionais dirigidos para a concretização
das aspirações, desejos e necessidades inerentes à relação mantida com a
aprendizagem e com o trabalho (Coimbra, Parada e Imaginário, 2001).
Esta mudança de perspectiva, decorrente da evolução do mercado de trabalho,
mostra-se mais congruente com a actual reconfiguração das carreiras
profissionais. Tradicionalmente, entendia-se por carreira profissional a
progressão regular e hierárquica desenvolvida no contexto de uma profissão ou
sector de actividade (Castro e Pego, 1999/2000). Esta noção, assente no
pressuposto da estabilidade das qualificações e dos empregos, não se mostra
compatível com a actual dinâmica do mundo profissional. Hoje a noção de carreira
não pode ser concebida como a concretização de um único e grande projecto, mas
antes como a concretização de uma série de pequenos projectos, eventualmente
orientados por um objectivo, envolvendo (ou podendo envolver) uma multiplicidade
de trajectos. Nesta acepção, carreira remete para o sentido pessoal e individual
dos investimentos educativos e profissionais, para a sucessão de aprendizagens,
experiências de trabalho, empregos e períodos de formação dos sujeitos ao longo
da vida activa. Nesta perspectiva, cada indivíduo constrói e reconstrói,
permanentemente, a sua carreira nos processos de exploração da sua relação com o
mundo.
Recentrando novamente a discussão em torno do processo de transição dos
jovens para a vida activa, é fundamental que a intervenção em orientação
vocacional, na perspectiva de apoio sistemático à gestão de carreira, promova
nos jovens os seguintes objectivos desenvolvimentais:
- Tomada de consciência acerca dos seus interesses, atitudes, objectivos,
capacidades e competências;
- Conhecimento bastante alargado sobre tipos de cursos e de profissões que
lhes poderão interessar;
- Consciencialização da crescente flexibilização das relações entre
formações, profissões e empregos;
- Consciencialização sobre a natureza do mercado de trabalho e sobre a
importância de levar em consideração esse mesmo mercado aquando da tomada de
decisões vocacionais;
- Aquisição de competências de empregabilidade e de gestão de carreira,
capacitando os jovens para lidarem de forma mais adequada com o novo quadro de
oportunidades e de constrangimentos sociais;
- Promoção de comportamentos de exploração vocacional da realidade
envolvente;
- Atribuição de cada vez maior importância à preparação para o desempenho de
outros papeis sociais que não o de trabalhador.
Constituindo o desenvolvimento vocacional dos jovens um processo cumulativo
de construção de significados pessoais a partir de situações e de experiências
reais de aproximação à vida activa, é necessário que essas experiências sejam
significativas para os sujeitos (neste caso, jovens).
Os modelos tradicionais de orientação privilegiam as estratégias de tipo
instrutivo e tendem a utilizar a simulação e as actividades de dramatização
(jogo de papeis ou role-playing). Ainda que este tipo de estratégias possa ter,
sobretudo com os sujeitos mais novos, grande utilidade para a aquisição de
algumas rotinas básicas que sejam condição para acesso a operações mais
complexas, promovendo, dessa forma, a autonomia dos sujeitos, têm revelado
alguns problemas de validade conceptual. Um primeiro problema ter a ver com a
ênfase intrapsíquica deste tipo de abordagem – fortemente centradas nos
indivíduos, ignoram os contextos de vida das pessoas. Por outro lado, assumindo
um carácter predominantemente informativo, enfatizam a aquisição de
conhecimentos ou comportamentos em situação artificial e não nas situações reais
de interacção sujeito-mundo. Por último, revelam consideráveis limitações ao
nível da generalização das aquisições aos contextos reais de vida das pessoas.
No sentido de tentar ultrapassar as limitações acima referidas, as
estratégias de exploração reconstrutiva, reconhecendo aos indivíduos um
papel activo no processo de construção de significados, assentam em experiências
de vida relevantes. A relação do sujeito com o mundo é indissociável da acção –
daí a importância das situações reais de contacto directo com pessoas e com
situações representativas da vida adulta e do mundo profissional (assunção de
papeis ou role-taking), tais como: visitas a empresas e observação de postos de
trabalho, experiências de trabalho e estágios em empresas, acompanhamento
permanente de profissionais em exercício e entrevistas a profissionais.
Em síntese, conceber o processo de transição para a vida activa como a
construção e implementação de um único e grande projecto de vida, mais ou menos
linear, não se revela congruente com a actual reconfiguração acelerada das
profissões. Hoje, em consequência das mudanças imprevisíveis no mundo do
trabalho em geral, melhor será perspectivar a intervenção em orientação escolar
e profissional como apoio sistemático à gestão da carreira profissional. Esta
forma de conceber a intervenção em orientação revela-se mais adequada com a
actual dinâmica do mundo do trabalho, na medida em cada vez maior número de
trabalhadores vê-se confrontado, ao longo da sua vida activa, com problemas
variados e complexos (alterações no modo de desempenho das funções, mudanças de
actividade profissional) relacionados com a sua profissão. Isto é, hoje em dia,
carreira profissional é, sobretudo, sinónimo de adaptabilidade profissional.
Citando o professor Bártolo Campos (1992), “ (...) não é recorrendo ao
dicionário de palavras e alinhando uma série delas que se produzem frases
significativas; também não é recorrendo ao catálogo das actividades e alinhando
uma série delas, ao longo de semanas, que é legítimo esperar algo de
consequente. Num e noutro caso, têm de estar subjacentes regras de produção quer
seja de frases com sentido quer seja de uma intervenção de orientação
significativa para as pessoas ”.
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Porto, Edições ASA.
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