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Interpretação Fenomenológico Existencial - Sobre o sentido do interpretativo na concepção e método da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial
Afonso Lisboa da Fonseca
affons@uol.com.br
Laboratório Experimental de Psicologia Fenomenológico Existencial
1998

Idioma: Português (Brasil)
Palavras-chave: Psicologia, psicoterapia, fenomenologia, existencialismo, interpretação.

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"Há canções e há momentos
Eu não sei como explicar
Em que a voz é um instrumento
Que eu não posso controlar

Ela vai ao infinito,
Ela amarra todos nós
E é um só sentimento
Na platéia e na voz

Há canções e há momentos
Em que a voz vem da raiz
Eu não sei se quando triste
Ou se quando sou feliz

Eu só sei que há momento
que se casa com canção
De Fazer tal casamento
Vive a minha profissão

(Milton Nascimento e Fernando Brant
"Canções e Momentos".

 

1. INTRODUÇÃO

Numa boa observação da concepção, prática e desdobramentos das Psicoterapias fenomenológico-existenciais – e aqui referimo-nos especificamente à Gestalt Terapia e à Abordagem Centrada na Pessoa – não podemos nos furtar à constatação de que a valorização, a priorização, de um certo tipo de interpretação tem sido sempre um seu pressuposto e elemento fundamental: quer seja do ponto de vista de sua fundamentação filosófica, de sua teoria ou do seu método.

Neste sentido, parece perfeitamente correto dizer e assumir que estas abordagens: as abordagens fenomenológico-existenciais, em particular a Gestalt Terapia e a Abordagem Centrada na Pessoa, são abordagens eminentemente interpretativas. Hermenêuticas.

Evidentemente que não estamos aqui nos referindo ao termo interpretação no seu sentido psicanalítico. Ou, mais especificamente, não estamos nos referindo aqui ao termo interpretação no seu sentido explicativo, que é tão comum e contumaz. Nem estamos tentando desvendar ou definir qualquer sentido novo desta utilização psicanalítica ou explicativa do termo interpretação.

Trata-se mais especificamente de ressaltar o sentido e a concepção especificamente fenomenológico existenciais, radicais, deste termo na concepção e prática das abordagens fenomenológico existenciais em Psicologia e Psicoterapia. Para ressaltar a sua concepção específica, enquanto tal, como um fundamento filosófico, teórico e metodológico.

De início, é necessário observar algo bastante claro, e que é curiosamente negligenciado, ou obscurecido, seja no âmbito da vida cotidiana, no âmbito da psicologia ou da psicoterapia em geral, ou no âmbito da academia, ainda que obviamente evidente: o termo interpretar não tem apenas o seu sentido psicanalítico-explicativo, ou um sentido meramente explicativo. Na verdade este parece ser um de seus sentidos mais pobres. O termo interpretar tem uma outra área de sentido que lhe é bastante específica e própria, e que é a do seu sentido especificamente fenomenológico existencial compreensivo.

De um ponto de vista fenomenológico existencial, interpretação é o "desdobramento das possibilidades da compreensão", como Heidegger o definiu. Entendida aqui a compreensão como a própria constituição do vivido do ser-no-mundo.

De modo que a concepção fenomenológico-existencial de interpretação é intimamente ligada à concepção da compreensão no seu sentido fenomenológico-existencial. Compreensão esta que configura-se na própria constituição fenomenal do vivido.

Trata-se então, para uma compreensão do sentido e concepção do interpretativo e de seu valor no âmbito da Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais, de mudar o referencial. Ao invés do referencial explicativo da hermenêutica de uma interpretação naturalista, a interpretação compreensiva do ser-no-mundo. O desdobramento da compreensão, das possibilidades de ser do ser-no-mundo.

De certa forma, este sentido é bastante difundido, e compreensível, quando é aplicado à interpretação de atores de teatro, ou de cinema, ou das artes cênicas em geral. Curiosamente, não obstante, queda-se em geral negligenciada e obscurecida a fonte da analogia, ou seja, o fato de que os seres humanos vivem de interpretar o seu ser-no-mundo, vivem da interpretação fenomenológico existencial de seu vivido, na criação de si e do mundo que lhe diz respeito, e na potencialização de seus devires.

Nietzsche já observava neste sentido:

"Em torno de todo espírito profundo brota sem cessar uma máscara, só podemos progredir mascarados..."

Maffesoli, igualmente, indicará:

"O verdadeiro teatro é portanto o da cotidianidade (...) Assim, tudo o que diz respeito à ‘dramaturgia’ é, de início, uma realidade cotidiana."

Os psicoterapeutas fenomenológico existenciais perceberam profundamente esta dimensão da realidade existencial, e a importância existencial, regeneradora e propiciadora da criatividade, e do crescimento humanos, das possibilidades da potencialização da interpretação fenomenológico-existencial, como modalidade natural de interpretação e de potencialização da própria existência. E foram profundamente conseqüentes com relação a esta constatação da importância da interpretação fenomenológico-existencial como perspectiva de filosofia da vida, como princípio de concepção e de método de suas abordagens de psicologia e de psicoterapia.

De modo que, por dentro de suas reflexões teóricas, filosóficas, e metodológicas, o privilegiamento da interpretação intensiva do vivido do cliente, pelo próprio cliente (evidentemente): interpretação compreensiva fenomenológico existencial, constituiu-se sempre como um item, se não o item, fundamental de suas abordagens. Ainda que nem sempre tenha ficado especificamente explícito desta forma, isto se esclarece na concepção da psicoterapia e do trabalho psicológico como aparentados da arte, e mesmo nos desdobramentos destas abordagens, com a arte-terapia, por exemplo, com o modelo de trabalho com sonhos e a prática da Gestalterapia, e com o desdobramento dos recursos na prática da Abordagem Centrada na Pessoa.

Neste ensaio buscamos caracterizar e discutir a interpretação no seu sentido fenomenológico-existencial, precisando este seu sentido, e distinguindo-o do sentido da interpretação explicativa. Comentamos, também, o modo como a interpretação fenomenológico-existencial constituiu-se e constitui-se como fundamento de filosofia da vida, de concepção e método das abordagens fenomenológico existenciais de psicologia e de psicoterapia.

 

2. EXPLICAÇÃO, COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO

Para o entendimento da concepção e do método das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais, e do sentido e valor do interpretativo no seu âmbito, é da mais alta importância a distinção entre as concepções de Explicação e de Compreensão.

A concepção de Compreensão, mormente a partir da influência do desenvolvimento da Fenomenologia em Fenomenologia Hermenêutica heideggeriana, caracteriza-se especificamente como a apreensão, e o próprio processo de constituição do vivido em seus próprios termos. Ou seja, em sua natureza especificamente pré-conceitual, pré-reflexiva, pré-teórica, na intuição originária da vivência de consciência. O vivido nada tem de empiria objetivista, de coisa do mundo natural, e nos é dado pela intuição imediata, fenomenal, vivencial, anteriormente a qualquer forma de reflexão ou de conceituação. É empírico, na medida em que é vivencial e não teorizante, mas não é objetivista. Para privilegiar este vivido desenvolveu-se a Fenomenologia como Ontologia Hermenêutica Existencial.

De modo que a compreensão, num sentido fenomenológico existencial é a própria constituição imediata do vivido no ser-no-mundo. A interpretação é o desdobramento das possibilidades de ser da compreensão.

A explicação, não tem esta imediatez do vivido. Ela é da ordem da abstração. A explicação é da ordem da retórica, da ordem do discurso, e articula relações entre elementos do mundo natural.

Sobre a concepção da compreensão Heidegger observa:

"El encontrarse es una de las estructuras existeciarias en que se mantiene el ser del ‘ahí’. Com igual originalidad que ella constitutye este ser el ‘compreender’. El encontrarse tiene en cada caso su comprensión, aunque sólo sea sofrenándola. El comprender és siempre afectivo. (...) concebimos el fenómeno como un modo fundamental del ‘ser del ahí’.

(...) Lo que se puede en el compreender enquanto existenciario no es ningun ‘algo’, sino el ser enquanto existir. En el comprender reside existenciariamente la forma de ser del "ser ahí" como ‘poder ser’. El ‘ser ahí’ no es algo ‘ante los ojos’ que posea además como dote adjetiva la de poder algo, sino que es primariamente ‘ser posible’. El ‘ser ahí’ es en cada caso aquello que él puede ser y tal qual él es su possibilidad."*

Num outro momento, Heidegger já observa:

"El ente constituído esencialmente por el ‘ser-en-el-mundo’ es él mismo en cada caso su ahí".

De modo que explicamos o mundo natural, de um ponto de vista objetivista, compreendemos o mundo efetivamente vivido, o vivido do mundo, o ser-no-mundo.

Daí que o termo interpretação adquire os dois de seus sentidos que nos interessam. Radicalmente diferentes. Ou seja: o sentido da interpretação como interpretação explicativa, que caracteriza-se por uma atitude naturalista diante de objetos do mundo natural, na busca de suas relações e aclararmento conceitual do seu sentido; e o outro sentido de interpretação que é o seu sentido fenomenológico existencial, como interpretação que constitui-se como desdobramento das possibilidades de ser da compreensão da facticidade e da afetividade existenciais do ser-no-mundo.

 

3. INTERPRETAÇÃO EXPLICATIVA E INTERPRETAÇÃO FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

Tão impregnado na cultura contemporânea é o uso do termo interpretar no sentido de

"ajuizar a intenção, o sentido de (...) explicar, explanar ou aclarar o sentido de (...)",

que perdemos paulatinamente, no âmbito da cultura da vida cotidiana, no âmbito da psicologia e da psicoterapia, e no âmbito acadêmico, o sentido de interpretar como

"(...) representar(...)

Entendido aqui representar como

"(...) tornar presente; patentear, significar (...) levar à cena; exibir, encenar (...) figurar, aparentar (...) desempenhar (...), apresentar-se, oferecer-se ao espírito (...), aparecer (...)

Ao lado das práticas e estratégias de poder, as concepções e perspectivas psicanalíticas contribuíram decisivamente para esta consolidação da hegemonia do sentido explicativo do termo interpretar na vida cotidiana, no âmbito da psicologia, da psicoterapia e do meio acadêmico. De modo que o sentido de interpretar como representar, presentificar, exibir, figurar, aparentar, apresentar, aparecer foi ficando num plano secundário, tendendo a ser relegado não simplesmente ao campo das artes, como lhe é bem próprio, mas relegado, mais restritivamente ainda, ao palco, no sentido restrito e formal, de desempenho da arte teatral, ou das artes cênicas em geral.

Não obstante, a interpretação fenomenológico-existencial, que é própria, num certo sentido, da arte teatral, é especificamente própria de qualquer arte. Qualquer artista interpreta no desempenho de sua arte, no processo artístico específico da produção de suas obras, na medida em que apresenta, figura, faz aparecer, presentifica, o vivido de sua inspiração. O artista engendra no mundo a existência da originalidade e sutileza de sua inspiração. Isto é, naturalmente, característico da arte em geral, mas manifesta-se de modo mais patente na arte teatral e nas artes cênicas.

Mas, mais que isto, isto só é assim na medida em que as artes em geral são apenas condensações e particularizações de uma arte maior, que é a arte humana de viver criativamente. De viver criando efetivamente no afrontamento e enfrentamento de nossas questões existenciais. É a compreensão do vivido e a identificação com esta compreensão, ou seja, com o desdobramento das suas possibilidades ativas de ser: a sua afirmação, que se configura como interpretação do vivido, e possibilidade de nossa originalidade e de nossa criatividade como seres-no-mundo. Vivemos, desta forma, na nossa melhor forma, da interpretação de nosso vivido, da interpretação fenomenológico-existencial de nosso ser-no-mundo.

A interpretação explicativa tem uma longa história. Remonta aos primórdios da hermenêutica e da exegese religiosa, como atividades de interpretação dos textos sagrados. A Psicanálise insere-se na sua perspectiva. Avocando-se a capacidade da exegese e da hermenêutica, da interpretação explicativa, não de textos, sagrados ou não, mas de pessoas. E desta forma constitui a sua postura, teoria e metodologia clínica. Nessa linha, não seria muito talvez pensar que a Psicanálise lida com o psiquismo do cliente como se este fosse um texto a ser desvendado em sua verdade e explicado.

A Psicanálise, pelo menos em algumas de suas formas mais comuns, passa a ser um tremendo reforço à hegemonia da interpretação explicativa. Na verdade esoteriza-se, em suas popularizações, como a instância interpretativa do humano por excelência no contexto da sociedade moderna, instância esta que configura-se como uma patrona de peso da interpretação explicativa, amplamente hegemônica na perspectiva desta.

A interpretação fenomenológico-existencial vai sendo depreciada. O que é compreensível no âmbito de uma sociedade que deprecia o corpo, o vivido, os sentidos, que deprecia a existência, a vida, em sua peculiaridade e forças próprias. Com efeito, tende-se a entender a interpretação no sentido fenomenológico-existencial como relegada e restrita aos palcos, ao mesmo tempo em que a própria atividade artística vai recebendo da sociedade em geral, e da Psicanálise, um estatuto marginal patologizado, similar ao do funcionamento neurótico. Consideração que, de um modo geral, recebe a própria vida em sua espontaneidade, na medida em que, inclusive, o pathos é identificado ao doentio.

A Fenomenologia e o Existencialismo iniciam um vigoroso movimento de resgate do valor existencial e ontológico da interpretação fenomenológico existencial. Nietzsche consagra a perspectiva de que "tornamo-nos algo que somos" em existência. E preconiza, desta forma, a importância da interpretação fenomenológico-existencial como um estilo de viver que entendendo a vida como efetivamente inocente, afirma-a irrestritamente.

No desenvolvimento de sua hermenêutica ontológica, Heidegger precisa, o sentido da interpretação fenomenológico-existencial como desdobramento das possibilidades ativas de ser da compreensão:

"En cuanto comprender, el ‘ser-ahí’ proyecta su ser sobre possibilidades. Este comprensor ‘ser relativamente a possibilidades’ és él mismo, por obra de la repercussión de las possibilidades enquanto abiertas sobre el ‘ser-ahí’, un ‘poder ser’. El proyectar del comprender tiene la possibilidad peculiar de desarrollarse. Al desarrollo del compreender lo llamamos ‘interpretación’. En ella el comprender se apropia, comprendiendo, lo comprendido. En la interpretación no se vuelve el comprender outra cosa, sino él mismo. La interpretación no és el tomar conocimiento de lo comprendido, sino el desarrollo de las possibilidades proyectadas en el compreender.*

Fica claro, assim, o sentido da interpretação fenomenológico existencial, como desdobramento das possibilidades de ser da compreensão. Compreensão esta que constitui-se origináriamente como vivido do ser-no-mundo.

A arte humana de viver, a criatividade existencial que nos permite criar a originalidade de nossa vida, que nos permite produzir respostas criativas para nossas questões existenciais, que nos permite ajustarmo-nos criativamente na relação com o mundo que nos diz respeito, deriva do exercício desta capacidade de podermos identificarmo-nos e sermos intérpretes (fenomenativo-existenciais) de nosso próprio ser-no-mundo, no desdobramento de suas possibilidades de ser.

Analogamente à forma como um artista interpreta a sua inspiração na produção de sua obra de arte, ou como um ator interpreta o seu próprio vivido de seu personagem, é a interpretação de nosso próprio vivido, em suas possibilidades de ser, como ser-no-mundo, a ativa e original interpretação de nossa existência, que nos potencializa existencialmente, que potencializa a nossa criatividade existencial, e que nos permite a elaboração de uma super abundância de forças de vida, que é própria do funcionamento artístico, e da riqueza da existência.

Michel Maffesoli observa:

"(...) a teatralidade, o espetáculo não são acréscimos relativamente secundários, mas o cimento capaz de permitir que o conjunto social seja um todo contraditório mas ordenado. Numa tal perspectiva, o que se pode dizer é que a poesia não constitui um domínio separado, mas que, ao contrário, encontra-se estreitamente imbricada na vida de todos os dias. O verdadeiro teatro é, portanto, o da cotidianidade (...). Em relação a uma expressão ‘natural’, a arte como entidade separada não passa de uma criação recente; o teatro é de início o da rua antes de se tornar uma construção específica, e além disso as regras que regem essa construção específica existem certamente de maneira latente na representação da vida corrente. (...) Assim, tudo que diz respeito à ‘dramartugia’ é, de início uma realidade cotidiana (...). A sociedade enquanto interação de elementos heterogêneos que negociam sua presença mútua nada mais é do que uma vasta e complexa ‘representação’, onde os ‘papéis’ se trocam, se sucedem, se opõem, se eliminam etc.

Toda atividade individual e social provém do domínio teatral. O que chamamos de ‘encontro’ na relação afetiva ou na linguagem poética, mais simplesmente tudo que possui o traço da vizinhança ou que é da ordem da relação, sem falar deste complexo altamente trágico que é a família, tudo isto constitui uma encenação mais ou menos consciente onde se misturam, num conjunto fragmentado, o grotesco, a tragicomédia ou mesmo o patético e o épico."

De modo que, longe de estar restrita ao palco, a interpretação fenomenológico existencial é a matéria prima de nosso ser-no-mundo, de nosso ser-com-os-outros, ser-no-mundo e ser-com os outros que dependem de nossa liberdade e capacidade para interpretá-los em sua riqueza, potência, sutilezas, necessidades e carecimentos próprios.

Alternativamente, é em função da incapacidade, da impotência, por múltiplos fatores possíveis, para a rítimica interpretação fenomenológico existencial de nós próprios que perdemos em originalidade, em força, que perdemos em criatividade, em saudável e necessária agressividade, no afrontamento e enfrentamento das questões relevantes de nossa atualidade existencial, que perdemos em brilho e vitalidade, e criamos eventualmente uma vida embotada, aquém de nossas possibilidades de ser, dolorida, estagnada, deprimente e depressiva, obsessiva, compulsiva, desequilibrada.

 

4. COMPORTAMENTO, AÇÃO E INTERPRETAÇÃO.

Se constatamos por um lado a importância existencial e valor ontológico da interpretação fenomenológico existencial, constatmos, por outro, no desenvolvimento da sociedade das culturas da civilização ocidental, a restrição progressiva de suas condições de possibilidade. Hannah Arendt já observava que a cultura da sociedade contemporânea favorece o comportamento e desprivilegia a ação.

"Um fator decisivo é que a sociedade, em todos os seus níveis, exclui a possibilidade da ação (...). Ao invés da ação a sociedade espera de cada um dos seus membros um certo tipo de comportamento, impondo inúmeras e variadas regras, todas elas tendente a ‘normalizar’ os seus membros, a fazê-los ‘comportarem-se’, a abolir a ação espontânea ou a reação inusitada.

(...)Esta igualdade moderna, baseada no conformismo inerente à sociedade (...) só é possível porque o comportamento substitui a ação como principal forma da relação humana (...)

É o mesmo conformismo, a suposição de que os homens se comportam ao invés de agir, que está na base da moderna ciência econômica (...) que, juntamente com o seu principal instrumento, a estatística, se tornou a ciência social por excelência.

O comportamento é a atividade previsível e padronizada da pessoa, definida e ancorada nos padrões sociais, nos hábitos e nas expectativas. A ação envolve os níveis mais vivenciais da pessoa, mais subjetivos, singulares, irrepetíveis e originais. A ação é assim única e original. E é exatamente a ação que vai sendo progressivamente extinta, em privilégio do conformismo do comportamento dos particulares de uma sociedade que se automatiza cada vez mais, automatizando inclusive a atividade das pessoas que a ela compõem. De modo tal que ganha interesse a observação de que

"Num mundo de máquinas cada vez mais exatas e perfeitas ganha sentido cada vez mais valioso a capacidade humana de errar*.

A ação, tal como a define Arendt, caracteriza exatamente a interpretação fenomenológico-existencial. E é exatamente a possibilidade desta modalidade de vida, desta modalidade de interpretação, que perde espaço e é desqualificada na vida cotidiana, no âmbito da psicologia e da psicoterapia, e do meio acadêmico, à medida em que são privilegiadas formas da socialidade que valorizam o comportamento em detrimento da ação. A conseqüência é que as pessoas perdem cada vez mais a humana condição de ser atores de si mesmas, de sua existência, de seu ser-no-mundo, atores de sua realidade, e transformam-se cada vez mais em espectadoras da realidade e de si próprias, enquanto crescem como autômatos conformados, como indicava Fromm. Mais que isto, com a redução das possibilidades da ação, e da interpretação fenomenológico-existencial, as pessoas perdem as suas capacidades de regeneração, de auto-criação e recriação, de potencialização e re potencialização de suas forças de vida.

Paralelamente hipertrofia-se o lugar da interpretação explicativa, como recurso de dominação e de controle social, a níveis não raro ridículos, com as óbvias implicações de poder que isto comporta. A interpretação explicativa é normativa e facilmente recurso de dominação e de normatização, ligada com freqüência à promoção do comportamento e à extinção das possibilidades da ação. Desenvolve-se assim e sobrevaloriza-se a interpretação de hermenêuticas explicativas, ainda que eventualmente dissimuladas em sua natureza, à medida em que negligencia-se e obscurece-se as possibilidades especificamente existenciais e terapêuticas da interpretação compreensiva de uma hermenêutica fenomenológico-existencial.

 

5. RESGATE E POTENCIALIZAÇÃO DA INTERPRETAÇÃO FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL COMO UMA CONCEPÇÃO E PRÁTICA DE PSICOTERAPIA.

As Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais compreenderam profunda, e praticamente, as observações ligados a estas questões que nos vinham dos campos do Existencialismo, da Fenomenologia e da Filosofia Política, e os valores por estes elaborados a partir dessas observações. De modo que apreenderam e derivaram daí uma compreensão e uma concepção do valor fundamental da interpretação fenomenológico existencial, como perspectiva de filosofia da vida, como princípio teórico e de método na prática de seus modelos de psicologia e de psicoterapia. Desenvolveram-se, assim, fundadas importantemente na elaboração de concepções, de práticas e de modelos de relação ligados sempre à potencialização das possibilidades da interpretação fenomenológico existencial de seus clientes. Neste sentido, ainda que não o tenham, às vezes, enfatizado e especificado suficiente e adequadamente em sua teoria, vivem, em seu método, teoria e filosofia, da possibilidade da potencialização da interpretação na primeira pessoa, da interpretação como representação, figuração, da interpretação como desdobramento das possibilidades de ser da compreensão, como desdobramento das possibilidades de ser do vivido.

Estas abordagens buscaram situar-se, assim, numa perspectiva heterogênea com relação às tendências em nossa cultura de desqualificação da humana possibilidade da interpretação ativa e eminentemente vivida de seu ser-no mundo. Compreenderam, desde o início, os seus formuladores a impertinência fenomenológico-existencial de uma centração em uma hermenêutica explicativa do psiquismo, da estrutura de personalidade, dos padrões de comportamento e atos, do cliente. Em particular diante da flagrante automatização das pessoas à medida em que o comportamento tendia e tende a substituir progressivamente a ação.

O desenvolvimento e desdobramento da Fenomenologia e do Existencialismo ofereceu a estas abordagens poderosos elementos filosóficos, teóricos e metodológicos para a formulação de perspectivas que ressaltavam a importância da afirmação do vivido pré-reflexivo, e do processo de sua compreensão intensiva e intensiva interpretação por parte do cliente. O que naturalmente derivava da descoberta do valor terapêutico, digamos, valor de potencialização das forças de vida e de propiciamento do crescimento, desta prática intensiva e natural da humana atividade de, ativa, vivida e vívidamente, interpretar-se a si mesmo. Não de um ponto de vista explicativo, mas a interpretação compreensiva, como desdobramento das possibilidades do vivido factual e afetivo da atualidade, e das eventuais crises da atualidade, do cliente como ser-no-mundo.

Foi na prática, experiencial, experimental, estritamente existencial, desta forma de interpretação fenomenológico-existencial que esses pioneiros foram descobrir as ricas possibilidades de potencialização dos mecanismos de auto-regulação do organismo.

Isto é trabalho de pioneiros como Rogers, Perls, Moreno. E nem sempre é bem compreendido por contemporâneos seus e sucessores. Frequentemente, ainda hoje, muitos destes entendem a necessidade de uma compreensão empática do cliente, compreendem algo da importância de uma consideração positiva incondicional pela experiência do cliente, mas não entendem o valor existencial, organísmico, conceitual e metodológico da interpretação fenomenológico-existencial, e o valor fundamental da psicoterapia e do espaço da prática psicológica e psicoterapêutica como espaços, existencialmente experienciais e experimentais, de privilegiamento de uma intensa atividade de interpretação fenomenológico-existencial de si por parte do cliente, a partir da intuição do vivido de sua atualidade e da atualidade de suas eventuais crises existenciais.

Na verdade a Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial entendeu desde os seus primórdios, em Otto Rank, por exemplo, a importância de abrir mão do poder de diagnosticar na prática psicoterápica, a inutilidade e o potencial danoso deste poder, a esterilidade de uma hermenêutica explicativa do cliente, em privilégio do interesse por um outro paradigma de psicoterapia, que tinha os seus fundamentos na prática intensiva da interpretação fenomenológico-existencial e era mais aparentado da atividade artística. Não é à toa que Otto Rank, um fundamental inspirador da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial, vai valorizar uma compreensão artística do homem, e aproximar da arte as possibilidades de sua prática psicoterapêutica.

Numa cultura, não obstante, em que habitualmente se dá um desprivilegiamento do corpo, do vivido e dos sentidos, um desprivilegiamento da vida, uma cultura na qual muitos poderes enraízam-se exatamente neste desprivilegiamento e na heteronomia, nem sempre é fácil abrir mão dos poderes de diagnosticar o outro, de interpretar o outro explicativamente, de "terapeutizar" o outro.

Daí que há, frequentemente, dentro da própria Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial, inclusive, uma dificuldade de entender a radicalidade de sua fundamentação e da fundamentação de sua prática na potencialização da interpretação fenomenológico existencial por parte do cliente, em parceria ativa, atenta e interessada com o terapeuta, intérprete fenomenológico-existencial, também, do seu próprio vivido, na pontualidade do seu encontro dialógico com o cliente.

 

5.1. PRINCÍPIO DE FILOSOFIA DA VIDA

"Quando a atitude de viver,
é uma extensão do coração
é muito mais que um prazer,
é toda a carga da emoção
que era um encontro com o sonho,
que só pintava no horizonte,
e de repente diz presente,
sorri, e beija nossa fronte,
e abraça e arrebata a gente,
é bom dizer, viver valeu!
Ah! Já não é nem mais alegria,
já não é felicidade
é tudo aquilo num sol riso
é tudo aquilo que é preciso
é tudo aquilo paraíso,
não há palavra que explique
é só dizer: viver valeu!

ah! Eu me ofereço a esse momento
que não tem paga e não tem preço
essa magia eu reconheço,
aqui está a minha sorte,
me descobrir tão fraco e forte,
me descobrir tão sal e doce
e o que era amargo acabou-se,
é bom dizer viver valeu,
é bem dizer: amar valeu, amar valeu!

(Gonzaguinha. Viver, Amar, Valeu)

Por baixo de toda abordagem de psicologia e de psicoterapia subjaz as perspectivas de uma filosofia da vida. Isto sempre esteve muito forte (ainda que nem sempre explicitamente referenciado) no caso das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais, na medida, em particular, em que elas constituíram-se importantemente no âmbito e como dimensões significativas dos movimentos da Fenomenologia e do Existencialismo. Movimentos estes que caracterizam-se como movimentos de ruptura com certas perspectivas dominantes na filosofia e na cultura da Civilização Ocidental: ruptura, dentre outras, com perspectivas de super valorização do abstrato, do conceitual, do reflexivo e do teórico, em detrimento da valorização do corpo, do vivido e dos sentidos.

É, assim, na afirmação da concretude da existência, portanto, afirmação que se constitui como afirmação do corpo, do vivido fenomenal pré-reflexivo e dos sentidos, que vai deitar as suas raízes mais profundas a psicologia e a psicoterapia fenomenológico-existencial. Para estas psicologias, de um modo geral, interessa o privilegiamento e priorização conceitual e metodológica do vivido, e a constituição dele como referência básica de orientação e de avaliação do comportamento da pessoa. Interessa efetivamente uma identificação da pessoa com o seu próprio vivido, ao invés de uma definição de si e de seus comportamentos a partir de perspectivas conceituais e abstratas. Sob o pressuposto de que é esta identificação que permite uma potencialização das forças da existência, a promoção da criatividade existencial e de uma super abundância de forças de vida.

Esta perspectiva constitui-se de um modo marcante, na filosofia moderna, nas perspectivas e concepções da filosofia da vida de F. Nietzsche. Que elege o vivido como critério superior de produção da verdade e dos valores, uma vez que é a verdade produzida a partir desta identificação com o vivido que permite a potencialização da vida, a promoção de uma super abundância de forças de vida e a potencialização da criatividade. Assim, ao impulso epistemofílico de busca teórica e abstrata, desencarnada, da verdade, que anima a ciência e a moral, Nietzsche, elege a perspectiva artística de criação do verdadeiro, engendrada pela afirmação e identificação com o vivido, pela afirmação da afirmação que o vivido já é, em sua multiplicidade e devir ativos. Nietzsche elege, desta forma, a arte ou seja, o modo artístico da existência, como critério superior de produção da verdade. Superior à ciência e a um modo científico da existência, uma vez que o modo artístico da existência afirma a vida, e promove a potencialização da vida como potencialização da criatividade.

Não é que a ciência e o teórico não sejam um critério importante, eles o são, mas são um critério subalterno à arte, enquanto critério existencial.

Não se trata siplesmente, evidentemente, da eleição da arte formal como critério, mas da eleição da raiz desta como critério existencial, ou seja: da eleição de um modo ativo da existência que afirma a afirmação que o vivido é, que afirma o corpo e os sentidos em sua espontaneidade, que identifica-se com o vivido e que potencializa-se como tal e como criativo.

Nietzsche faz assim a sua eleição entre o homem teórico e o homem artístico, elegendo a este como um modo superior da existência., pelo fato de que este afirma a existência e cria.

É esta identificação com, e expressividade do vivido, afirmação do vivido, em suas intensidades, possibilidades e devir que constitui e configura a interpretação fenomenológico-existencial como um modo existencialmente superior de vida. É a afirmação e afirmação da afirmação do vivido, o desdobramento ativo de suas possibilidades de ser, que configuram a compreensão e a interpretação fenomenológico-existencial.

 

5.2. SOBRE A CONCEPÇÃO E MÉTODO DE UMA PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

A Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existenciais modernas têm esta perspectiva da Flosofia da Vida como um dos elementos fundamentais de sua concepção e de sua metodologia. No que pesem teorias diversas, de acordo com cada uma de suas linhas, elas ressaltam e convergem na eleição da identificação com o vivido, da afirmação e expressividade do vivido como critérios de valor e de método fundamentais.

No limite, a saúde é definida, no âmbito destas psicologias e Psicoterapias, como a habitualidade desta identificação com, afirmação e expressividade do vivido, que caracterizam um estilo de vida que privilegia a habitualidade da interpretação fenomenológico-existencial como critério existencial de orientação e de avaliação do comportamento e da ação da pessoa no mundo. A impotência, o desequilíbrio e o desajuste advindo e desenvolvendo-se, segundo a perspectiva destas abordagens, a partir da perda da habitualidade deste modo de funcionamento existencial, substituído, então, por um modo de orientação e avaliação da existência a partir de perspectivas conceituais e reflexivas abstraídas do vivido.

De forma que a idéia dessas Psicoterapias é a de constituírem-se elas próprias como espaços para o cliente de privilegiamento e afirmação de seu próprio vivido, através de um privilegiamento da prática intensiva da compreensão e da interpretação fenomenológico-existenciais. É a idéia de constituírem-se fundamentalmente, assim, para o cliente, como espaços e tempos de compreensão intensiva de seu ser-no-mundo, na presença e atualidade das possibilidades de ser deste. Espaço, igualmente, de desdobramento ativo e vivido das possibilidades de ser desta compreensão, que configura-se ativamente como o próprio devir do ser-no-mundo do cliente, numa atividade intensiva de interpretação fenomenológico-existencial de seu vivido, na relação inter humana com o terapeuta.

Isto não quer dizer que o cliente precise interpretar o seu vivido utilizando-se necessariamente da forma do artista. A conversação inter-humana expressiva entre o terapeuta e o cliente, ao longo da sessão e do trabalho psicoterapêutico e psicológico, impõe-se e pode configurar-se como um meio privilegiado de propiciamento do desempenho fenômeno interpretativo por parte do cliente, de modo algum negligenciável. Evidentemente que, apesar de sua excelência, a fala e a conversação não são as únicas dimensões possíveis da interpretação fenomenológico-existencial. Ao lado desta possibilidade da fala e da conversação genuína (Buber), abre-se a possibilidade, também, de inúmeros recursos e possibilidades fenomenativas e expressivas, verbais e não verbais, que podem, ao lado do diálogo inter humano, e em complementação dele, desdobrar as possibilidades da interpretação de seu vivido por parte do cliente em seus processos de tornar-se o que é.

A idéia, enfim, dessas abordagens é a de constituírem-se como espaços de potencialização, através do desenvolvimento da habitualidade da interpretação fenomenológico existencial como estimo e modo de existência, de um certo tipo de saúde. Tipo de saúde de que já falava Nietzsche:

"(...) da capacidade de rir da comédia da existência e de si mesmo. Somente uma saúde que, sempre posta à prova, se torne cada vez mais resistente possibilita uma tal aventura.
Ter uma ‘grande saúde’ é, para Nietzsche, a condição necessária para se poder experimentar um amplo leque de valores, de aspirações(...)
Trata-se de uma saúde que permite tirar proveito da própria doença, como Nietzsche mostra quando descreve seu próprio caso (...). Aí ele explica que para alguém ‘no fundo sadio’ até mesmo a doença pode vir a se tornar ‘um enérgico estimulante para a vida, para o mais viver’ (p.47). Como doente ‘tipicamente são’ Nietzsche é ao mesmo tempo um décadent e ‘também o seu contrário’ (p.47) (...) No mesmo parágrafo de Ecce Homo também afirma que a capacidade de encontrar seus próprios remédios, de não se deixar ‘cuidar, servir, socorrer por médicos duvidosos (bearzteln)’ constitui uma prova decisiva da segurança de um instinto que trabalha em silêncio a serviço da saúde. Uma vez que a idéia nietzscheana de ‘grande saúde’ se opõe a qualquer idéia de conforto e de bem-estar relativos à conservação de si mesmo, a própria doença passa a ser positivamente avaliada. Sobretudo quando é ela que permite que alguém, como no caso de Nietzsche, se liberte paulatinamente dos obstáculos que o impediam de ‘se tornar o que ele era’* . (...)
Segundo Nietzsche, a diferença entre um ser tipicamente mórbido e alguém basicamente são consiste no fato de que apenas este último é capaz de se curar, o que exige o exercício incessante de um princípio de seleção bastante rigoroso (cf. ‘Porque sou tão sábio’, parágrafo 2). Tal tipo de saúde supõe riscos constantes, na medida em que, estando associada a seres que vão cada vez mais longe na exploração de suas próprias almas, nunca é alcançada de uma vez por todas (...)."

O referencial teórico e instrumento metodológico fundamentais e característicos dessas abordagens fenomenológico-existenciais são precisamente, portanto, a potencialização compreensão e da interpretação, entendidas como compreensão e interpretação fenomenativa-existencial de seu próprio vivido por parte do cliente. Uma prática de interpretação que potencialize-o a tornar-se paulatinamente e sempre o que ele é, e que potencialize nele os desdobramentos "curativos", criativos e recriativos de sua grande saúde. Podemos entender que estas psicologias e Psicoterapias concebem-se e constituem-se como espaços nos quais o cliente possa praticar sistemática e regularmente a habitualidade da interpretação fenomenativa-existencial do seu si mesmo na facticidade e afetividade de sua atualidade existencial, eventualmente crítica, com recurso de atualização de sua "grande saúde":

"a grande saúde... aquela que não basta ter, a que se adquire, que é necessário adquirir, constantemente, por ser sacrificada sem cessar, por ser necessário sacrificá-la sem cessar!... Então, no termo das nossa viagens, nós, argonautas do ideal, mais corajosos talvez do que aquilo que é prudente, frequentemente contusos, ainda mais frequentemente naufragados, mas de melhor saúde do que se gostaria talvez de no-lo permitir, perigosamente, sempre de melhor saúde, parece-nos que, em recompensa, nos encontramos em face de uma terra inexplorada, de que nenhum olhar jamais apercebeu os limites, num além de todas as terras e de todos os recantos do ideal, em mundo tão pródigo de beleza, de desconhecido, de problemas, de terror e de divino que a nossa curiosidade e a nossa avidez se deliciam fora de si próprias, e que, ah, nada mais nos poderá saciar.

 

6. GESTALTERAPIA

O aspecto interpretativo das Psicoterapias fenomenológico-existenciais é bastante patente e explícito em alguns aspectos da Gestalterapia. A vida boêmia de Perls, no ambiente artístico e intelectual da Alemanha dos anos 20, fortemente impregnado pelo teatro, a sua própria experiência ligada à arte teatral daquele tempo, fizeram-no entender profundamente não só a importância da arte no seu sentido formal, mas, em particular, a importância e valor propriamente existencial para a pessoa do modo artístico de funcionamento: a importância do interpretativo. Uma das definições dos objetivos do gestalterapeuta, segundo Perls é a de que este quer e esforça-se para que o cliente possa tornar-se ele mesmo, e possa expressar-se desta forma na sua relação com o mundo.*

Esta perspectiva da Gestalterapia ganha toda a sua evidência no seu modelo de trabalho com sonhos. À medida em que compreendemos o sentido da interpretação fenomenológico existencial, damo-nos conta do caráter, neste sentido, eminentemente interpretativo deste modelo. No qual o sonho é entendido em cada um de seus componentes como projeção da atualidade existencial do cliente de um modo essencial, de forma que a interpretação fenomenológico-existencial intensiva do sonho por parte do cliente pode permitir-lhe a reidentificação com e a reintegração de partes alienadas de seu self na relação com o mundo que lhe diz respeito.

Mas isto só é assim na medida em que o modelo de trabalho com sonhos da Gestalterapia elaborou-se como tal no momento em que a Gestalterapia, em seu desenvolvimento, distanciando-se da concepção da psicoterapia psicanalítica e dos modelos de metáfora médica, dos quais se impregnava em suas origens, ganha efetivamente o caráter maior de sua originalidade. Ou seja: a sua consolidação como uma abordagem fundamentalmente fenomenológico existencial, centrada na acentuação do vivido do cliente e de sua compreensão, e na expressividade deste vivido. Uma abordagem de prática eminentemente interpretativa, no sentido fenomenológico-existencial.

É esta acentuação do vivido, do devir de seus desdobramentos, e de sua expressividade imediata, tanto na terapia como na cotidianidade, como atitudes provedoras dos mecanismos de auto regulação organísmica da pessoa, que se constitui como o núcleo da concepção teórica e filosófica da Gestalterapia, e de seu método. E que caracterizam-na como uma abordagem eminentemente interpretativa, no sentido fenomenológico-existencial. Ao gestalterapeuta interessa que o cliente possa potencializar-se como intérprete da atividade de seus self em sua relação de contato.

De modo que não dá para confundir o sentido fenomenológico-existencial do "interpretativo" em Gestalterapia com o seu sentido psicanalítico ou explicativo, sempre impertinentes no âmbito da Gestalterapia.

 

7. ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

Não raro, a reificação de uma ou de algumas das condições de criação de um clima terapêutico, ou a reificação da metafísica da tendência atualizante, obscurecem-nas como meios que são, e não fins, da prática psicoterapêutica na Psicoterapia ou na prática das outras modalidades de aplicação da Abordagem Centrada na Pessoa. Na verdade, todo o arcabouço filosófico e conceitual, a concepção e prática das condições de facilitação de um clima terapêutico, ou da facilitação de grupos, têm como função, na Abordagem Centrada na Pessoa, o desenvolvimento de uma relação e de um ambiente social que permitam ao cliente centrar-se progressivamente nos dados de sua própria consciência e de sua própria experiência organísmica. De modo que ele possa dar-se conta das formas desta consciência, em particular da sua imagem de eu, e das eventuais impropriedades destas, de sua ansiedade, e das discrepâncias entre a sua imagem de eu e a sua experiência.

A criação de um clima de respeito incondicional pelo cliente e por seu vivido, desprovido de ameaças a sua imagem de eu, a compreensão empática e genuinidade do terapeuta, permite ao cliente relativizar e superar os mecanismos de bloqueio e de distorção de sua experiência: a superação do estado de desacordo, levando-o a uma progressiva liberdade de simbolização desta sua experiência em sua consciência, em particular como fator de transformação, de constituição e reconstituição de sua imagem de eu, a partir de seus processos de auto regulação e auto atualização, operados sob o influxo da tendência atualizante.

Este processo é todo ele, fundamentalmente, um processo interhumano e fenomenológico-existencial. De modo que desenvolve-se apenas na medida em que o cliente pode, a partir do clima criado pela relação, centrar-se em e privilegiar o seu próprio vivido, compreendê-lo e interpretá-lo fenomenologico-existencialmente na relação com o terapeuta.

É assim que o provimento das condições básicas de criação de um clima terapêutico serve especificamente na verdade ao provimento de condições para que o cliente possa intensivamente compreender-se, no sentido fenomenológico-existencial, e desdobrar, em interpretação fenomenológico-existencial, as possibilidades de ser de seu ser-no-mundo. Tanto na sessão, como ao longo do processo da terapia, em sua existência. Resgatando, a partir da superação do estado de desacordo a sua capacidade para tal.

Sendo assim, é a interpretação fenomenológico-existencial do cliente pelo cliente o núcleo básico do processo da prática da Psicoterapia Centrada na Pessoa.

Mais claramente, o modelo de trabalho com grupos da abordagem enfatiza este respeito à pessoa na singularidade, atualidade e presença de seu vivido, e elege a interpretação fenomenológico-existencial deste vivido, no contexto do grupo, não só como um inalienável direito da pessoa, mas como a matéria prima da constituição e desdobramento do processo grupal.

É interesse da concepção do modelo de trabalho com grupos e da facilitação que cada participante seja, a partir da singularidade da vivência de sua atualidade existencial no contexto do processo grupal, um membro ativo da constituição e desdobramento deste processo. E isto se dá na medida em que, na relação pontual com os demais participantes e com o coletivo grupal, ele pode interpretar-se a si mesmo em sua singularidade e idiossincrasia no âmbito da vivência grupal. Assim, ele pode também e eventualmente interpretar o vivido de sua experiência enquanto partícipe da experiência coletiva do grupo, na constituição do processo e realidade grupais singulares. Mesmo que possa ser levado, como comumente ocorre, à interpretação do vivido de sua diferença com relação ao coletivo grupal.

Na relação com outros participantes individuais, configuram-se situações reais de relação inter humana nas quais o participante é levado a interpretar-se de modo intenso, em particular quando esta interpretação desdobra a novidade vivida de si mesmo e emergente nessas situações.

A fase da ACP que se desenvolve a partir dos anos 70 parece caracterizar-se por uma certa radicalização, na prática, de seus fundamentos fenomenológico-existenciais. O desenvolvimento do modelo de trabalho com grupos da ACP nestes termos e nesta fase é profundamente marcado por esta radicalização. De modo que a interpretação fenomenológico existencial por parte dos participantes do grupo passa a ser um dos elementos fundamentais interesse de sua concepção e de sua prática.

A presença e desempenho do facilitador são vistos igualmente, e de um modo marcante, na perspectiva de valorização de seu próprio vivido e da interpretação deste. Na medida em que o trerapeuta e o facilitador abdicam de uma participação no desdobramento do processo grupal a partir de modelos e esquemas conceituais, buscando referenciar-se privilegiadamente no seu próprio vivido do processo de constituição e desdobramento da realidade grupal particular. E, mais que isto, na ativa interpretação deste próprio vivido, em particular, na medida em que isto parecer interessante e pertinente no contexto de constituição e de facilitação da constituição e desdobramento da realidade grupal.

Como refinada abordagem fenomenológico-existencial, podemos ver assim que a interpretação fenomenológico-existencial é um dos mais marcantes elementos da concepção e prática da ACP.

 

8. O LUGAR PRÓPRIO DO PSICOTERAPEUTA NA PRÁTICA DE UMA ABORDAGEM FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL INTERPRETATIVA.

Quando falamos do caráter interpretativo das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais temos de um modo geral nos referido à perspectiva do cliente. É evidentemente interessante e importante, não obstante, compreender o lugar específico do psicoterapeuta (psicólogo, pedagogo, facilitador, com as suas particularidades próprias) na prática destas abordagens. Sabemos que muita confusão, desconhecimento ou obscurecimento é praticado neste sentido. Daí a necessidade de uma ênfase ainda maior neste interesse e importância. Podemos tratar da questão aqui apenas de um modo sucinto, mas a questão pode e deve ser abordada de um modo mais intensivo e abrangente.

Sabemos que o papel do terapeuta não é certamente o de compreender o vivido do cliente. O vivido do cliente é privado, e especificamente co-original ao seu ser-no-mundo, e só a ele, cliente, é acessível. O que o terapeuta pode é privilegiar, estimular, incrementar, no espaço e a partir do poder de sua condição e prática, a priorização e acentuação do seu próprio vivido por parte do cliente, e o desdobramento das possibilidades de ser desta vivência. De modo que, muito menos, é o papel do terapeuta o de interpretar o vivido do cliente, mesmo no seu sentido fenomenológico e existencial. O terapeuta só pode compreender e interpretar fenomenológico-existencialmente evidentemente o seu próprio vivido. E isto não parece ser possível de superação na concepção e prática da psicoterapia.

Tudo que o terapeuta pode é garantir, a partir de seu lugar de poder e competência específicos, que o cliente possa entregar-se à perspectiva do vivido de sua atualidade existencial, e expressá-la, interpretá-la fenomenologica-existencialmente. O terapeuta pode, desta forma, disponibilizar-se efetivamente para a relação momentânea e imediata, mais ou menos intensiva, com o cliente. Disponbilizar-se para a relação interhumana com o cliente: para uma abertura e respeito para com o cliente e para a comunicação de si e de seu vivido por parte dele.

Cabe ao terapeuta a garantia ao cliente, a partir de seu poder e competência específicos, deste lugar em que ele pode dedicar-se intensivamente à compreensão e ativa interpretação de seu vivido, no âmbito das especificidades e dos limites institucionais de sua prática. Mas, mais que isto, especificamente, cabe ao terapeuta diponibilizar-se a si próprio para a relação interhumana e imediata com o cliente, abrindo-se pontualmente para a diferença e alteridade específica e pontuais dele em sua comunicação. Cabe ao terapeuta respeitar incondicionalmente esta diferença e alteridade com a qual ele interage pontualmente na relação imediata com o cliente, e interpretar fenomenológica e existencialmente o seu próprio vivido desta relação como parte ativa de sua disponibilização para ela.

De modo que a prática efetiva da psicoterapia configura-se então como um fluído e dinâmico inter jogo de interpretações, no qual ao cliente é facultada a possibilidade de centrar-se no, compreender e interpretar, fenomenológico existencialmente, o vivido emergente de sua própria atualidade existencial. Na pontualidade da atualidade, presença e questões significativas deste. Em parceria inter-interpretativa com um terapeuta que interessa-se, quer e busca garantir para o cliente a efetividade deste espaço como tal, entendendo-se a si próprio, e ativamente configurando-se ele próprio, como parceiro inter-interpretativo, que centra-se na compreensão fenomenológico existencial de seu próprio vivido na relação pontual com o cliente, e na interpretação, igualmente fenomenológico-existencial, da compreensão deste vivido na relação pontual e imediata com o cliente.

Desnecessário dizer que é fundamental neste processo o respeito incondicional, por parte do terapeuta, pela integridade ativa e dinâmica da vivência e da expressividade interpretativa da vivência do cliente. Sua valorização do vínculo interhumano entre ele e o cliente pressupõe, mais que um respeito incondicional, um interesse e fascinação por esta integridade e a expressividade desta, como desdobramento ativo de suas possibilidades ser no contexto da atualidade existencial da pessoa do cliente.

Este interesse e fascinação mobiliza-o naturalmente para a uma abertura para a diferença específica da interpretação alteritária pontual e imediata do ser-no-mundo do cliente, aceita por ele, terapeuta, como expressão interhumana. O terapeuta recebe esta presença e expressividade do cliente não de uma perspectiva conceitual e reflexiva, mas de uma perspectiva privilegiadamente fenomenal, pré-conceitual e pré-reflexiva. De modo que potencializa-se assim como vivido do terapeuta a presença alteritária do cliente, vivido que o terapeuta busca privilegiar compreender e interpretar fenomenológico-existencialmente enquanto tal na atualidade do encontro a pessoa do cliente.

Este processo de intensiva compreensão, e de interpretação fenomenológico existencial interhumana, de seu vivido da relação com o cliente, por parte do terapeuta, configura a este, terapeuta, como um parceiro muito especial para o cliente no processo da terapia. Um parceiro interhumano que possibilita a intersubjetivação das particularidades, sutilezas e dificuldades vividas na atualidade existencial do cliente, muitas delas nunca expressadas, e eventualmente desconhecidas e em processo de configuração, na medida em que emergentes na atualidade e presença de suas questões existenciais.

Por outro lado, o terapeuta pode constituir-se como um elemento existencialmente forte e especificamente pro-vocativo na atualidade existencial do cliente, na medida em que sua atitude e comportamento específicos no setting da terapia podem levar o cliente à intensificação, multiplicação e potencialização das possibilidades, e do desdobramento das possibilidades, de seu vivido como ser-no-mundo. Da mesma forma que pode potencializar as possibilidades de sua ação e criação enquanto tal. O terapeuta atua desta forma facilitando e potencializando os mecanismos de auto-regulação e auto atualização do cliente no campo existencial de que ele faz parte com o mundo que lhe diz respeito.

É, desta forma, absolutamente secundária, a explicação, em termos de fundamento filosófico, de filosofia da vida, de concepção e de método, das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais. Ou seja, são absolutamente secundários ou francamente os não raro prolixos, obstinados, sutis e dissimulados, ou fortemente enfáticos esforços explicativos.

Isto não quer dizer que esta modalidade de funcionamento da consciência esteja proscrita do espaço da Psicologia e Psicoterapia-Fenomenológico Existencial. Ou que, em cem por cento do tempo da prática, cliente e terapeuta dediquem-se exclusivamente à compreensão, interpretação e inter-interpretação fenomenológico-existenciais intensivas de seu vivido. Apenas é esta perspectiva especificamente compreensiva e interpretativa a perspectiva específica e explicitamente privilegiada na prática de terapeuta e cliente, e é esta a natureza do processo em seus melhores momentos. A explicação é secundária, porque não é ela que pode propiciar os processos de auto-atualização do cliente, de sua autoregulação organísmica, de seu ajustamento criativo, de afirmação de seu vivido e de promoção nele de uma super abundância de forças de vida, como é próprio da compreensão e da prática da interpretação fenomenológico-existencial.

 

9. CONCLUSÃO.

A compreensão do sentido e da especificidade própria da interpretação fenomenológico-existencial é um momento fundamental da compreensão da fundamentação filosófica, concepção e metodologia das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais, notadamente a Gestalterapia e a Abordagem Centrada na Pessoa. O fundamento fenomenológico e existencial dessas abordagens valoriza basicamente a uma priorização e uma acentuação, afirmação efetiva, da perspectiva do vivido do cliente, a priorização de uma efetiva compreensão deste vivido, compreensão não exatamente pelo terapeuta – para quem isto seria impossível, em termos do vivido do cliente – mas pelo próprio cliente. Esta priorização, acentuação, afirmação da perspectiva própria do vivido do cliente implica uma consonância com a natureza própria do vivido enquanto ser-no-mundo, o seu caráter efetivo como desdobramento de possibilidades de ser (Heidegger). De modo que a priorização, a acentuação e afirmação do vivido pressupõem efetivamente a interpretação – fenomenológico-existencial – como desdobramento efetivo das possibilidades de ser deste vivido.

É no privilegiamento da interpretação enquanto tal que os formuladores das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais foram encontrar um princípio e valor fundamental da filosofia da vida de suas abordagens, da sua concepção, método e prática efetivos. Isto porque é a interpretação fenomenológico-existencial que permite o respeito e a afirmação da singularidade da pessoa em sua subjetividade, que permite a efetividade da potencialização de uma super abundância de forças de vida na forma de criatividade existencial e ajustamento criativo no campo das relações entre ela e o mundo que lhe diz respeito. Que permite a potencialização e efetivo desdobramento dos mecanismos de sua auto regulação orgnísmica nas tensões, dores e delícias de sua atualidade existencial.

Apesar de ter estado sempre subjacente à formulação das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais, e na verdade ganhar um sentido cada vez mais importante e interessante no conjunto de sua fundamentação filosófica, concepções e práticas, esta peculiaridade, importância e interesse pela interpretação fenomenológico-existencial nem sempre é adequadamente compreendida ou explicitada no âmbito dessas abordagens. De modo que parece-nos cada vez mais importante e interessante, para uma compreensão e clareza de formulação das concepções, valores e métodos das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais, uma compreensão e uma explicitação cada vez mais clara e evidentes do sentido, da importância e interesse do interpretativo, no seu sentido fenomenológico-existencial, para essas abordagens.

 

Site do autor: http://www.terravista.pt/fernoronha/1411

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