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Dislexia: perturbações da leitura
Rui Manuel Carreteiro
psiclinica@clix.pt
Psicólogo Clínico
2003

Idioma: Português (Portugal)
Palavras-chave: Dislexia, leitura, léxico mental, fonema, erro semântico.

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“Não sei como é que aprendi a ler; só me lembro das minhas primeiras leituras”
Rousseau

 

O que é a dislexia? Será uma doença? Nasce-se com ela, ou deve-se ao meio circundante? Existe uma diferença entre disléxicos e maus leitores? Existem diferentes tipos de dislexia? O que se pode fazer por estas pessoas?

 

Uma vez dominada, a leitura é um processo simples, imediato e que não exige nenhum esforço aparente. Lemos para partilhar, para sonhar e para aprender a sonhar...

Hoje é reconhecido a todos o direito de saber ler, escrever e contar. No entanto, tal como a comida, a leitura continua a ser muito mal distribuída.

Podemos não ler, simplesmente por falta de motivação – por não querermos – no entanto, em grande parte dos casos existe uma incapacidade de ler, que por falta de escolaridade – não saber ler – quer por incapacidade real. É deste último caso, denominado por iletrismo funcional – i.e., a incapacidade real de ler e de escrever apesar da escolaridade, ou até mesmo da obtenção de diplomas – que nos vamos ocupar.

O termo dislexia refere-se a um conjunto de alterações que têm em comum uma perturbação ou atraso na aquisição, aprendizagem ou processamento da leitura, na ausência de qualquer outra limitação ou alteração das capacidades intelectuais.

A dislexia pode ser adquirida – quando surge na sequência de traumatismo ou lesão cerebral -, ou de desenvolvimento – perturbação ou atraso na aquisição da leitura.

Os problemas da leitura surgem sobretudo entre as pessoas mais velhas: cerca de 4% na população entre os 18-20 anos, 20% entre os 45-59 anos, e 27% a partir do 60 anos. Estas diferenças parecem resultar de vários factores, principalmente da generalização da escolaridade e aumento do nível escolar nos últimos anos, bem como a provável diminuição da frequência da actividade de leitura entre os mais velhos.

Mas que factores nos permitem afirmar que estamos perante uma situação de dislexia? Que fazer perante o diagnóstico de dislexia? Para responder a estas questões torna-se necessário apresentar sucintamente o processo que o leitor dito normal utiliza para realizar o processo de leitura.

Com a aprendizagem de palavras novas e enriquecimento do vocabulário, “armazenamos mentalmente” um grande número de palavras. O léxico mental é a parte da memória onde convergem os diferentes tipos de informação que dispomos relativamente às palavras, necessários à sua compreensão. Esta informação é armazenada em unidades – chamadas fonemas – que representam formal e abstractamente os sons elementares.

Face a um texto, e em condições normais de inteligência, memória, visão, entre outros..., um sujeito que tenha aprendido a ler dispõe basicamente de duas vias de realizar a leitura. Numa via – dita fonológica –, o sujeito vai agrupar pequenas unidades das palavras – chamadas fonemas, i.e., sons – até obter a totalidade da palavra.

No segundo processo – via ortográfica –, mais rápido, o agrupamento é feito através de unidades maiores do que a letra (conjuntos de letras, partes de palavras ou palavras completas). Por não se encontrarem no nosso “dicionário mental”, este processo não permite ler nem palavras que não conhecemos, nem palavras que não existam (pseudopalavras).

Quando uma destas vias se encontra perturbada, a leitura processa-se pela via alternativa, ocorrendo erros característicos cuja frequência e magnitude permitem aplicar o termo de dislexia ou mesmo caracteriza-la como profunda (dislexia fonológica) ou de superfície (dislexia ortográfica).

A dislexia fonológica caracteriza-se pela ocorrência dos chamados erros semânticos – i.e., o sujeito lê “roda” no lugar de “pneu” –, bem como pela grande dificuldade em ler palavras desconhecidas. Por não existir na nossa língua, um disléxico profundo experimentaria grandes dificuldades ou não seria mesmo capaz de ler a pseudopalavra “beringíneo”.

Se a dislexia for ortográfica, esta dificuldade já não se regista, pois estes sujeitos lêm ao mesmo nível palavras frequentes, pouco frequentes ou pseudopalavras. A maioria dos erros de leitura destes sujeitos chega mesmo a não constituir palavras, e apresentam uma maior facilidade para ler as palavras que se lêm da mesma forma que se escrevem (palavras regulares, p.ex. “carro”) comparativamente às palavras que se lêm de forma diferente à da escrita (p.ex. em “guitarra” não se lê o “u”).

Nem todos os sujeitos que apresentam dificuldade na leitura são disléxicos. O método de ensino da leitura, revela-se aqui particularmente importante. Hoje existem alguns métodos relativamente simples e fiáveis que permitem despistar a dislexia, pelo que, em face de dificuldades de leitura ou de um alerta dado pelo professor, se revela conveniente consultar o psicólogo.

De entre os sujeitos efectivamente disléxicos, um grande número conseguirá recuperar através de uma estimulação adequada. Noutros, a dislexia acabará infelizmente por caracterizar toda a vida do sujeito. Existe ainda um grande número de casos em que a dislexia acabará por nunca ser diagnosticada, conseguindo alguns destes sujeitos, graças a um enorme esforço e não obstante de nítidas dificuldades, obter uma formação superior.

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