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A antecipação e a dopamina

2019
joana_s.j_rodrigues@hotmail.com
Psicóloga clínica
Publicado no Psicologia.pt a: 2019-03-10

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A antecipação e a dopamina

“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz.

Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz.”

 

(em “O Principezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry)

 

Já a raposa dizia ao Principezinho, que uma hora antes do grande momento, do seu encontro (que lhe iria fazer feliz), ela estaria muito feliz. O que nos leva para uma ideia de uma preparação psicológica, ou de uma expectativa positiva antecipatória de um bom momento que vai chegar em breve.

Podemos efectivamente pensar em várias situações em que isso acontece: vemos o trailer de um filme e ficamos empolgados até vermos a sua estreia; acordamos muito bem-dispostos porque sabemos que logo mais à noite vamos ter um jantar entre grandes amigos; passamos uma semana com uma boa sensação porque antecipamos a viagem de férias... Ou seja, situações que imaginamos serem boas, dão-nos uma boa sensação quando estão a chegar. Alguns estudos indicam que imaginar uma situação do futuro, activa partes do cérebro ligadas à felicidade. E isso acontece, provavelmente porque sabemos que o futuro é incerto e com esse pensamento agradável, de boas perspectivas, sentimo-nos confortáveis, mais seguros e confiantes.

As esperas de situações agradáveis dão-nos prazer. A expectativa de que vai acontecer algo que desejamos gera no nosso organismo um prazer antecipado. Dias, semanas ou meses antes de o evento acontecer já estamos a imaginar com satisfação o dia a chegar e já nos conseguimos sentir satisfeitos. Esperar por uma festa que ansiamos, pelas férias desejadas ou pelo filme tão esperado é possuir expectativas agradáveis quanto a um evento futuro. Quando se espera esse momento, tendemos a ter afectos positivos. Este estado corporal é sentido com entusiasmo, esperança, excitação, alegria, felicidade e bem-estar. Por outro lado, quando temos expectativas desfavoráveis (doença grave de algum amigo, situação difícil de exame), temos sentimentos negativos: ansiedade, desespero, sofrimento com pensamentos mais negativos.

Existem cerca de 100 biliões de neurónios no cérebro humano, e estas células comunicam entre si através de substâncias químicas do cérebro chamadas neurotransmissores. A dopamina é o neurotransmissor responsável pela motivação, impulso e foco, permite-nos planear com antecedência e resistir aos impulsos, para que possamos alcançar os nossos objectivos. É ela que dá aquela sensação boa quando dizemos “Eu consegui fazer isto! Eu fui capaz!”, quando realizamos a tarefa que nos propusemos a fazer. Faz-nos ser competitivos e é responsável pelo nosso sistema de prazer e recompensa. Ela permite-nos ter sentimentos de prazer, felicidade e de euforia. Pelo lado oposto, pouca dopamina dificulta-nos a ter um foco, faz-nos sentir desmotivados, apáticos e até mesmo deprimidos.

Assim, ao esperarmos por um momento agradável ou ao nos prepararmos para uma festa desejada, o nosso organismo produz e liberta dopamina e noradrenalina para que possamos agir e fazer algumas actividades de preparação, e nos adaptarmos para esse momento.

A libertação da dopamina e noradrenalina acontecerá muito tempo antes do grande momento se realizar. Tempo antes do evento imaginamos, comentamos, sonhamos e nos preparamos para o dia. Vários estudos demonstram que o nível de dopamina é mais elevado no momento da antecipação desse evento agradável, do que até mesmo no momento tão desejado e esperado. Por isso, quando sabemos que vamos ter algo agradável e desejado, que tal experienciar ao máximo esse momento da antecipação? Como o podemos maximizar? E após a situação tão esperada, como podemos prolongar ao máximo e ficar com aquela boa sensação...?

 

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

 

Joana de São João Rodrigues

Joana de São João Rodrigues é Psicóloga, Membro Efetivo da Ordem dos Psicólogos e especialista em Psicologia Clínica e da Saúde. Possui licenciatura e mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. É Pós-Graduada em Educação Social e Intervenção Comunitária e Membro Associado da Associação Portuguesa de Terapias Comportamental e Cognitiva. É Formadora Certificada pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e pelo Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua. Desenvolveu actividade clínica de apoio a doentes com doença oncológica e seus familiares no Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil do Centro Regional de Oncologia de Lisboa, no Serviço da Clínica da Dor. Deu apoio psicológico às famílias e crianças com cardiopatias congénitas internadas no Hospital Vall d'Hebron para cirurgia através da Associació d'ajuda als Afectats de Cardiopaties Infantils de Catalunya (Associação de ajuda aos Afectados por Cardiopatias Infantis da Catalunha), em Barcelona. Desenvolveu actividade de apoio às necessidades das mulheres vítimas de violência doméstica/abuso sexual, pela Associação de Mulheres Contra a Violência, em Lisboa. Esteve integrada em diversos projectos de Cooperação Internacional, onde deu formação na área da promoção da saúde em Angola e Guiné-Bissau. Desde 2011 exerce clínica privada com jovens, adultos e seniores, e é técnica de cuidados continuados integrados de saúde mental na Associação para o Estudo e Integração Psicossocial, em Lisboa. Desde Março de 2016 que integra a Equipa da ClaraMente - Serviços de Psicologia Clínica e Psicoterapia, com o objectivo de promover a saúde mental e a qualidade de vida, disponibilizando serviços de Psicologia Clínica e Psicoterapia em consultório, domicílio e via online.

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