Liberdade psicológica individual (?) - A estúpida raiz do preconceito e do estereótipo!

2017
lmaia@ubi.pt
Licenciado em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade do Minho. Mestre em Neurociências pela Faculdade de Medicina de Lisboa. Doutorado em Neuropsicologia pela Universidade de Salamanca. Especialista em Neuropsicologia e Psicobiologia pela Universidade de Salamanca. Pós-Doutorado em Ciências Médico-Legais pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar. Docente universitário no Departamento de Psicologia e Educação da Universidade da Beira Interior. Neuropsicólogo e psicólogo clínico (prática privada). Editor associado da "Revista Psicologia e Educação" (UBI). Editor da “Iberian Journal of Clinical & Forensic Neuroscience” (Portugal). Editor da RUMUS "Revista Científica da Universidade do Mindelo" (Cabo Verde)

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Liberdade psicológica individual (?) - A estúpida raiz do preconceito e do estereótipo!

O tema da liberdade individual é sempre para mim algo bastante importante, principalmente no que se refere às tomadas de decisão que um paciente tem que tomar quando está numa fase de maior desequilíbrio interior. Mesmo alguém que não está a ser acompanhado em psicoterapia deveria pensar acerca deste ponto que aqui se trata hoje: serão as nossas ações diárias completamente livres, completamente dependentes da nossa vontade?

Já se falou aqui de batalhas e decisões que são tomadas em momentos não mais adequados. Hoje gostava então de falar acerca das tomadas de decisão que, por vezes, consideramos ocorrerem com todo o nosso livre arbítrio.

Mas para que o tema da liberdade não seja abordado apenas de forma filosófica, gostava de descrever uma experiência científica estonteante.

É uma experiência com símios, chimpanzés (aqueles que geneticamente apresentam um património genético semelhante ao nosso, em cerca de 98%, defendem alguns cientistas!).

Numa jaula foram colocados 5 chimpanzés iniciais (para facilitar, e a partir de agora, vamos simplesmente denominá-los de Macacos do primeiro grupo). Nessa jaula havia uma escada que permitia o único acesso a uma plataforma onde, periodicamente, ficavam depositadas bananas às horas pré-determinadas para a alimentação. Numa primeira fase, às horas pré-determinadas os alimentos eram postos na plataforma, e os chimpanzés lá se entendiam para se revezarem com a escada e alcançarem a comida (abundante, e, por isso, chegava para todos).

Numa segunda fase da experiência, os “tratadores”, depois de os alimentos serem colocados na plataforma, atacavam com um canhão de água pressurizada gelada não o elemento que procurasse alcançar os alimentos, mas todos os outros 4 elementos que haviam ficado no chão. Repetido este procedimento por alguns dias, algo de espantoso passou a ocorrer. Apesar de famintos, de cada vez que o alimento era disponibilizado na plataforma suspensa, se algum macaco procurasse subir a escada era imediatamente atacado violentamente pelos restantes membros do grupo!!! O que haviam eles aprendido? Que se algum animal procurasse subir as escadas para procurar alimentos, os outros seriam castigados, logo, o grupo tinha que TOMAR A DECISÃO LIVRE (?) de evitar que isso ocorresse. Para permitir que os chimpanzés não morressem à fome, eram alimentados no chão, de forma temporal aleatória, contudo sempre com escassez de alimentos para manter níveis de privação alimentar elevados.

O segundo passo da experiência é fabuloso. Um dos macacos do primeiro grupo era substituído por um novo macaco (que obviamente não sabia nada da experiência). Logo no primeiro momento em que os alimentos eram dispostos na plataforma superior, este macaco novo tentava subir as escadas. Obviamente, já não era necessário que os macacos do primeiro grupo fossem agredidos com os canhões de água para se atirarem ferozmente sobre o macaco novo. Note-se que o macaco novo foi aprendendo que não deveria subir as escadas, ainda que não soubesse porquê: ou seja, não presenciou os castigos iniciais com os canhões de água. Quando este macaco novo estava já condicionado a alimentar-se apenas dos alimentos escassos que eram apresentados no chão da jaula, não obstante a quantidade abundante de comida na plataforma elevada, outro macaco do primeiro grupo era substituído por um macaco novo, repetindo-se, em regra, todos os procedimentos. A experiência continuava até que na jaula apenas existissem macacos novos. Recordemos este aspeto intrigante. NENHUM, repito, nenhum destes macacos novos havia sido fustigado com os canhões de água, apenas tinham aprendido que não podiam subir à plataforma com a comida abundante. Aprenderam ainda que se algum deles o tentasse fazer deveria ser imediatamente punido!

Desculpem, mas esta experiência é estonteante!!! Quantos de nós não agimos apenas como os macacos novos? Nunca fomos verdadeiramente sancionados pelos motivos que originaram um determinado hábito ou tradição, e quando tentamos utilizar a nossa liberdade individual (e esta afasta-se das normas pré-estabelecidas) somos sancionados, e depois passamos também nós a sancionar os nossos concidadãos!!! Todavia, se cada um de nós fosse cada um daqueles macacos novos, e se nos fosse questionado o motivo do nosso comportamento agressivo, nenhum de nós saberia dizer que o que havia despoletado aquele hábito, tradição, ou modus fazendi, haviam sido os condicionamentos com os canhões de água. Nenhum de nós teria passado por tal experiência nem sequer teria conhecimento de tal. Todavia, prontamente estaríamos preparados a evitar violentamente que algum “novo elemento” quebrasse as normas... porquê? Porque essas seriam as normas aprendidas! Mesmo sem saber porquê!  

Estúpido o Homem, não?! Ou talvez não seja livre de todo!

E assim se fortalecem preconceitos e estereótipos! É PENA!!!!

Luis Maia

Luis Alberto Coelho Rebelo Maia é Licenciado em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade do Minho, Mestre em Neurociências pela Faculdade de Medicina de Lisboa, Doutorado em Neuropsicologia pela Universidade de Salamanca, Especialista em Neuropsicologia e Psicobiologia pela Universidade de Salamanca e Pós-Doutorado em Ciências Médico-Legais pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar.
É docente universitário na Universidade da Beira Interior, no Departamento de Psicologia e Educação, onde lecciona nas áreas das neurociências, metodologias de avaliação e intervenção psicológica e psicologia do desporto.
É também terapeuta com consultório próprio na Cidade da Covilhã, onde exerce a sua função de neuropsicólogo e psicólogo clínico, abrangendo diversas áreas da avaliação e intervenção psicológica. Está registado na Ordem dos Psicólogos Portugueses, com Título de Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Especialista em Neuropsicologia.
Autor de mais de duas dezenas de livros, conta com alguns best sellers, nomeadamente as obras “Educar Sem Bater”, “E tudo Começa no Berço”, “A psicologia do verbo amar e o erradicar da negligência”, “Violência Doméstica e Crimes Sexuais”, e ainda “Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica”.
É ainda autor de centenas de artigos científicos publicados nacional e internacionalmente, tendo sido galardoado com cerca de uma dezena de prémios de mérito nacionais e internacionais pelos seus trabalhos e desempenho no campo da psicologia.