As diferenças e os extremos

2017
thalitaribeiroemail@gmail.com
Psicóloga diplomada pela Universidade Federal do Pará (Brasil) com especialização em educação

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As diferenças e os extremos

 Os seres são diferentes por natureza, não há neles nada igual. O que podemos observar são algumas semelhanças em estruturas e características que se organizam e reorganizam de formas diversas.

Atualmente encontramos movimentos distintos quanto à aproximação e ao afastamento de pessoas baseados em modelos comportamentais: aqueles que supervalorizam a igualdade de forma irreal e aqueles que supervalorizam as diferenças de forma intolerante. Ambos se assemelham em suas posturas extremas e indicativas de pouca margem ao equilíbrio entre as diferenças. 

No geral, sabemos que as pessoas, umas vezes por necessidade, outras vezes por escolha, ignoram as limitações ao interpenetrar os espaços nas formas de se relacionar. Quando eu não me conheço eu me perco no outro, porque estou perdida de mim, iniciando um processo de confusão identitária que, por sua extrema condição, se torna perturbador diante do corre-corre e da inexistência de medidas ou condições para que eu me encontre. Tanta confusão existente no mundo e, consequentemente, em mim, perturbam o meu equilíbrio emocional interno, o equilíbrio pessoal, o equilíbrio que me faz consciente, e o equilíbrio para manter discernimento diante das dificuldades.

Quando falamos de equilíbrio existencial estamos nos baseando na construção e reconstrução de nós mesmos, ao mantermos e criarmos uma certa regularidade acerca de nossos espaços pessoais, nossas motivações e objetivos de forma a nos preservarmos de todas as outras condições externas, autenticando um espaço de bem-estar, conforto e paz. Se eu sei preservar e resguardar meus pontos de equilíbrio, eu consigo construir momentos e tomar ações mais equilibradas, onde valorizo características mais apaziguadoras de ponderação, reflexão e tomada de decisões mais precisas e menos vacilantes. Porém, esse reconhecimento se torna por vezes cristalizado, cultivando uma imagem pouco flexível a mudanças e resistente a todas as outras características que a ameacem. A partir daí, criam-se os extremos, e é sobre isso que vamos conversar.

Os limites entre ações de preservação/saudáveis e ações cristalizadas e rígidas vão ficando muito tênues para quem é agente desta forma, e ficando muito mais evidentes para quem observa tais comportamentos. A fluidez necessária à ponderação vai desaparecendo quando começo a tomar posturas absolutistas embasadas apenas na minha segurança. Dependendo da minha experiência, as atitudes vão sendo motivadas pelas mais variadas formas, principalmente pelo estresse provocado em situações cotidianas, relacionadas com ameaças subjetivas ou reais quanto a minha vulnerabilidade. Se eu tenho uma postura positiva, entendo todos como seres iguais e me perco na igualdade passiva do discurso que subtrai a individualidade. Se, por outro lado, passo a encarar as ameaças como um potencial perigo, me revisto de coragem e crio muros impenetráveis de onde ataco e não deixo que as mudanças aconteçam. Ambos se traduzem como excessos; num caso, um excesso da falta de definição, no outro, um excesso da proteção diante dos potenciais perigos.

Encontramos dificuldades para sermos diferentes por conta dos excessos dos outros e dificuldades por sermos extremos pela condição de maior resistência e postura conflitante com os demais. Esse dilema não pode ser resolvido integralmente e de uma hora para outra, pois envolve tempo, convivência, história de vida, experiência, conflito de gerações, etc.

É por essas e outras coisas que todos precisamos identificar os nossos pontos de equilíbrio para, então, agir com base nestes, aproveitando o que nos for favorável no momento e esperando ou agindo contra o que nos for desfavorável.