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Onde estão os espíritos livres? Análise do assédio moral no trabalho com o texto Verdade e Poder de Michel Foucault

2009
vanessatropico@hotmail.com
Cientista Social com ênfase em Sociologia formada pela Universidade Federal do Pará, Brasil

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Onde estão os espíritos livres? Análise do assédio moral no trabalho com o texto Verdade e Poder de Michel Foucault

Quando se colocam grandes debates em torno dos discursos que circulam pelos meios de comunicação e nos trabalhos científicos, eis que surgem em alguns o questionamento sobre as “verdades” apresentadas. O que se percebe atualmente é que pouco se busca a verificação destes dados e muito se percebe seus efeitos na sociedade, sobre o indivíduo  seu comportamento e discurso. Existem muitos debates que na maioria das vezes são apenas ecos de velhos gritos, são afirmações que se repetem tempo em tempo, entretanto ele pode modificar-se e tornar-se global. Ao analisar a relação de trabalho na sociedade atual, o assunto das grandes discussões atualmente tem sido o Assédio Moral no Trabalho. O sofrimento psíquico já tinha sido assunto de alguns estudiosos, destaca-se Chitophe Dejours em sua obra A Loucura do Trabalho, onde assinalava a organização do trabalho exercendo sobre o homem uma ação especifica cujo impacto é incidir sobre o aparelho psíquico. Mas foi em 2000 que o assunto surge com força total pelo menos no cenário nacional, com a tese de mestrado da médica do Trabalho e assessora do Sindicato dos Trabalhadores Químicos e Plásticos de São Paulo Margarida Barreto. Nesta obra a autora coloca exposto o sofrimento psíquico dos trabalhadores e suas conseqüências, seu adoecimento físico e psicologico.

O trabalho desta autora tem por suporte os Trabalhos da Psiquiatra Francesa Marie-France Hirigoyen, 'Assédio moral; a violência perversa do cotidiano' e 'Mal-Estar no Trabalho; redefinindo o Assédio Moral'. Que por meio dessas obras conseguiu muitas melhorias na França ao que tange a situação da classe trabalhadora. Quanto ao produto brasileiro, o seus efeitos foram muito brandos por ter sido sempre colocado o assédio moral no trabalho como uma questão universalizante de classe proletária oprimida por classe burguesa dominante. O assédio Moral no Trabalho significa para os autores da contemporaneidade “o grito sofrido de toda classe trabalhista” a verdadeira face das relações de trabalho, mas será que é assim? Se for, o assédio moral no trabalho é uma pratica 100% adotada, com 100% de ocorrência em todos os ambientes, e consiste apenas no psíquico agredido pela moral violada que resulta num corpo doente?  Se esta é uma máxima por que o fenômeno não consegue ter força para seu combate no meio social se representa a dor universal?

Não pretendo em hipótese alguma negar a ocorrência do fenômeno, apenas não vejo que todos os ambientes de trabalho sejam geridos por praticas assediadoras e nem nego as conseqüências das agressões psíquicas sob a saúde do trabalhador, até porque quase toda obra sobre o fenômeno, palestras, reportagens mostram de forma repetida esses sintomas. Pretendo analisar; qual a forma como o assédio moral se engendra na organização do trabalho? qual a forma como realmente chega a assediar?, Por que os olhos e ouvidos só tem se preocupado com suas conseqüências e não da forma como se estabelece na rede social? e o mais importante, qual a posição do intelectual neste debate?

Na maioria dos discursos sobre a forma como o assédio moral no trabalho se estabelece no ambiente de trabalho, as respostas dos administradores, médicos e psicólogos muitas das vezes está unicamente ligada a um programa de produtividade principalmente os importados japoneses, estes são os responsáveis pelo comportamento autoritário e abusivo de superiores e funcionários, na visão da grande maioria. Seriam os programas de produtividade usados de forma a disciplinar político e economicamente o trabalho a fim de torná-los força de trabalho mais eficaz e diminuindo sua capacidade de revoltar-se o único responsável? Este quadro merece suscitar outras indagações e não se estagnar neste ponto, mas buscar compreender por que eles se tornaram eficazes, por que consegue exercer seu poder na rede social de forma molecular por indivíduos, grupos, empresas, comunicadores e cientistas, é para este ultimo que se destina em especial esta analise.

Michel Foucault, ao analisar as relações de poder verificou que o poder é algo que circula, que funciona em cadeia, que o poder enquanto coisa não existe, não se localiza num único ponto nem pode ser apropriado como bem ou riqueza, mas que o mesmo existe nas práticas ou relações de poder. Sabemos que existem “verdades” que são unicamente produto de um poder que é muito eficaz em seu sentido positivo,  onde busca a satisfação de seus desejos do que em seu sentido negativo jurídico e  repressivo isto é tranqüilamente verificável em nossa sociedade na falência gradativa das leis direcionadas a proibição das práticas de assédio moral no trabalho e no mundo jurídico que quando são colocadas são facilmente convertidas na grande indústria dos danos morais, enquanto que os métodos para gerir o trabalho, as palestras motivacionais para gerentes e vendedores “pit Bull” crescem a cada dia.A grande questão é que ninguém quer ser o “filho das grandes solidões” como disse Foucault em sua obra “Verdade e Poder”, referindo-se que a verdade não existe fora das malhas do poder, que ela não é a recompensa dos espíritos livres, porque estes são calado, poder regulamenta em sua forma positiva os mecanismos e as instancias que permitem diferenciar os enunciados verdadeiros dos falsos. Os intelectuais que se proporão a mostrar as “verdades” do assédio moral no trabalho caíram na armadilha de se deixar manipular por partidos políticos, aparelhos sindicais que encabeçam essas lutas, e por isso, serem seguidos somente por um grupo muito limitado, estes intelectuais são definido por Foucault como o intelectual específicos e essas ligações são os perigos que o filosofo assinalava. O fenômeno do assédio moral no trabalho até hoje é delineado unicamente por abuso de poder e autoridade por conta do clima econômico instável com conseqüências somáticas, mas não foi tratado em suas minúcias, não se preocupou em saber como ele consegue se fazer aceito, como consegue exercer seu poder.A verdade esta ligada ao sistema de poder, então não se pretende aqui quebrar grilhões e libertar a verdade, mas buscar construir uma nova verdade que mude o regime político econômico que mude o curso da história de forma inteligível, mudar a forma como o poder e o saber produz verdades da hegemonia na qual ele se movimenta. O assédio moral existe e suas conseqüências são reais, mas enquanto o cientificismo estiver sob o controle do poder ou orquestrando o interesse de classe, de partidos políticos e sindicatos sem realmente buscar analisar o problema com profundidade em suas relações de poder, a literatura será um livro de dramas reais e a legislação repressiva sem nunca ter reais chances de mudar a realidade dos trabalhadores.

 

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