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A porta blindada do muro de cartão

2011
jcastanheira.itapa@psicologiaveiro.pt
Licenciado em Psicologia. Com Diploma de Estudos Avançados em Psicologia (3º ciclo). Psicólogo Clínico, área de Psicologia Clínica de Orientação Analítica. Actualmente é director geral e clínico do ITAPA - Instituto Terapêutico Analítico Psicologia Aveiro (Portugal)

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A porta blindada do muro de cartão

“...encostado ao meu canto, cuidadosamente, faço de conta, entusiasmo...”

Parece imperar [(in)desejavelmente] a dificuldade de expansão, da liberdade de ser-se participante, no (re)encontro com esse que afinal não se torna assim tanto num novo outro, e, que se assemelha tão similarmente aquele(s) cuja falta ainda procura colmatar. O desejo (e o entusiasmo?) não está todavia tão perdido, nem passou a (in)existir, “só” não se mostra da mesma forma que se espera vê-lo para que possa ser reconhecido com tal. É como um beijo com sabor a estalo ou como uma chapada com calor de abraço.

“...e assim digo que te amo, mas pareces nem ouvir sequer que to digo, quanto mais que o sinto...”

Envolto em pertinentes e justificadas “queixas”(?), “não foi feito, não foi dito, não esteve (...)”, não entende (embora compreenda) que hoje (ainda lhe) faz (a mesma) falta, “não fazer, não dizer, não estar(...)”, tal como sente que foi, também se vai (re)sentindo, repeticional e quase ritmadamente, dessa mesma maneira. Mas vai, “(con)sentindo”...

“...por favor, para além das palavras...”

Quase súplica, “evidentemente” transferencial, que se se entremeia por entre ferozes ataques, (defesas) de elaboração complexa e completa, inabaláveis não fora o muro de cartão que defende, através dessa porta blindada, a dor de se sentir só, acompanhada da culpa de sentir estar sozinho. “As palavras” parecem ser demasiadas vezes “as coisas” sem (se ter) sentido, sem sentir, “...aquelas que se podem comprar e que se podem possuir não são as mesmas que procuro, mas são nelas que me encontro... As (“coisas”) que me fazem falta, não se explicam pela física nem se dão porque alguém as fez... Só se podem sentir...”.

“Pior é compreender e sentir nisso uma impossibilidade de mudança...”

Transferida nas perguntas dos porquês (que nos devolve uma pseudo-fixação a um estado infantil), parecendo não entender “(...)por que raio sou assim?” (im)possibilitando-se, em defesa do (re)viver emocional, a resposta do “...por que raio me sinto desta maneira?”.

“Nada como o fundo ser negro, a folha ser branca e as palavras serem de ambas mesmas cores...”

A (i)legibilidade dessa escrita fantasmática sombreada pelo contraste ausente, informa-nos (também) da precisão obsessiva com que aquelas dores são protegidas, ainda assim tão fragilmente pintadas a traço de obscura (depressiva) e clarividente (maníaca) perda de amor.

“Abandono a minha própria vida como única forma de vos fazer perceber, de vos dizer, que me senti e me sinto abandonado por vocês... Vocês parecem continuar a não ouvir, e assim, eu vou continuar a não (vi)ver...”

Abandonar a própria vida, como se isso pudesse ser uma montra que “alguém” vai poder finalmente apreciar, “dizer simplesmente não chega, é mesmo preciso sentir”. Abandonar a própria vida, como forma de dizer “...vejam, é isto que eu sinto, repito agora o que me fizeram a mim, fazendo-o a mim mesmo... e quem sabe aos que me rodeiam... e fazer isto que odeio aos que mais amo, continua a ser a minha precária forma de os gostar... a forma como gostaram de mim...”. Fá-lo em mutismo de partilha visível, embrenhado na divina musicalidade que o acompanha como se fora a sua própria permanente ligação ao mundo externo, uma música de segurança, que faz soar a vida a um filme, onde as cenas, as melhores cenas sempre vêm de mão dada com aquele tema de encaixe perfeitamente poetizado.

“Onde te encontro então? Se não é nas palavras, e se é só através delas?”

A liberdade do conforto é também o eufemismo no ardor da amplificação: “Ainda existe, demasiada, dificuldade em aceder ao trabalho interno daqueles órgãos, dos quais os exames mostram a phatogenia, mas não nos esclarecem sobre o seu funcionamento autónomo. Os diagnósticos, parecem ser, agora e cada vez mais, imprudentes formas de nomenclar, de colocar em catálogo os resultados dos testes efectuados aos órgãos internos, mais, uma e outra vez, não caracterizam um entendimento sequer próximo da dinâmica, quanto mais do seu significado. Não é visível a profundidade do enfermo (emocional), sequer se ele de facto existe (?).”

João Castanheira

Licenciado em Psicologia, membro efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP n.º 3560), com Diploma de Estudos Avançados em Psicologia (3º ciclo) pela Universidad Miguel Hernández de Elche (Espanha) e reconhecimento de Suficiência Investigadora, João Castanheira é Psicólogo Clínico, na área de Psicologia Clínica de Orientação Analítica, com experiência em contexto clínico-terapêutico, escreve artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise. Actualmente, é também director geral e director clínico do ITAPA - Instituto Terapêutico Analítico Psicologia Aveiro (Portugal)

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