A ascensão e queda da Psicologia

2011
pattaraujo@gmail.com
Psicóloga. Licenciada em Psicologia e Mestre em Psicologia Organizacional pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Professora Convidada da Universidade Jean Piaget, Benguela, Angola. Directora do GAPE -Gabinete de Apoio Psicopedagógico ao Estudante, na Universidade Jean Piaget, Benguela, Angola.

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A ascensão e queda da Psicologia

 

Há 130 anos considerou-se que a psicologia nasceu oficialmente, como ciência. Desde aí, a luta tem sido constante e exigente. Por todo o mundo, milhares de profissionais se debateram com ideias preconcebidas e mitos, lutando pelo seu lugar ao sol.

Com as grandes Guerras mundiais, a Psicologia viu surgir um óptimo trampolim. A psicometria conquistava o mundo. Todos ficaram a saber que os psicólogos eram “os tais senhores dos testes psicotécnicos”. Fomos adorados e odiados (e somo-lo até hoje, talvez!).

Os testes psicológicos foram e são úteis, porém, os psicólogos acabaram, muitas vezes, por se tornar de “uso fácil” quando, por exemplo, num concurso de acesso a uma determinada profissão, a entidade promotora deseja fácil e rapidamente eliminar centenas ou até milhares de candidatos. Infelizmente, quer em Portugal quer em Angola, tenho relatos, contados na primeira pessoa, de candidatos a concursos (públicos), que realizaram testes psicológicos a lápis, o que evidentemente, é contra qualquer lógica…

Se no início das guerras mundiais foi necessária a triagem de jovens por especialidades, no final das guerras, surgiu outro óptimo momento para a Psicologia. Milhares de jovens traumatizados demonstravam sintomas de stress pós-traumático, ansiedade, depressão, perturbações do sono e muitas outras patologias, muitas vezes incapacitantes para a continuidade da vida sem guerra.

Autores que todos conhecemos criaram testes psicológicos para detecção de dificuldades de aprendizagens em crianças. O objectivo era nobre e foi útil. Porém, distorções e aberrações tornaram isto numa obsessão de pais e professores.

Passamos da noção lata de escola onde todos eram aceites tal como eram, para a noção de que todos têm de estar na tal média e se adequar ao ritmo médio de aprendizagem e, se não se conseguissem enquadrar, eram segregados para escolas especiais. Estamos hoje a tentar desfazer todo o mal que causámos com os modelos actuais de escolas inclusivas.

Ao banalizar a aplicação de testes psicológicos, introduzimos “rótulos” horríveis que circulam pela escola, pela boca de pessoas não qualificadas e que, muitas vezes ingenuamente, acabam por trazer mais problemas do que vantagens ao disseminar essas etiquetas. Ainda hoje, muitos profissionais que não têm formação em Psicologia, continuam a usar testes psicológicos para diversos usos não éticos.

Assim, o que parecia nobre, tornou-se horrendo, o que poderia ser o caminho para a “cura” tornou-se, frequentemente, o caminho para outros problemas infantis como o baixa auto-estima, a incapacidade de integração, baixo nível de competências sociais, bullying, a vergonha, etc.

A Psicologia cresce a cada momento. Investigadores em Psicologia, durante pouco mais de um século, investigaram situações e constructos fantásticos. Porém, a psicologia está, neste momento, condenada a uma morte lenta. Já não há psicólogos. Todos querem ser “Psicólogos de qualquer coisa.” Não sei quando começou, e imaginei que seria só uma fase, mas isto já se arrasta há bastantes décadas e afinal, ao contrário do que eu imaginava, parece estar a piorar.

Quando encontrámos um colega sociólogo, não lhe perguntámos “És sociólogo de quê?”, ou “Em que área da Sociologia de especializaste?”; quando encontramos um contabilista, um arquitecto ou muitos outros profissionais, não lhe fazemos essa pergunta! De onde vem este febre de pseudo-especialistas?

Ainda me recordo de muitos professores meus comentarem que eram psicólogos e nós, já “cabritinhos” a seguir a molhada, perguntávamos, “Psicólogos de quê?”. De nada, respondiam. Em tempos existia uma Licenciatura em Psicologia, que formava psicólogos, sem sentir pressão para lhes atribuir áreas, opções, pré-especializações ou outras complicações! Psicólogos que num ano assistiam a uma autópsia e noutro estagiavam numa escola, ou davam consultas individuais ou iam estagiar num departamento de recursos humanos! Conheci vários psicólogos com cinco anos de formação em Psicologia, sem que ninguém lhes tivessem injectado uma crença de que eram especialistas em alguma coisa, porque nem eles eram, nem os que supostamente frequentam três ou quatros disciplinas diferentes, o são…

Em grande parte das profissões, o título de especialista é proveniente e atribuído por associações ou ordens profissionais, que exigem experiência de muitos anos e formação na área a que se candidata a título de Especialista.

Mas, desde que a Psicologia decidiu inventar subáreas de pré-especialização, começou a dirigir-se para o caminho do seu fim. A ideia não era, de raiz, má. Mas tornou-se.

Muitos cursos de licenciatura têm opções! Por exemplo, uma Licenciatura ou, actualmente, um Mestrado Integrado em Engenharia Civil também apresenta diversas especialidades como, por exemplo, construções, vias de comunicação, estruturas, etc., todavia, no dia-a-dia, quando encontramos um engenheiro civil, não desatamos a perguntar qual a área dele! É Engenheiro Civil, e ponto final. Porque é que tão facilmente, todas as pessoas, leigos até, imediatamente interiorizaram que os psicólogos não são psicólogos, mas sim “psicólogos de qualquer coisa”?

Continuo a reflexão por outros caminhos. No pós-guerra a expressão “Psicologia Clínica” venceu barreiras na sociedade. Em cinquenta anos, especialistas “inventaram” dezenas de novas patologias. O número de páginas do DSM aumentou de 86 em 1952 para quase 900 em 1994 e o número de transtornos mentais cresceu de 106 para 297 (Maddux, 2002). Este é o momento de pensar seriamente nisto, uma vez que está a decorrer a quinta revisão do DSM.

A partir do ano 2000, alguns autores e investigadores tentaram fazer ressuscitar a psicologia humanista, através do nascimento da psicologia positiva. Este acontecimento veio, na minha modesta opinião, ajudar a sair do paradigma negativista e clínica que a psicologia tem vindo a viver nas últimas décadas. Tenho esperança que a nova vaga traga notícias realmente positivas.

Como psicóloga, quero ser apenas psicóloga. Quero especializar-me quando realmente tiver uma especialização. Não quero que me forcem a dizer uma especialização que, na realidade, não posso ter. Psicólogos licenciados, em todo o mundo, querem rapidamente ganhar o título seguinte de “Psicólogo disto ou daquilo”, quando pouco sabem de psicologia, quanto mais de “psicologia aplicada a qualquer coisa”! A febre do título seguinte, de onde vem? Onde está a humildade de reconhecer que cinco anos de licenciatura não podem oferecer especialização nenhuma?! Curiosamente, depois de obter um determinado título através de uma ou duas disciplinas diferentes, chegam ao mercado de trabalho e candidatam-se na mesma às supostas áreas de outros psicólogos!!! Quantas vezes não vejo a anunciar “Psicólogo/a clínica” e, quando vemos a descrição de funções ou tipo de abordagens, lá está: área educacional, vocacional, recrutamento e selecção, etc. etc. Então, qual é o sentido de colocar uma determinada “coisa” à frente!?

Fui psicóloga em Portugal e em Angola e concluo que o fenómeno parece ser global. Obtive um mestrado numa rea de especialização e… continuo a não me considerar especialista.  Sou especialista em Psicologia, ponto. Depois, sou especialista em procurar as soluções e abordagens ideias para determinado problema. Penso que foi essa a principal lição de cinco anos de licenciatura: como alguém disso um dia, a licenciatura é a licença para a aprender.

Com isto não quero defender que se acabe com as disciplinas optativas ou áreas de opção. Mas o diploma é em Psicologia.

A psicologia tinha o potencial para “salvar o mundo”, mas caminha para o seu próprio fim. Não conheço mais nenhuma ciência, tão jovem, que contrarie os seus próprios princípios. Que viva constantemente em cisões, em vez de uniões.

Queremos acabar com a discriminação, o preconceito e criar sociedades positivas, no entanto, criamos rótulos para cada psicólogo e geramos discriminações dentro da própria classe profissional.

Queremos o equilíbrio psicológico de pessoas, grupo e comunidades, mas passamos uma boa parte do tempo “à caça” de patologias.

Queremos coesão na profissão, mas não procuramos eliminar o verdadeiro problema: os falsos psicólogos. Tanto o Sindicato Nacional de psicólogos (que existe em Portugal há mais de 30 anos) como a recente criada Ordem dos Psicólogos Portugueses têm lutado para encontrar as pessoas que se dedicam ao exercício profissional da Psicologia, sem habilitações para tal. A isso se chama usurpação de título e, nos meus modestos conhecimentos jurídicos, penso que é crime.

Além disso, continua a existir um excesso de escolas de psicologia em Portugal, muitas vezes, sem estágios, sem experiências práticas, sem laboratórios, porém, as licenciaturas continuam a ser homologadas. É contra tudo isto que temos de lutar.

Sei que algumas pessoas que leiam este artigo, poderão não concordar comigo. Respeito a vossa opinião. Mas concordem comigo quando digo que os psicólogos, só juntos, poderão ter força, nunca separados.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Maddux, J. (2002). Stopping the “Madness”: Positive Psychology and the Deconstruction of the Illness Ideology and the DSM. pp. 13-26. IN Snyder, C. R. & Lopez, S. (Eds.).Handbook of Positive Psychology. Oxford. University Press. New York.