Considerações no domínio da Psicologia Positiva Rita Barros rbarros@gaia.ipiaget.org Professora Adjunta do Instituto Piaget. Licenciada e Mestre em Psicologia (especialização em Psicologia e Saúde) pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Porto. Possui Diploma de Estudos Avançados em Desenvolvimento Pessoal e Intervenção Social pelo Departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação da Universidade de Valência. É Doutorada em Ciências da Educação pela Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Santiago de Compostela. 2012
Idioma: Português (Portugal) Palavras-chave:
Um dos desafios que nos últimos anos a Psicologia tem
abraçado prende-se com a compreensão dos aspectos não patológicos do
funcionamento da personalidade ou, dito de outro modo, com a análise das
potencialidades humanas e com as condições que sustentam o funcionamento
óptimo de pessoas, grupos e instituições.
Este novo foco de interesse, claramente distanciado
das preocupações que orientaram o investimento dos psicólogos no século
passado, designadamente no pós II Guerra Mundial, consubstanciaram-se
num movimento designado por Psicologia Positiva (designação questionável
na medida em que pressupõe uma Psicologia Negativa), cuja emergência se
situa na última década do século XX, nos EUA.
Este movimento, hoje com sólidas raízes no contexto
europeu e também à escala planetária, tem vindo a granjear a atenção de
um número cada vez maior de psicólogos que procuram construir modelos
teóricos que enquadrem os constructos e processos alvo de estudo, assim
como instrumentos para a sua avaliação. O bem-estar, a felicidade e o
optimismo são exemplo de constructos amplamente retratados nesta
matéria, quer se privilegie a sua articulação com traços de
personalidade e dimensões cognitivas e emocionais, quer se analise o
impacto de condições sócio-económicas e culturais ou, em contraposição,
o papel de factores hereditários.
Este campo de análise, em franca expansão, resulta do
investimento de grupos de trabalho que têm vindo a dedicar-se ao seu
estudo e divulgação, dos quais destaco o European Network for
Positive Psychology, aglutinador de vários países europeus que
alternadamente coordenam os trabalhos, e a International Positive
Psychology Association, que integra mais de 70 países (Barros,
Martín & Pinto, 2010).
Pese embora a sustentabilidade empírica e o rigor
metodológico e científico imprimido às investigações vinculadas a estes
e outros grupos de trabalho, a verdade é que assistimos a um boom
de publicações centradas nos constructos acima referidos, publicações
questionáveis quanto à sua cientificidade mas altamente comercializáveis
em qualquer livraria. Isto significa que o interesse da comunidade
científica por estas questões enquadradas na Psicologia Positiva é
concomitante com uma procura, por parte das pessoas em geral, em saber o
que é preciso para se ser feliz ou para se sentir bem. É caso para dizer
que este é um sinal dos tempos (pós) modernos.
De facto, este interesse tem subjacente uma
racionalidade facilmente desmontável. Face à emergência de novas
realidades económicas, históricas e sociais, pautadas pela complexidade,
incerteza, aceleração, imprevisibilidade, supremacia dos mercados e pela
hipervalorização da função funcional e tecnicista da dimensão humana,
acresce o desencanto face ao papel do progresso técnico-científico na
emancipação do ser humano e, nalguns casos, a tomada de consciência do
hiato existente entre este progresso e a felicidade e bem-estar.
Num contexto de desorientação, de crise económica, de
valores, de identidade e também de desalento (chancelado pela OMS,
quando elege para 2025 a depressão como a epidemia do século XXI), é
expectável que as pessoas procurem soluções. Ora, é justamente aqui que
encaixa a procura de informação, numa sociedade de informação e
conhecimento, numa sociedade globalizada.
Muitas destas publicações apresentam-se como forma
para cumprir essa necessidade. Transvestidas pela lógica mercantil e, em
meu entender, com propósito alienante, aspiram ensinar as pessoas a
serem felizes, através de receitas recorrentes, com pretensa orientação
científica e, supostamente, com todos os ingredientes para resultar.
Esta abordagem, se nalguns casos poderá ser inócua, noutros poderá
adquirir contornos potencialmente perigosos.
De facto, se o leitor não aprende a ser feliz, o ónus
da sua infelicidade reside nele próprio, o que, convenhamos, em nada
contribuirá para a inversão do processo. Dito isto, parece-me importante
sublinhar os efeitos iatrogénicos que estas publicações podem assumir e,
simultaneamente, demarcá-las das publicações científicas enquadradas no
movimento da Psicologia Positiva, que dignificam o trabalho sério e
credível dos investigadores que arduamente a elas se dedicam.
Bibliografia:
Barros, R.; Martín, I., Pinto, F. (2010).
Investigação e Prática em Psicologia Positiva. Psicologia, Ciência e
Profissão, 30 (2), 318-327.
[Este texto foi redigido de acordo com antiga
ortografia, por opção da autora.]
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