O psicólogo como cuidador da alma

2013
franciele.sassi@hotmail.com
Psicóloga

A- A A+
O psicólogo como cuidador da alma

 

Cuidar é essencial. Cuidar é amor. O cuidado e a vontade de prestar socorro vem de dentro, da empatia que se faz presente e da compaixão pelo outro. Vem do compartilhamento afetivo e do contágio emocional que acontece durante o encontro entre duas ou mais subjetividades diferentes (Lago & Codo, 2010) – subjetividade daquele que cuida e daquele que é cuidado, ademais da subjetividade que surge em decorrência da relação que acontece entre ambos – e de uma preocupação ou anseio por socorrer aquele que se encontra num momento em que a dor parece ser maior e mais forte que a vontade de seguir adiante.

Coloco-me a pensar sobre o quanto é preciso preocupar-se com o outro e no quão importante é disponibilizar-se integralmente a ele no momento em que mais se faz necessário o segurar de uma mão. Felizmente, as formas de cuidar não são aprendidas nos livros ou, pelo menos, não deveriam. Ninguém é máquina para ser recebido de forma padronizada. Assim como também ninguém deve apresentar um protótipo análogo de prestação de socorro a diferentes pessoas. Acredito que se façam necessárias atenção e, ao mesmo tempo, sensibilidade para que possamos compreender a diversidade daqueles que se apresentam diante de nós. Além disso, coragem para que tenhamos a possibilidade de intervir nos porões mais obscuros e sombrios da alma humana. É preciso muito cuidado, de nossa parte, com o desenlaçar dos nós da mente daquele que se encontra perdido na bagunça da sua existência. Estes trabalhos, por vezes, pressupõem esforços por parte de quem cuida e, justamente por isso, acredito que este tipo de serviço só pode ser executado por aqueles que estão dispostos, preocupados, mas também aptos e capacitados a curar as feridas tão dolorosas da alma. Sim, porque aquele que cuida, cuida da alma daquele que é cuidado.

Diante da perspectiva de tomar conta do outro, é preciso que todos nós, enquanto cuidadores dispostos a socorrer a dor e sofrimento, demo-nos conta de que cuidar significa mais que um ato, mas uma atitude, abrangendo fatores que seguem muito além dos momentos de atenção, zelo e desvelo, mas representa condutas relacionadas à preocupação, responsabilização e ao envolvimento afetivo com o outro (Boff, 1999). Acrescento que o cuidar transcende a existência humana e coloca o outro não numa posição de dependência, mas diante da possibilidade de levantar-se mesmo depois da queda. O cuidar apresenta ao outro a oportunidade de seguir com a garantia de que há, atrás de si, uma base sólida e firme, construída pelos seus próprios recursos desenvolvidos também com o auxílio do cuidador, para apoiar-se nos momentos de maior vulnerabilidade. É o cuidar do ser que o permite rumar ao seu próprio desenvolvimento. Por isso, defendo a ideia de que as respostas não lhe são dadas quando há o rótulo de um diagnóstico que sustente aquilo que lhe está sendo apresentado, mas é o cuidado proporcionado por aquele que presta socorro que possivelmente promoverá meios para que o sujeito se aproxime e conheça a inconstância arenosa do seu terreno, para que possa criar as próprias estratégias, a fim de conseguir andar sob as suas próprias pernas sem cambalear em demasia.

Atuar na perspectiva de cuidador diante de crises significa estar junto, permanecer próximo como uma forma de compreensão e apoio. Penso que este processo envolva um deixar-me preencher pelo vazio do outro e permitir-me transitar entre as subjetividades (minha e daquele que está à minha frente) sem precisar sair do lugar que me cabe. É ter a possibilidade de exercer a prestação de serviços sem o reducionismo de uma técnica específica que só esteja fundamentando a prática, mas, ao mesmo tempo, não deixar de considerá-la como um embasamento teórico e técnico importante para atuação. Já dizia Jung que por mais que se conheça todas as teorias e se domine todas as técnicas, ao tocar uma alma humana, é preciso ser somente outra alma humana. Cuidar significa um acolher que transborda e transcende; uma contenção ao outro que permite fazer com que eu me aproxime da sua dor para, minimamente, senti-la e compreendê-la e, a partir dali, intervir coerentemente. E que esse aproximar-se possa ser entendido por aquele que é cuidado como uma forma de acolhida e apoio e, ademais, que possa ser compreendido como um auxílio para o pedido de socorro.

Cabe a mim, enquanto cuidador, estender a minha mão. Contudo, é um oferecer numa via de mão dupla. Ou seja, a mesma mão que é estendida e acolhe também pode ser a mão que solicita por ajuda e que se distende para buscá-la. Acredito que o cuidador deva ser esta via de mão dupla, à medida que é necessário acolher e cuidar do outro, mas também ser abrigado por ele, no mesmo sentindo do poder transitar entre uma subjetividade e outra. Afinal, aquele que cuida também precisa ser cuidado. Parece-me que aquele que cuida precisa tirar os seus sapatos para permitir-se sentir a consistência arenosa no terreno do outro, entregar-se na sua densidade, mas também leveza. Contudo, também precisa retornar a calçá-los (os sapatos) depois de se deixar mergulhar, a fim de encontrar maneiras para manejá-la com cuidado. Assim, segue-se todo o aprendizado que é proporcionado através do contato com o outro, numa experiência que nunca se finda em sua mais nobre riqueza.

 

Referências bibliográficas:

Boff, L. (1999). Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Editora Vozes.

Lago, K. & Codo, W. (2010). Fadiga por compaixão: o sofrimento dos profissionais em saúde. Petrópolis, RJ: Editora Vozes.