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Como melhorar uma relação conjugal usando a técnica de counselling?

2018
andradesofia958@gmail.com
Mestre em Psicologia Clínica e de Aconselhamento. Formadora certificada pelo IEFP.

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Como melhorar uma relação conjugal usando a técnica de counselling?

Cada vez mais nos são trazidos, em setting profissional, variadíssimos enredos conjugais, tornando-se evidente a importância dos princípios básicos de counselling centrado no cliente. A melhor opção em terapia deve ser aquela que é aceite e adotada pelo cliente ou, caso contrário, não se irá obter muito sucesso.

 

No que consiste a técnica de counselling?

O counselling deriva da palavra inglesa que significa "aconselhamento", e consiste num processo de interação entre duas pessoas (um profissional e o cliente), tendo por objetivo ajudar a pessoa a fazer escolhas acertadas no âmbito pessoal ou profissional.

Para Rogers, o counselling foca a sua atenção na pessoa em primeiro lugar e não no problema que ela apresenta, havendo uma valorização do relacionamento humano.  

E quando o problema apresentado é a falha do outro cônjuge?!

Não é incomum que o cônjuge que vem pedir ajuda ao counsellor pareça ter a melhor congruência do casal. A esposa, cuja conduta parece irrepreensível, vem pedir ajuda por causa do seu marido infiel. O soldado, calmo e autocontrolado, deseja um conselho face à sua esposa implicante e neurótica.

A experiência diz-nos que o counselling deve começar com o problema. Numa situação conjugal não se deve lidar necessariamente com o cônjuge “problema”, mas com a pessoa que se encontra insatisfeita e quer trabalhar sobre o problema. Com a ajuda de counselling, qualquer pessoa que se encontra insatisfeita será capaz de fazer algo para melhorar a situação.

Não é invulgar a esposa vir ao counsellor e perguntar se poderá enviar-lhe o seu marido “problema” para ser aconselhado. O counsellor indicará que, se o seu marido realmente deseja ajuda, o mesmo poderá vir quando desejar. Contudo, ela poderá explorar a situação por si mesma.

Numa situação conjugal é comum identificar alguém como sendo a parte “inocente”, devendo o counsellor evitar tal armadilha. A incompatibilidade e as acusações que recaem sobre o cônjuge devem ser totalmente aceites e reformuladas, mas o counsellor deve abster-se de avaliar o outro cônjuge.

O motivo está à vista e, muitas vezes, o cliente inocente não está totalmente inocente. Assim, uma jovem atraente, esposa de um soldado da guarda costeira, descreveu o marido como um indivíduo inibido, reservado, irrefletido, com tanta falta de espontaneidade e cordialidade que seria impossível qualquer relação conjugal razoável.

Mas, à medida que as queixas eram aceites, ela conseguiu revelar o outro lado do quadro, o qual ela reprimiu. Com o marido, estava inquieta, com uma alegria artificial ou num silêncio excessivo. Tudo porque agia com medo do que pudesse dizer ou fazer e ser descoberta das suas leviandades passadas.

Se o counsellor se tivesse posto do seu desde o início provavelmente ela nunca teria debatido o seu próprio lado da situação e os seus sentimentos de culpa. O counsellor não deve levantar o peso da dificuldade dos ombros do cliente. A ajuda será melhor se se concentrar na tarefa de ajudar o cliente a clarificar a sua própria relação com a situação, pois não será uma terceira pessoa a resolvê-la por ele.

 

E quando se tem que tratar ambos os cônjuges?

Se a relação de couselling for só com um dos cônjuges, para o counsellor principiante os problemas técnicos serão mais simples. O marido, ou esposa, pode fazer uso do counselling para explorar, compreender e reconstruir as suas próprias atitudes e o comportamento no casamento e assim trabalhar esses aspetos pelos quais é responsável.

Quando ambos os cônjuges vêm à consulta devem ser ouvidos juntos, mas depois marcar-se consultas em separado. Se o assunto for conduzido desta maneira, o counsellor deve manter separadas as duas relações de counselling, ou seja, o marido não deve ser informado sobre o que a esposa disse na consulta e vice-versa. O counsellor deve ter o cuidado de evitar desenvolver um diagnóstico ou uma conclusão sobre a situação.

Este counselling de ambos os cônjuges exige um grande autocontrolo da parte do counsellor do que noutras situações de counselling, particularmente se quiser manter-se aberto e aceite face às diversas atitudes dos dois parceiros. À medida que o contato avança descobrir-se-á que o marido e a mulher se tornam livres para expressar mais um quadro real em lugar de um defensivo, havendo menos contradição entre si.

Podem surgir situações em que o casal é entrevistado em simultâneo. Nestas,  mostra-se possível que, ao reformular atitudes expressas, o counselling simultâneo permita alcançar progressos na medida em que ajuda cada um a clarificar as suas atitudes, aquelas pelas quais é responsável, e encontradas formas de ajustamento. Como consequência, e sempre que possível, o marido e a esposa deverão ser atendidos em separado.

 

Quando devemos dar informação?

Nas situações conjugais o cliente pode necessitar de informação relativamente às leis de divórcio, à gestão financeira da família, ao ajustamento sexual, à assistência dos filhos, etc., e o counsellor poderá desejar dar esta informação verbalmente ao cliente ou indicar livros ou pessoas. A informação deve ser dada de forma neutra, de modo a que o cliente possa utilizá-la ou não, porque é muito fácil assumir que estamos a dar informação quando, na verdade, estamos a dizer ao cliente: “é isto que deve fazer”.

Um casal novo, casado há pouco tempo, veio para ajuda porque não haviam sido capazes de consumar o seu casamento. A jovem tinha sido fortemente condicionada por uma mãe neurótica e anormal, contra tudo o que fosse sexual, e agora percebeu que, apesar de gostar de agradar e satisfazer o marido, não o conseguia fazer.

Nesta situação, o counsellor selecionou um livro que enfatizava o lugar de normal do ajustamento sexual no casamento e ofereceu-o à esposa. Claro que esta informação não resolveu o problema, visto aquela ainda precisar de trabalhar a sua atitude em relação a assuntos sexuais.

É provável que tenha sido uma ajuda para ela na aprendizagem de alguns factos, que na vida passada não a deixaram desbloquear. Por conseguinte, ocorridas melhorias e tendo conseguido estabelecer os seus objetivos e escolher os seus próprios valores, foi então capaz de adquirir um ajustamento sexual satisfatório.

Este caso ilustra o lugar da informação no processo de counselling. Deveria ser reconhecido que os factos ou informação raramente constituem a resposta satisfatória a um problema conjugal. Mesmo quando os factos necessários são dados a conhecer, permanece ainda com o cliente a tarefa de se relacionar de maneira responsável com esses factos. Essa é a área do counselling.

 

Algumas considerações gerais:

1 - O counselling trata de atitudes, não de situações. Não afeta diretamente fatores externos ao caso - o marido infiel, a sogra que não é razoável, a tensão financeira em casa.

2 – O counselling pode ajudar o indivíduo a mergulhar mais profunda e realisticamente em todas as atitudes que tenha face à sua situação, centrando-se no problema, tal como existe, independentemente das atitudes do cliente. Através desta perceção mais verdadeira pode desenvolver novos meios e um maior amadurecimento para se relacionar com a realidade que enfrenta.

 

Resumidamente:

O counselling passa de uma formulação defensiva do problema para uma exposição real do problema; de um conceito defensivo do self para um rigoroso auto-insight; da confusão e da incapacidade para fazer alguma coisa construtiva perante uma situação, para um objetivo integrado e mais amadurecido, em direção ao qual já foram dados os primeiros passos. Não se pode ter a certeza que o casamento vai ser bem-sucedido, mas as suas atitudes são bem mais construtivas, mais realistas e mais amadurecidas.

 

Referências Bibliográficas

Rogers, C. (2000). Manual de Counselling. Lisboa: Encontro

 

Sofia Andrade

Sofia Alexandra de Jesus Andrade é psicóloga, especialista em Psicologia Clínica e de Aconselhamento. É Membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses, e Membro Associado do MDM. É também membro da IPSS Nova Aliança em Lisboa. É Licenciada em Psicologia e Mestre em Psicologia Clínica e de Aconselhamento pela Universidade Autónoma de Lisboa, tendo realizado um estágio de mestrado via profissionalizante na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens do Seixal, onde adquiriu competências pessoais e sociais com crianças e jovens em risco. Realizou também um estágio de Licenciatura no Gabinete de Saúde Ocupacional da Câmara Municipal do Seixal, onde desenvolveu um estudo sobre o levantamento do Absentismo Prolongado dos trabalhadores, bem como consultas de desabituação tabágica. Trabalha há vários anos na Administração Pública, além de ser formadora certificada pelo IEFP e apoiar várias causas sociais e políticas, sendo participante ativa em causas voluntárias.

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