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Crianças francesas não fazem manha: sono e alimentação desde o nascimento - Parte I

2016
carolina_careta@hotmail.com
Psicóloga clínica e escritora.

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Crianças francesas não fazem manha: sono e alimentação desde o nascimento  - Parte I

Cada vez mais percebemos a imensa dificuldade nas famílias em relacionar a individualidade e o trabalho com a criação dos filhos e a responsabilidade de zelar pelo próprio lar.

A geração vem contribuindo muito para os grandes obstáculos, pois as crianças exigem mais em aspectos de conhecimentos e tecnologia e cobram igualmente a atenção dos pais, fatos nos quais o Brasil de hoje vem demonstrando alguns déficits no que diz respeito à sustentabilidade da família e em suprir as necessidades dos filhos e cônjuges.

Um modelo muito difundido tem como base o livro “Crianças Francesas não Fazem Manha” de Pamela Druckerman. Uma jornalista americana apaixona-se por um britânico residente em França, e após um curto relacionamento ambos resolvem morar juntos, logo em seguida engravidando de sua filha Bean. Inicia-se então um processo de conflitos e comparações entre a sua criação e os trejeitos americanos de Bean, e a conduta francesa. Sirva-se como exemplo que os brasileiros se aproximam na condição americana.

O modelo francês inicia seu processo desde o nascimento, onde os pais são reforçados a coagir com mais tranquilidade quando seu filho acorda chorando durante a madrugada para a amamentação ou simplesmente porque está com alguma indisposição. A técnica é indicada por um pediatra local chamado Michel Cohen e consiste em “dar a chance de seu filho acalmar-se sozinho e não pular em cima dele à noite, não responder automaticamente. Essa pausa antes de atender ao choro de madrugada, sempre fez filhos que dormem melhor, enquanto pais ansiosos têm filhos que acordam repetidamente até tornar-se insuportável”. Além disso, prioriza a qualidade de vida dos pais, para que o reflexo seja o melhor possível na criança desde seu nascimento.

Este é um quadro que exige transformação igualmente nas famílias brasileiras, pois é muito comum em nossos consultórios de psicologia a queixa excessiva dos filhos não lidarem com a frustração: a palavra NÃO e a paciência em esperar, as regras e limites. Esses pais desesperadamente têm a necessidade de “socorrer” o filho na primeira resmungada ou ceder aos caprichos no mesmo momento, reforçando-os de forma negativa e ilusória, pois em algum momento nos depararemos com tal injunção do termo e o sofrimento torna-se pior, contribuindo muito com os transtornos psicológicos e as doenças psicossomáticas futuras.

As regras estendem-se no aspecto da alimentação. Enquanto os pais americanos são incisivos nos fast foods e industrializados, um bebê aos quatro meses já inicia seu processo de alimentar-se a cada quatro horas, como um adulto, por exemplo: café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. O cardápio básico inclui frutas, verduras, legumes, peixes e também aprendem a fazer lanchinhos da tarde, como o primeiro bolo de iogurte chamado gâteau au yaourt, junto com a mãe.

É muito comum as mães francesas tomarem suas xícaras de café ou chá inteiras, ou seja, conseguem conversar do início até o final com as crianças junto. Mesma situação nos restaurantes, onde os pequenos permanecem sentados e se alegram com um prato de peixe com legumes. Fato não ocorrido com Bean, por exemplo, onde o choque de culturas faz com que ela, em um determinado restaurante, um tanto quanto agitada, rasgue em pequenos pedacinhos os guardanapos de papel que estão sobre a mesma e os jogue no chão, fazendo com que os pais comam brevemente e envergonhados, pedindo desculpas ao garçom, seguido de uma gorjeta.

Fica claro que a máxima dos pais franceses é a palavra “Não”, pois os filhos precisam aprender a lidar com a frustração. Percebe-se, desde o nascimento, a importância da criança não ser atendida de primeira quando resmunga ou chora, possibilitando aos pais a capacidade de observarem seus filhos, ensinando-lhes a melhor forma de encarar o mundo e as pessoas. Assim como explicar quando não pode ser atendido um desejo ou capricho, é importante explicar as razões do não e permitir que eles possam expressar-se com o choro. Ou quando são reforçados a comerem de forma saudável e com horários fixos, questão distinta no caso americano, onde é comum as crianças não terem horários e desde cedo abrirem a geladeira pegando aquilo que têm vontade no momento.  Todos fatos que tornam a vida da família e da própria criança - que irá crescer um dia - mais tranquila e compensatória dentro dos padrões reais e sensatos.

É importante ressaltar que a base são os cuidados e, principalmente, o amor. Apesar de parecerem rígidos ou mesmo frios entre outras culturas, é percebido que funciona e não são infelizes por isso. Pelo contrário, são considerados o modelo de respeito e cuidado com o outro.