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Do direito a receber, uma vez que se dá!

2017
lmaia@ubi.pt
Licenciado em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade do Minho. Mestre em Neurociências pela Faculdade de Medicina de Lisboa. Doutorado em Neuropsicologia pela Universidade de Salamanca. Especialista em Neuropsicologia e Psicobiologia pela Universidade de Salamanca. Pós-Doutorado em Ciências Médico-Legais pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar. Docente universitário no Departamento de Psicologia e Educação da Universidade da Beira Interior. Neuropsicólogo e psicólogo clínico (prática privada). Editor associado da "Revista Psicologia e Educação" (UBI). Editor da “Iberian Journal of Clinical & Forensic Neuroscience” (Portugal). Editor da RUMUS "Revista Científica da Universidade do Mindelo" (Cabo Verde)

Excerto de texto publicado com autorização da Editora Sinapis, com direitos de autoria do autor deste texto, adaptado da obra “A Psicologia do Verbo Amar, e o erradicar da negligência”, publicado em Nov. 2016 pela Sinapis Editores (ISBN: 978-989-691-543-8)

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Do direito a receber, uma vez que se dá!

Uma das formas de melhorarmos a nossa qualidade relacional com os outros, e connosco próprios, é investindo num modelo de comunicação assertiva. O grande problema é que uma grande parte das pessoas, tenho notado, confunde o termo assertivo (ou assertivi­dade) com a forma de impor e defender as suas ideias, de dizer o que se pensa de forma incisa e contundente (inequívoca). Algumas pessoas respondem‑me mesmo em contexto de consulta que ser assertivo é ser frontal! Ora, ocorre que conheço muitas pessoas frontais, que não são necessariamente assertivas, muito pelo contrário! Ser assertivo é utilizar como principal forma de comu­nicação a assertividade, e esta é considerada como sendo a base de um relacionamento em que, de acordo com as definições mais clássicas, as pessoas possam expressar os seus sentimentos e ideias de forma socialmente adequada, preocupando‑se com o respeitar sempre os seus próprios direitos e interesses, mas também os dos seus interlocuto­res (Marchezini‑Cunha & Tourinho, 2010). De um ponto de vista mais prático, corresponderia à “habilidade para procurar, manter ou aumentar o reforço de uma situação interpessoal por meio da expressão de sentimentos ou desejos quando tal expressão envolve riscos de perda de reforço ou até de punição” (Rich & Schroeder, 1976, p. 1082). Assim, se estivermos perante uma relação interpessoal, numa determinada situação, conseguimos antever que se tivermos comportamentos ou respostas passivas ou agressivas estas causariam uma qualquer forma de punição (o desagrado mostrado pelos outros, a reacção agressiva de alguém, etc.) ou perda de reforços (ou seja, quando alguém nos retira garantias relacionais que já tínhamos assegurado), enquanto que uma relação assertiva garante a manutenção e mesmo aumento da frequência, duração e intensidade de consequências positivas (os ditos reforços).

Desta forma, convido o leitor a pensar na forma como estabelece as suas relações: haverá algumas em que sente que é mais passivo? Outras em que sente que é mais agressivo? Isso não é ser assertivo. Ser assertivo, na minha opinião, e como refiro muitas vezes para que seja mais fácil compreender‑se, é evitar ser passivo, mas não cair na tentação de ser agressivo. É respeitar a vontade dos outros, mas nunca deixar que se desrespeite a sua própria vontade. Há que encontrar um ponto de entendimento, mas para isso é necessário haver muita humildade para que ambas as pessoas se encontrem ao meio do caminho relacional, e não se mantenha, cada um, sentado no seu ponto de vista, sem querer mudar a forma como interpreta o mundo e como lida com as pessoas. No contexto de uma relação, Beck (1995, In Elias & Britto, 2007) defende que a assertividade “Deve estar presente no contexto do relacionamento afectivo como um conjunto de comportamentos, por parte de ambos, que podem ser denominados favorecedores da interacção ajus­tada, como, por exemplo, alguma flexibilidade, confiança, tolerância, cooperação, capacidade para tomar decisões conjuntas, admiração, comunicação eficaz, entre outros.” (p. 1).

Tendo por base o referido anteriormente, é necessário referir que a capacidade de se desenvolver uma relação assertiva, em que o amor esteja no centro da mesma e a negligência seja erradicada ao máximo, depende da forma como uma determinada relação foi estabelecida. Há que considerar as características personalísticas de cada um dos envolvidos na relação. Como cada um dos elementos se posiciona acerca de temas como a dedicação às várias situações da vida, quer seja do casal, quer seja de uma família alargada. É importante estar atento ao facto de por vezes, sem se aperceberem, os parceiros relacionais estão a desenvolver padrões de relacionamentos dependentes, falta de privaci­dade, falta de entendimento das contingências relacionadas com matérias como família, amigos, contexto laboral, etc. Se isso não for ultrapassado, então os relacionamentos podem tender a caminhar para a frustração, mesmo quando, por vezes é irónico, ambos têm a noção que querem ter um relacionamento estável e assertivo com o outro, só não conseguem compreender o que está a falhar.

Da minha experiência como terapeuta, e como pessoa em relacionamento, claro, a principal resposta é apostar‑se no desenvolvimento prático de uma comunicação assertiva nas relações familiares e outras, e por isso irei aprofundar este tema com alguns exemplos e sugestões que poderão ajudar a tornarmo‑nos mais assertivos no dia‑a‑dia.

 

1ª Sugestão: Classifique o seu comportamento

Avalie a seguinte recta abaixo e tente perceber onde estão a maioria dos seus padrões de se relacionar com os outros.

_______________________________________________________________

Passividade                        Assertividade                         Agressividade

(Com base na proposta de Hargie, Saunders & Dickson, 1994).

Se utilizarmos a metáfora da reta aqui sugerida por mim (o seu posicionamento), relacionados com as palavras a que estão associados, percebe‑se que se o padrão mais pro­eminente for o da passividade, então terá que desenvolver muitos comportamentos que parecem não estar presentes. Repare que é como um triângulo mais pequeno, logo, uma dimensão (ou conjunto de dimensões) que ainda tem muito que crescer. Ou seja, existem muitas estratégias que pode­riam caber nesse seu mundo, mas como o representa de forma tão pequena, limita‑se a viver de acordo com aquilo que “cabe” nesse mesmo mundo. É como se aceitasse que a vida dos outros fosse mais interessante e mais preenchida de várias dimensões, como força, coragem, capacidade de se expressar, direitos, vontades, etc. Esse padrão pode ser mudado. Basta querer desenvolver essas dimensões e até mesmo talentos e qualidades que estejam esquecidas ou adormecidas. Se por sua vez se identificar mais com o ponto extremo da agressividade, perceberá que está no lado oposto da reta. O mesmo é dizer que o seu mundo provavelmente está demasiado cheio. Provavelmente estará a sentir incre­mento de agressividade, frustração, raiva, desespero, e isto está a manifestar‑se através de uma forma agressiva para com o mundo. Terá que perceber que o seu comportamento deverá ser abrandado na manifestação dessas dimensões.

Se já se sente mais aproximado da dimensão intermédia da assertividade, então provavelmente sentirá que os seus comportamentos lhe asseguram relacionamentos mais estáveis, serenos e satisfatórios. Este deve ser o primeiro passo: avaliar os seus compor­tamentos e decidir onde se colocar nesta recta.

 

2ª Sugestão: Decida quais dimensões devem ser erradi­cadas e quais devem ser incrementadas

Sugiro que erradique do seu comportamento as dimensões que não são assertivas e introduza as que são assertivas. As que considero mais relevantes nomear aqui, no campo do relacionamento familiar e amoroso são:

  • Não seja egoísta nos seus sentimentos;

  • Não seja bruto no tom de voz que utiliza com as pessoas;

  • Mesmo quando estiver a discordar de alguém, não se considere superior apenas porque pensa de forma diferente dessa pessoa;

  • Não incuta medo nem ameace com aspectos que apenas servem para fazer sobressair a sua vontade;

  • Não se esqueça que a outra pessoa tem direito a ter as suas próprias ideias e opiniões;

  • Não ceda à tentação de inverter o rumo de uma discussão de forma a ser‑lhe mais favorável;

  • Não culpe ou julgue as pessoas imediatamente, apenas porque discordam de si (são pessoas com quem está em relacionamento, por isso, respeite a outra pessoa);

  • Não seja passivo nem demonstre medo de magoar a pessoa e por isso não demonstre medo de ser abandonado ou vir a abandonar a pessoa;

  • Não evite dizer o que pensa, não evite demonstrar os seus sentimentos, não evite defender os seus direitos emocionais;

  • Não evite demonstrar às outras pessoas que se querem relacionar‑se consigo, são obrigadas a respeitá‑la;

Enfim, tantos exemplos poderiam ser dados. Basta pen­sar e perceber se no relacionamento que está a estabelecer está a ter uma atitude segura, confiante, sem medos, mas ao mesmo tempo respeitadora, amável, gentil, com empatia e compreensão pela dimensão humana dos outros, etc.; então está no bom caminho!

Se não está a fazer nada disso, então esqueça: não está a ser assertivo, e deveria mesmo mudar!

Há também um conjunto de reflexões que deve encetar no sentido de responder à sua pergunta de como compre­ender se está a ser assertivo:

  • Sou gentil e aceito que a pessoa possa não concordar comigo (todavia quando isso acontece, peço para que se possa comunicar acerca dessa discordância. Se tal não for feito, cada um ficará com a sua opinião e facilmente se entrará na dinâmica passivo‑agressiva);

  • Mesmo que haja discordância, mantenho a calma e valorizo as opiniões, desde que essas me sejam ditas de forma educada (costumo pensar que podem dizer‑me tudo, desde que o façam com respeito);

  • Aceito as críticas à minha pessoa, pois isso faz‑me crescer e pensar acerca dos meus erros;

  • Valorizo o meu direito de manifestar a minha insa­tisfação, desde que o faça com respeito. Não é necessário calar‑me para evitar problemas, isso é ser passivo.

  • Tenho o direito de reivindicar para que haja mudanças na relação que tenho com os outros, no sentido de se consolidar uma base relacional mais satisfatória, mesmo que isso cause algum desconforto no meu seio familiar;

  • Sou franco e honesto comigo e com os outros, por isso tenho o direito de expressar a minha opinião;

  • Vivo em relação, por isso tenho o direito de não viver em silêncio;

  • Tenho o direito de esperar que a melhor forma de resolver os problemas seja utilizando uma comunicação clara e directa, sem subterfúgios;

  • A melhor forma de ser assertivo e ajudar os outros a sê‑lo é usando a minha capacidade de comunicar. Ninguém me pode impedir de resolver os problemas através de uma comunicação que obrigue a mim e aos outros a enfrentar­mos os nossos problemas;

  • Tenho o direito de perceber que conversar não é discutir (algumas pessoas com quem nos relacionamos dizem muitas vezes “Estás a ver? Já estamos a discutir!” e eu costumo responder, “É uma pena que o sintas assim, quanto a mim, estamos apenas a conversar!”;

  • As pessoas que não querem conversar acerca dos problemas é porque, na maioria das vezes, tal faz com que se confrontem com as suas próprias dificuldades, incongruências, frustrações etc., levando a que para si, conversar crie a sensação de ansiedade e desespero, como se estivesse a discutir. Mas eu sei que não estou a discutir, e sei que tenho o direito a ser esclarecido acerca do que posso contar naquela relação;

  • Aposto na franqueza e na forma do que, e como falo. Se isso causa sofrimento ao outro, não me posso esquecer que também eu sofro com assuntos que são críticos para mim, mas se compreendo que se os abordarmos estaremos a ser assertivos e podemos assim ultrapassar as dificuldades encontradas, então não vou abdicar desse direito!;

  • Quero promover a minha auto‑estima e autoconhe­cimento, mas na mesma medida, quero o mesmo para as pessoas com quem me relaciono;

  • Recuso‑me a viver num ambiente, passivo, agressivo ou manipulativo;

  • E por fim, embora, milhares de exemplos pudessem ser dados, não aceito que me tratem como se a pessoa não se estivesse a perceber que eu percebo o que está a acontecer!

 

Quando falo acerca da assertividade para alunos ou pacientes dou muitas vezes o exemplo do que não pode acontecer, como por exemplo acontece no campo da Diplomacia. Costuma‑se dizer que a Diplomacia ocorre quando vários países fazem de conta que ninguém sabe que alguma coisa inaceitável está a acontecer, e que ainda por cima, todos sabem que todos sabem, mas comportam‑se como se ninguém soubesse que sabem!

Este status quo em que se mistura a agressividade dos que controlam a manutenção activa da situação e a passi­vidade dos que simplesmente consentem, é inaceitável no âmbito das relações de pessoas com quem queremos uma proximidade assertiva.

Ninguém deve permitir que tal aconteça no seu casa­mento ou namoro, com os seus filhos, etc.

Se quer ser assertivo, assuma que as pessoas não são feitas de vidro, não se partem por ouvir as verdades, devem ser humildes para escutar o que temos para lhes dizer (com todo o carinho e amor que temos por elas).

Se as pessoas não estiverem preparadas para uma relação baseada no amor, na assertividade e no não negligenciar a vida emocional e psicológica das pessoas com quem convive, então para que quer ter essa relação? A vida já é suficientemente dura para que, passivamente se aceite sofrer desnecessariamente, ou agressiva e manipulativamente se cause esse mesmo sofrimento sem que ninguém faça nada. Amar e ser assertivo, é ser o oposto de ser diplomata.

Tenho um amigo que é político de carreira e que quando conversamos acerca das decisões que temos que tomar, ou por vezes até de certos compromissos que estabelecemos um com o outro, ele tende a avisar: “não te esqueças que aquilo que eu prometer, não posso prometer que cumpro!” Quando ingenuamente eu perguntava, no início, se ele não percebia a incongruência que estava a cometer ele respondia‑me de forma quase paternalista: "O Luis tem que perceber que em política, tal como referia Winston Churchill, ‘Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir’”. Muito atónito, lembro-me que lhe respondi com toda a assertividade que consegui: “Então fazemos assim, a partir de agora, como não sou passivo, se quiseres ter algum compromisso comigo (coisas simples), terás que o confirmar atempa­damente, pois de forma muito assertiva devo recordar‑te uma frase de Madre Teresa de Calcutá: ‘Não posso dar‑me ao luxo da política. Numa ocasião, fiquei cinco minutos a escutar um político e morreu‑me um velhinho em Calcutá’”. Nessas ocasiões rimo‑nos os dois e sabemos que a nossa amizade, no sentido de momentos de lazer que poderíamos ter em conjunto como almoçar, colocar a conversa em dia, ver um jogo de futebol, etc., não evolui tanto, pois fica sempre ao sabor das disponibilidades imprevisíveis de uma vida política que eu não escolhi para mim mas que ele sim (e eu tenho que aceitar). Assim, respeitamo‑nos, mas temos a noção que a relação não é tão próxima como poderia ser. Enfim, é o preço que a sinceridade que nos une nos leva a pagar.

Gostaria de terminar este ponto com um exemplo que pode parecer muito simples para a maioria das pessoas mas que para mim foi muito marcante, no que diz respeito à forma como devemos ser assertivos para com as outras pessoas.

E fui eu que levei uma grande lição!

Quando acabei a minha Licenciatura em Psicologia Clínica e da Saúde, na Universidade do Minho, em Braga, tinha já assegurado a minha entrada na Faculdade de Medicina de Lisboa para continuar os meus estudos no I Mestrado em Neurociências da história daquela faculdade de medicina. Era uma oportunidade de ouro e não podia perdê‑la. Rumei directamente de Braga para Lisboa e depois de um alojamento meramente provisório de semanas, fui calorosamente recebido numa comunidade de Sacerdotes e Irmãs Consagradas (vulgo Freiras). Era para mim o paraíso. Por uma pequena quantia, estava hospedado numa residên­cia a que se chama comunidade (em que todos vivem com algumas responsabilidades e cuidados para com os outros (se eu quisesse ir para um hotel, então que ganhasse dinheiro para tal, mas até isso seria completamente desnecessário). Morava a dez minutos a pé do meu local de trabalho, um grande hospital psiquiátrico do centro de Lisboa, e, noutra direcção, a cerca de 10 minutos da Faculdade de Medicina, a pé! As irmãs religiosas encarregavam‑se dos cuidados com a roupa (lavar e passar, e ainda colocavam‑na arrumada no armário e gavetas, do meu quarto); faziam a limpeza de todas a áreas, mesmo a do meu quarto, mudavam as roupas das camas, preparavam todas as três principais refeições (pequeno‑almoço, almoço e jantar). No preço ainda estava incluído todas as despesas complementares, como água, electricidade, gás, alimentação, roupa lavada e cama (como o povo costuma dizer, não é?). Não poderia querer melhor para uma fase em que estava a transitar de uma cidade para outra completa­mente diferente e tinha dois anos para completar os meus estudos de Mestrado na Faculdade de Medicina e conjugar com o meu trabalho a tempo inteiro como psicólogo no hospital psiquiátrico. Como as Irmãs não eram nossas escravas e não se podia olhar para o regime ali desenvolvido como se fosse um hotel ou restaurante, havia um período estipulado para cada uma das grandes refeições. Quando chegávamos à sala de refeições, tudo estava bem apresentado, acabado de confeccionar e sempre apresentado com o máximo de carinho. Já no fim do meu mestrado, ou talvez a meio, sei que começou a ser muito difícil para mim conjugar as horas a que tinha que sair do trabalho, ir para o Mestrado na Faculdade de Medicina de Lisboa, e voltar a horas para as refeições. Então pedi às irmãs se podia passar a fazer apenas as refeições do pequeno‑almoço e jantar (confesso que ao pequeno almoço as irmãs até colocavam um pequeno reforço para se quisesse ao almoço eu nem ter que fazer uma grande refeição… lanchasse só alguma coisa onde estivesse, e depois ao jantar já poderia fazer um boa refeição). Com o adensar dos trabalhos, fui‑me descuidando em avisar as irmãs, se vinha jantar, se por acaso num determi­nado dia até tinha tempo para ir a casa almoçar (e por isso aparecia sem avisar, mesmo que as irmãs não estivessem a contar comigo para o almoço). Se saía à pressa de manhã e não tomava o pequeno‑almoço e sem me aperceber, pois estava tão absorvido nas minhas responsabilidades que nem me lembrava que alguém estava preocupado comigo. Custa‑me assumir isto em livro aberto para o público em geral, mas a assertividade também implica isso, assumir os nossos erros e mudar os nossos comportamentos!

Um dia, pela manhã, apresentei‑me para tomar o pequeno‑almoço e uma das irmãs estava presente e reparei que a mesa não estava posta. Lembro‑me que com toda a educação perguntei à Irmã se podia tomar o pequeno‑almoço. A Irmã começou a colocar a mesa de forma muito agastada, notava‑se no seu semblante, mas sem ser agressiva e respeitando‑me sempre disse‑me qualquer coisa como isto: “Sabe que aqui todos se tratam como uma família e deve aprender a respeitar o esforço que fazemos para que todos se sintam bem; não pode continuar a tomar as refeições sem avisar e agradeço que decida se quer viver aqui como família, ou como um simples hóspede, como se isto fosse uma pensão!”

Confesso que imediatamente percebi que a Irmã não só estava coberta de razão e nada havia que eu pudesse fazer para mudar o comportamento passado daqueles dias, que só ocorreram pelo assoberbar dos trabalhos como expli­quei, mas as Irmãs não tinham culpa disso, pois viviam lá cerca de 20 pessoas e todas tinham também as suas vidas atarefadas. Lembro‑me de ter pedido imediatamente desculpas à Irmã e pedi autorização para poder mais tarde dirigir‑me a todas as Irmãs da comunidade. Assim, ao fim da tarde de trabalho, antes do Jantar, as Irmãs e o Sacerdote que geriam a comunidade receberam‑me e eu limitei‑me a pedir desculpas e mostrar o meu claro arrependimento! Curiosamente todas receberam muito bem o meu pedido de desculpas e de forma muito caridosa ainda me ajudaram a ultrapassar aquele momento, dizendo que para compensar eu teria que lavar a loiça por uma semana (não nos podemos esquecer que eu já era um técnico de saúde, a trabalhar num grande hospital, e a fazer o mestrado na Faculdade de Medicina; ou seja, as irmãs mostraram‑me com aquela atitude que, independentemente daquilo que somos ou fazemos fora de casa, lá dentro somos todos iguais, em termos de direitos, liberdades e garantias, mas também em termos de deveres e compromissos!). Fiquei aliviado quando percebi que a “ameaça” de ter que lavar a loiça era a brincar, e acreditem, passei a avisar, várias vezes por dia, se ia ou não tomar as refeições (os telemóveis estavam ainda a começar a ser a principal forma de comu­nicação como hoje o são, e por isso, por vezes, telefonava mesmo para a portaria, do meu trabalho, a pedir para avisarem a Irmã Superiora que não poderia estar).

O relacionamento ficou ainda muito melhor do que aquele que já era antes do sucedido, e reparei que passei ainda a ser mais mimado e acarinhado com pequenos gestos das irmãs! Ou seja, pela atitude assertiva daquela irmã que me chamou à atenção, tive a oportunidade de pensar acerca do meu comportamento, e mudei! Ou seja, foi a assertividade da Irmã que me permitiu mudar.E para muito, muito melhor!

Assim, a assertividade tem vindo a ser defendida como a principal estratégia a desenvolver‑se nos mecanismos relacionais, qualquer que seja a tipologia da relação. E se formos capazes de sermos mais assertivos, então, com cer­teza, vamos estar mais atentos às necessidades e vontades dos outros e logo, vamos deixar de ser negligentes para com os mesmos. Se isso acontecer, o caminho para resgatar o verbo amar torna‑se muito mais curto e a possibilidade de fortalecermos os nossos relacionamentos torna‑se muito mais real.

Devemos estar preparados para numa primeira fase de mudança de estilo relacional, principalmente no âmbito dos relacionamentos amorosos e familiares, poder surgir alguma tensão entre os elementos envolvidos.

Isso ocorre porque a assertividade, como foi sendo pos­tulado anteriormente, pressupõe uma enorme capacidade de encaixar as vivências, as opiniões e os comportamentos dos outros, sem que isso cause obrigatoriamente um momento de grande discussão, ou, em última hipótese, o fim de uma relação (por exemplo, com os filhos e com os pais não se pode ter esta lógica de, se não me entendo então não me relaciono).

Uma das principais ideias que deveríamos abandonar é o facto de muitas pessoas considerarem que quando o marido, a esposa, o filho (etc.) apresentam uma ideia, ou opinião diferente da sua, isso significa falta de respeito, ou falta de consideração para com as suas ideias.

Numa relação devemos ser capazes de comunicar a nossa discórdia, desde que o façamos com educação, mesmo que isso cause tristeza e sofrimento no outro! Há assuntos que têm que ser abordados! Há “coisas” que têm que ser ditas, há acções que devem ser tomadas, e se tal não for feito com medo que isso possa colocar um término à relação ou prejudicá‑la de tal forma que o melhor é não fazer nada, então estamos a condenar a nós, e a quem connosco vive, a um sofrimento ainda maior: o saber que se vive numa espécie de paz podre onde a aparente harmonia apenas se consegue à custa da subjugação das vontades de uns em detrimento da liberdade dos outros.

Se a relação entre um pai e um filho for forte o sufi­ciente, então não há mal algum que o filho diga ao pai que está triste com ele. Como costumo referir, as pessoas não devem ser tratadas como se fossem de vidro, como se qualquer coisa as partisse. Se um filho disser então ao pai o que pensa, está a ser sincero na relação, e ao mesmo tempo está a dar oportunidade ao seu pai para que pense no “porquê” de o filho estar triste consigo. Assim, terá uma oportunidade para poder emendar ou alterar os seus comportamentos, se de facto considerar que o deve. Mas mesmo que não concordem, pelo menos conversaram e foram honestos um com o outro. Permitiu‑se a cristalização da percepção que entre os dois a relação é suficientemente franca para se poder dizer tudo que se pensa e sente, desde que seja de forma assertiva. E não considera o leitor que essa seja uma das formas mais bonitas de amar?

Procuro incentivar a minha filha para me dizer sempre aquilo que vai na sua cabeça, se por acaso ficar triste ou decepcionada com algum comportamento meu (seja por falta de atenção, seja porque me esqueça de algo, enfim). É difícil para ela, pois com 11 anos de idade não será fácil discernir o que pode dizer ou não sem que eu fique triste. Então peço‑lhe que tenhamos uma regra entre nós dois: em vez de pensarmos se me vai magoar, a regra deve ser dizer tudo o que quer, desde que o faça com educação e assertivamente. Ela demorou um pouquinho a fazê‑lo, e por vezes ainda é‑lhe difícil por certo, mas a maioria das vezes, mesmo quando me diz as coisas muito angustiada, a chorar, pensando que vou ficar muito triste, ou zangado, ou decepcionado, a maioria das vezes, o que acontece é que as situações são avaliadas e, quando sinto que ela tem razão, a primeira coisa que faço é pedir‑lhe esculpa e dizer‑lhe que tem toda a razão. Ainda por cima elogio‑a imenso pois considero que assim é que deve agir, ou deverei estar à espera que faça 18 anos, 21 anos, digam uma idade, para começar a ser honesta e franca na expressão das suas emoções e pensamentos? Obviamente que no reverso da medalha a minha filha sabe que eu falarei sempre com ela de forma o mais franca que se possa imaginar, e não vou poupá‑la apenas porque é uma criança. Tem já 11 anos, e como o povo diz e muito bem, se já tem idade para cometer certos erros, então também já tem idade para, pelo menos, falarmos acerca deles e tentarmos encontrar um entendi­mento de como ultrapassar as situações. Não sou ingénuo, até porque estaria a ser negligente, se soubesse que a minha filha tivesse tido um comportamento desadequado, ou se houvesse um assunto que tivesse que ser tratado e eu entrasse numa atitude de procrastinação, de adiar, apenas para não termos problemas, ou convenhamos, porque por vezes não nos apetece estar naquele momento a lidar com coisas sérias. Um dos grandes problemas aqui, é que, principalmente quando lidamos com crianças, os assuntos devem ser tratados de forma imediata e contingente. Não faz sentido aquela atitude de dizer, “olha, aconteceu isto agora, mas quando chegar a mãe a casa, vou‑lhe contar e depois vais entender‑te com ela”. Não pode ser, não deve ser!

As dificuldades e desentendimentos devem ser tratados de forma sincera e imediata, para evitar o acumular de insatisfações que depois só levam a que cada um fique com uma espécie de colecção de mágoas acumuladas, à espera de uma situação (uma discussão, por exemplo), para poderem ser todas “jogadas à cara” do outro de uma só vez! Se esta estratégia do imediato for utilizada, evita‑se a tradicional situação de assistir casais, filhos e pais, discutirem por coisas que nada têm a ver com o que iniciou uma determinada conversa, que depois acaba por se transformar em discussão.

Utilize então frases firmes e calmas como, “Começámos esta conversa devido a este ponto em particular; se queres discutir indo buscar outras coisas do passado ou do presente, não contes comigo, neste momento!” ou, “Terei todo o interesse em conversar contigo sobre o assunto que estás a trazer para cima da mesa, mas o que é que isso tem a ver com o assunto que temos que resolver agora? Com todo o respeito te digo que não podes contar comigo para alimentar uma discussão que não está sequer no nosso campo de prioridade imediata”. Se de facto existirem muitos aspectos que devam ser abordados, tente combinar uma estratégia em que se comprometam a falar de apenas um a dois tópicos numa mesma conversa. Tudo o que for a mais já só é ruído para a relação, e alimento para a discussão!

Deixe bem claro à outra pessoa que a ama, mas jus­tamente por isso não pode permitir que seja tratado (de parte a parte) como se não estivesse a entender o que se está a passar. Por exemplo, se aconteceu alguma coisa que fez com que ficasse bastante triste, não deixe passar em branco como se tal não tivesse acontecido. Não é preciso discutir, não é preciso perder horas. Basta fazer uma simples pergunta: “podes ajudar-me a entender se percebi bem o que se passou?” Se os dois forem assertivos, facil­mente a situação fica esclarecida, seja por concordarem ou não. Por exemplo a pessoa pode fazer aquilo que mais tenho visto no seio das relações da maioria das pessoas que acompanho, quando chegam a mim, que é o “passar por cima do assunto” ou “enfiar a cabeça na areia”. Então dizem‑se coisas como, já passou, não vale a pena falar disso agora; ou não aconteceu nada, foi impressão tua; enfim, um conjunto de estratégias que têm tanto de passivo (porque não se faz nada para respeitar a opinião da outra pessoa em esclarecer o assunto) como de manipulativo e agressivo (porque a pessoa é que determina quando ou não se deve esclarecer os assuntos). Não me parece que isso seja asser­tivo e respeitador. Mas se houver mesmo carinho e amor assertivo, então bastariam alguns minutos para explicar o que acontece, dizer se concorda, se não concorda, enfim, comunicarem, e no fim, compreenderem que pelo menos não se está a ser diplomata como exemplifiquei atrás. Na minha opinião, quem ame de verdade, de forma assertiva, não quer ter uma relação amorosa diplomática, antes sim quer poder contar com as certezas possíveis que a since­ridade e a confiança, o cuidado e a propensão para com o outro asseguram numa relação.

Sei que algumas pessoas apresentam muita dificuldade com as palavras, principalmente as que representam emoções. Já reparou que por vezes basta uma atitude carinhosa, em que a outra pessoa perceba que o erro foi assumido por si, que é o suficiente para se ultrapassar um momento de tensão (que já iria estragar o resto do dia, ou semana, ou mês, ou…). Por vezes, depois de um momento mais tenso em que se tenha conversado e esclarecido o que estivesse a ser prejudicial, basta ser imaginativo e até atrevido (se não puder ser com a sua companheira, então com quem poderá?). Gosto muito de uma frase que normalmente acaba com quase todos os momentos de tensão que é “Como é, vamos para a cama, ou tenho que te pedir desculpas outra vez!”. Também se podem dizer coisas mais sérias, mas lindas como: “Meu anjo, não coloques uma vírgula onde Deus já colocou o sinal de infinito para nós: a nossa felicidade eterna!”.

Pode parecer que as frases saem feitas e parecem cliché, mas se o casal se conhecer bem e souber que as palavras são sentidas, então verá que fazem maravilhas! Com o tempo, a relação fica cada vez mais natural e as palavras, sejam de frases feitas ou não, são expressas e recebidas como honestas e causadoras de grande segurança entre o casal, ou outros familiares.

Não deixe então de dizer às pessoas o que sente por elas: se as ama, diga “Amo‑te!”, “Gosto de ti!”, “Tenho saudades”. Não tenha medo de não ser correspondida na mesma medida pois algumas pessoas não têm mesmo o à vontade para utilizar as palavras de forma fácil. Mas se a relação estiver segura, a outra pessoa sentir‑se‑á muito bem, e poderá demonstrar que também a ama, por gestos e não por palavras. Enfim, há que chegar a um equilíbrio. Agora, se ambos estão muito à vontade com as palavras, usem‑nas à vontade, gastem as palavras, e brinquem com elas. Por exemplo, podem sempre dizer qualquer coisa como “Amor, sabes que te amo, não sabes”, “Sei sim, eu também te ao muito!”, “Ok, então quem é que vai lavar a loiça hoje!” Estão a ver? Tudo fica bem mais fácil!

Uma regra de oiro que nunca deixo de cumprir é todos os dias quando acompanho a Daniela até ao seu quarto para se deitar, deixo que ela se deite (pois já é grandinha o suficiente para isso), aconchego‑lhe as mantas e os lençóis e digo sempre “Dorme bem meu anjo, amo‑te muito!”, ou, “Gosto muito de ti, dorme com os anjos, sim?” Às vezes ela responde na mesma medida, na maioria das vezes não, pois já está crescidinha e não gosta muito de verbalizar emoções, mas na maioria das vezes posso assegurar‑vos que noto nela um sorriso descansado e sereno por sentir, quero crer, que está segura, junto aos que mais a amam.

Mesmo quando é para a repreender ou discordar dela muitas vezes digo: “Filhota, tu sabes que amo‑te mais que qualquer outra coisa ou pessoa no mundo, mas não vais estragar agora o momento da refeição com uma birra por não quereres comer. Não queiras ser tu a responsável por criares mau‑ambiente”! A maioria das vezes resulta de forma muito eficaz, porque ela se sente a responsável, e não o pai.

Se todos entendermos a linguagem do amor, então deixamos de nos defender tanto, como se estivéssemos a ser atacados justamente por aqueles que mais nos amam. Passamos a estar mais seguros e confiantes, e por isso bai­xamos os nossos muros e defesas intransponíveis, fruto de percebermos que dali, daquela relação o que podemos ter a certeza que todos os dias vamos ter é respeito, cuidado, carinho e amor.

Não esqueça então que, uma das condições naturais para ser‑se assertivo é não ser negligente. Ou seja, passa‑se a ganhar a dobrar, pois ao ser assertivo está‑se a demonstrar preocupação consigo e para com os seus mais queridos. Está a demonstrar que todos fazem parte daquela equação de relacionamento e que daí, se todos estiverem propensos a isso, o verbo amar ganhará uma força incontestável, numa relação onde tudo pode ser feito, todos os erros podem ser cometidos, todas as brincadeiras podem ser toleradas, os esquecimentos são esquecidos, os abraços e beijos são oferecidos e não pedidos, as palavras serão ditas, o respeito pelo outro estará sempre presente e a felicidade estará muito mais assegurada.

 

Luis Maia

Luis Alberto Coelho Rebelo Maia é Licenciado em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade do Minho, Mestre em Neurociências pela Faculdade de Medicina de Lisboa, Doutorado em Neuropsicologia pela Universidade de Salamanca, Especialista em Neuropsicologia e Psicobiologia pela Universidade de Salamanca e Pós-Doutorado em Ciências Médico-Legais pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar.
É docente universitário na Universidade da Beira Interior, no Departamento de Psicologia e Educação, onde lecciona nas áreas das neurociências, metodologias de avaliação e intervenção psicológica e psicologia do desporto.
É também terapeuta com consultório próprio na Cidade da Covilhã, onde exerce a sua função de neuropsicólogo e psicólogo clínico, abrangendo diversas áreas da avaliação e intervenção psicológica. Está registado na Ordem dos Psicólogos Portugueses, com Título de Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Especialista em Neuropsicologia.
Autor de mais de duas dezenas de livros, conta com alguns best sellers, nomeadamente as obras “Educar Sem Bater”, “E tudo Começa no Berço”, “A psicologia do verbo amar e o erradicar da negligência”, “Violência Doméstica e Crimes Sexuais”, e ainda “Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica”.
É ainda autor de centenas de artigos científicos publicados nacional e internacionalmente, tendo sido galardoado com cerca de uma dezena de prémios de mérito nacionais e internacionais pelos seus trabalhos e desempenho no campo da psicologia.

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