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Hipnose: de Mesmer a Carreiro

2017
daniellascani@hotmail.com
Jornalista. Publicitário. Pós-graduado em Psicologia Analítica (PUC/Rio). Leader Coach, Life Coach e Business Coach do IBC - Instituto Brasileiro de Coaching. Coautor do Livro “O Impacto do Coaching no Dia a Dia”. Apresentador dos canais BusTV e TV Max. Colunista e Consultor da Catho. Treinador e diretor da Universidade de vendas da I.nova - Consultoria Imobiliária. Autor e palestrante do projeto social Comunidade Profissional. Diretor do Instituto Lascani.

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Hipnose: de Mesmer a Carreiro

A hipnose nasceu com o médico e músico alemão Franz Anton Mesmer (1734 -1815), na Europa, através de um método que, inicialmente, se chamou de Magnetismo Animal. Mesmer acreditava em um fluído energético universal, capaz de engendrar, através do mesmo, um magnetismo entre seres humanos. Sua prática curou diferentes patologias em diversos pacientes. Entretanto, naquele tempo, ainda não se tinha o conhecimento prévio sobre o fenômeno da suscetibilidade, fator que gerava a cura, com mais facilidade, em determinados pacientes, ao passo que em outros, não. Mesmo tendo sucesso com muitos adeptos de seu tratamento, a sociedade médica da época o desprezou, por falta de comprovações científicas sobre suas metodologias. Suas induções foram mais reconhecidas alguns anos depois, e deram origem ao termo “Mesmerismo”.

Em pouco tempo, após o trabalho de Mesmer, o médico escocês, James Braid (1795 - 1860), nomeou o Magnetismo Animal como Hipnose. Embora o nome esteja relacionado ao termo grego hipnos (sono), somente mais à frente a ciência comprovou que qualquer pessoa hipnotizada não permanece adormecida, mas sim vivencia um estado alterado de consciência que, atualmente, é chamado de transe hipnótico.

Assim como Braid apresentou seus trabalhos, influenciado por Mesmer, outro médico escocês ratificou o Mesmerismo como prática eficaz. James Esdaile (1808 -1868) obteve um nível profundo de transe hipnótico em seus pacientes.  Ao longo de sua carreira, realizou milhares de cirurgias sem a utilização de anestésicos químicos.  Seu trabalho originou o termo hipnoanalgesia. Mas, alguns anos depois, com a descoberta de potentes anestesias, sua prática deixou de ser utilizada na Europa. Curiosamente, ainda que o modelo de anestesia química esteja prevalecendo até os tempos atuais, muitas mortes já ocorreram em milhares de pacientes. Em contrapartida, a hipnoanalgesia não registrou nenhum óbito enquanto utilizada por Esdaile.

Entretanto, alguns países, como a França, vêm remanescendo tal procedimento. No hospital francês Saint-Joseph, por exemplo, muitas cirurgias são realizadas com recurso ao uso da Hipnose. Médicos locais referiram nos jornais inúmeros benefícios, tais como diminuição dos riscos de infecção, melhor cicatrização, pessoas internadas por menos tempo e, ainda, a economia, tanto para os pacientes quanto para os hospitais e o governo.

Historicamente, após Mesmer, Braid e Esdaile, outros grandes nomes também contribuíram para evolução do estudo e da prática da Hipnose. Dentre esses destacam-se Ivan Pavlov (1849-1936), fisiologista russo, autor do estudo do reflexo condicionado, bem como do comportamento (Behaviorismo); Jean Charcot (1825-1893), médico francês, precursor da hipnose em pacientes histéricos e idealizador do chamado “Toque de Charcot”; logo depois, Sigmund Freud (1856-1939), neurologista austríaco, considerado o Pai da Psicanálise, aluno de Charcot, deu continuidade aos trabalhos de seu mentor. Contudo, tal como os praticantes anteriores, não tinha o conhecimento neurocientífico sobre a questão da suscetibilidade, a qual seria esclarecida somente em anos posteriores; e, mais à frente, Milton Erickson (1901-1980), psiquiatra norte-americano, fundador da Sociedade Americana de Hipnose Clínica, o qual desenvolveu um novo modelo de hipnose, com transes mais leves e induções verbais, através de sugestões/metáforas, que conduziam a mente do paciente para outro lugar, fora de onde o corpo se encontra. Este formato se consagrou como Hipnose Ericksoniana. Sua metodologia de trabalho aliviou as dores de muitos soldados mutilados no pós-guerra, dentre outros pacientes.

Por fim, atualmente, dentro de um grupo seleto de outros grandes profissionais desta área, encontra-se Antônio Carreiro, brasileiro, natural da Bahia, doutor em ciências. Hoje, é um dos maiores nomes em hipnose no mundo, já tendo realizado palestras, cursos e seminários nos quatro continentes do planeta. Em suas sessões coletivas, reúne diversos estudos dentro do contexto da hipnose (Hipnose Integrativa). Ao contrário de Milton Erickson, Carreiro trabalha com induções não-verbais, sendo, por exemplo, um dos poucos especialistas, que consegue aplicar, com excelência, o Toque de Charcot, produzindo um transe profundo, incluindo estados de hipnoanalgesia. É autor de diversos livros e vídeos sobre o tema. Alguns de seus maiores contributos têm sido: a) a desmistificação da hipnose, envolvendo o esclarecimento de seu mal-uso no Brasil, utilizada de forma teatral, com atribuições sobrenaturais; b) o aprendizado sobre a eficácia da auto hipnose; c) as reações do corpo e da mente (sintomatologia) durante um transe hipnótico; d) o papel medicinal que tal prática nos proporciona, como, por exemplo, sua função essencial de cura para patologias psicossomáticas; e) a diferença entre metáfora, matriz, arquétipos e representações arquetípicas dentro do contexto de indução hipnótica; f) a catarse e a individuação que o transe nos promove. Seu trabalho, no campo do hipnotismo, já se consagrou como Hipnose Carreiriana. Vejamos uma de suas citações:

"Várias narrativas de curas de problemas psicossomáticos publicadas e difundidas pelo mundo não deixam dúvidas de que a hipnose, principalmente quando utilizada pelo próprio doente, na forma de auto hipnose, pode servir como eficiente recurso a serviço da saúde. Seu uso é antigo e foi-se ajustando às práticas culturais ao longo dos séculos"                                      

(Carreiro, Antônio, Hipnose & Saúde psicossomática, JM, 2014).

Sobretudo, a hipnose é um fenômeno natural, que transcende o intelecto e as explicações racionais e cartesianas. De Mesmer a Carreiro, muito se descobriu e se desenvolveu em termos de conhecimento sobre tal prática. Mas, certamente, de Carreiro até aos próximos praticantes, muito ainda se descobrirá e se desenvolverá neste campo. De um modo geral, o desenvolvimento da prática da hipnose está intrinsicamente relacionado com a evolução do auto-conhecimento e da auto-cura humana.