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Livre-arbítrio versus determinismo no filme Cidade de Deus

2016
valeriaglucena@hotmail.com


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Livre-arbítrio versus determinismo no filme Cidade de Deus

Titulo: Cidade de Deus 

Realizador: Fernando MeirellesKátia Lund

Ano: 2002

País: Brasil

Género: Drama 

 

A Busca por conhecer o homem em sua totalidade e a origem do seu comportamento faz com que vários teóricos argumentem sobre inúmeros temas com o desejo de justificar ou até prever o comportamento. Na tentativa de criar uma ciência do comportamento, o indivíduo passa a questionar se a realidade comportamental humana parte da capacidade da escolha que é o livre-arbítrio ou da determinação unicamente feita pela hereditariedade e pelo ambiente, intitulando-o de Determinismo (BAUM, 2006).

Entende-se por Determinismo o estudo científico do comportamento, onde o objeto de análise é ordenado, podendo ser explicado, previsto e até mesmo controlado se houver os dados e os meios necessários (BAUM, 2006). O Livre-arbítrio percebe o comportamento não só a relação entre hereditariedade e ambiente, mas como algo a mais que possibilita no indivíduo a capacidade de escolher (BAUM, 2006).

Com essas definições se faz possível analisar de forma crítica o filme "Cidade de Deus". Este filme conta a história de um conjunto habitacional de mesmo nome, baseado no livro escrito por Paulo Lins que faz a narração a partir do olhar de um jovem morador. A comunidade presente no filme cresce desordenadamente em meio à violência e ao tráfico de drogas. É nesse contexto que a identidade de cada indivíduo vai se construindo e a forma como cada um traça os seus caminhos e escolhas causa um impacto nas duas teorias citadas acima.

Para que o trabalho se torne claro e compreensivo, dois personagens são trazidos do filme, Dadinho (Zé Pequeno) e Buscapé. Ambos cresceram em um mesmo ambiente, vendo o Trio Ternura praticar furtos e distribuir bens roubados em troca de proteção pela comunidade. Os três ladrões eram Cabeleira, Alicate e Marreco (irmão de Buscapé). Mas o que torna Buscapé diferente de Dadinho é a forma como cada um compreende aquela realidade vivenciada. É perceptível no filme a insatisfação de Buscapé ao ver seu irmão realizando atos ilícitos. Mas a percepção de Dadinho (Zé Pequeno) é diferente; ele percebe no trio um papel de super-herói da comunidade, pois distribuem gás para todos, recebendo em troca o respeito das pessoas e conferindo o acesso fácil ao dinheiro. Todos estes fatores provocam uma idealização de sujeito e desenvolvem em Dadinho o potencial de ser igual ao trio. A potencialidade em Dadinho torna-se real quando lança a proposta aos três de fazerem um assalto ao motel.

Diante da realidade traçada e vivenciada por Dadinho poder-se-ia argumentar e compreender sob uma óptica determinista, percebendo assim a responsabilidade do ambiente em sua inclinação a delinquência. Por viver em uma comunidade pobre, testemunhar a miséria e negligência dos direitos básicos, o fato de ver a prática de crimes e violência, todos esses fatores podem ser compreendidos como determinantes para que a sua história se torne igual à do trio ternura. Hobbes (apud BRITO, 1993. 38 p.) defende a ideia de liberdade conciliada com a necessidade, mas que não é a liberdade defendida pelo livre-arbítrio e sim a possibilidade do homem fazer o que desejar sem que haja um impedimento. Faz-se perceptível a compatibilidade dessa tal liberdade com o determinismo (BRITO, 1993). Hobbes (apud BRITO, 1993. 38 p.) afirma ainda que “as ações, que os homens efectuam voluntariamente, no entanto derivam de causas e, essas, de outras causas cujas causas numa cadeia contínua... procedem da necessidade”. Entender-se-ia diante deste contexto que as práticas realizadas por Dadinho seriam a busca por sanar suas necessidades, mesmo que essa busca transgredisse a lei e os valores da sociedade.

A construção da identidade de Buscapé poderia ser percebida sob uma perspectiva do livre-arbítrio, pois cresceu no mesmo ambiente e sob as mesmas influências às quais Dadinho foi exposto. Contudo, havia algo além desses estímulos que provocou a construção de uma história diferente. Esse algo a mais que permeia o jovem poderia ser caracterizado como o fenômeno intitulado de invulnerabilidade que foi estudado entre as décadas de 1970 e 1980, termo este que foi posteriormente substituído por resiliência, o qual consiste na capacidade que o indivíduo tem de permanecer saudável mesmo sendo exposto a severas e duras adversidades (BRANDÃO; MAHFOUD; NASCIMENTO, 2011). Dennett (apud MONTEIRO, 2014) afirma que a liberdade pode ser definida de inúmeras formas e em diferentes contextos, mas ressalta que a liberdade só existe se houver escolhas para diferentes ações. Compreende-se que Buscapé teve a liberdade de escolher como fazer a trajetória da sua vida de forma diferente do contexto que ele estava inserido.

Conclui-se que em um mesmo contexto, mas com sujeitos diferentes, se fez possível a caracterização das duas teorias, comprovando que não há uma verdade absoluta, mas que as perspectivas e traços esperados podem ser apresentados tanto validando uma corrente quanto a outra. Compreende-se ainda que não haja a necessidade de separá-las mas sim associa-las para um melhor entendimento da influência do ambiente, da hereditariedade e da subjetividade do sujeito. Diante da necessidade de conciliar o determinismo e o livre-arbítrio surge, portanto, a teoria do Compatibilismo: a relação de agentes físicos, químicos, biológicos, psicológicos e ambientais sobre o comportamento, onde, mesmo perante estas influências, o indivíduo é capaz de fazer escolhas e ter controle sobre alguns comportamentos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona, 354-430. O Livre-arbítrio. Tradução, organização, introdução e notas Nair de Assis Oliveira. 2ª Edição. São Paulo. Paulus. 1995. Disponível em: <https://sumateologica.files.wordpress.com/2009/07/santo_agostinho_-_o_livre-arbitrio.pdf> Acesso em: 17 de abril de 2016.

BAUM, William M. Behaviorismo: Definição e História. In:_______. Compreender o Behaviorismo Comportamento, Cultura e Evolução. 2ª Edição. São Paulo. Editora Artemed. 2006. 17-31 p. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=8EV1F9tCw1AC&pg=PA25&lpg=PA25&dq=o+livre-arb%C3%ADtrio+e+a+teoria+do+comportamento&source=bl&ots=Q33J747Ky_&sig=bddaXP9Mqa0I6Qy1cx3HJ9rzvzE&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjP25LrrJjMAhVJhJAKHcJZBTEQ6AEIQzAG#v=onepage&q=o%20livre-arb%C3%ADtrio%20e%20a%20teoria%20do%20comportamento&f=false>. Acesso em: 17 de abril de 2016.

BRANDÃO, Juliana Mendanha; MAHFOUD, Miguel; NASCIMENTO, Ingrid Faria Gianordoli. A construção do conceito de resiliência em psicologia: discutindo as origens. Belo Horizonte. 2011. Vol. 21, No. 49, 263-271 p. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/paideia/v21n49/14.pdf> Acesso em: 17 de abril de 2016.

BRITO, António José. Da Compatibilidade do Determinismo com o Livre-arbítrio. Revista da Faculdade de Letras: Filosofia. Série II. Vol. 10. 1993. 37-56 p. Disponível em: < http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/1796.pdf> Acesso em: 17 de abril de 2016.

MONTEIRO, Bárbara Viviana Moreira. Livre-arbítrio e determinismo na ação humana. Portugal. 2014. Disponível em: <https://sigarra.up.pt/flup/pt//pub_geral.show_file?pi_gdoc_id=486615> Acesso em: 17 de abril de 2016.