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Mundo caduco

2017
pedrosampaiominassa@gmail.com
Graduando em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo (Brasil). Frequentou um semestre da Licenciatura em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (Portugal)

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Mundo caduco

Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua. Longe um menino chora, talvez em outra cidade, talvez em outro mundo. E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando.” Lágrimas que escorrem e se juntam ao mar do desespero dos que buscam refúgio da guerra e que mal sabem que a guerra está por toda a parte. Não há refúgio. Não tem saída. Cada sangue de inocente que infiltra a terra cai no coração do Cosmos, cada criança que morre, é o indicativo do futuro podre que nos espera, fétido mundo. Carcomida história, humanidade que precisa se deteriorar pra criar um húmus humano.

Era ele ali, como vários, deitados no colo de suas mães, se ao menos ainda a pudesse ter, descansando na terra, descansando da Terra. Entregou-se no mais profundo sono àquela única que pode dar refúgio, aquela única que sabe que amor é âmago do mundo, aquela única que dá refúgio porque é amparo. Voltam à terra os pequenos santuários de histórias mortas, dilaceradas, pedem socorro e abandonam-se nos braços da Mãe Gaia, a única. Sou um assassino da humanidade, porque já não basta me compadecer, é preciso padecer com. Choro com os que choram, mas minhas lágrimas não são oásis no deserto do coração dos que ficam.

Matamos dia após dia a humanidade, matamos a juventude com o egoísmo, destroçamos a esperança com a ganância, torturamos nossas crianças com fé cega e faca amolada de um falso sistema. Matamos, mas obrigado Gaia, porque também morremos. Talvez não soframos a perda de uma parte de Vida, sim, porque perder uma criança é perder uma vida, é perder história, é estrangular o futuro. Já não quero desenvolvimento, Gaia. Já não quero nada. Já não te peço mais paz, porque não sou cá, paz, não sou capaz de ser parte integrante de sua Mente perfeitamente equilibrada. Não te peço desculpas, Gaia, porque se desculpar é tirar a culpa, peço-te “com-culpas”. Muitos dizem que um dia a humanidade irá ser extinta, porém, poucos perceberam que já estamos engajados nessa causa. Seremos lembrados como a espécie que fez desgraça e que achou graça, que da caça fez farsa, nos matamos a cada dia. Queria eu dizer que voltamos ao estado de natureza, mas seria mais uma falácia, pois nem sequer chegamos a esse estado. Não matamos pra comer, não matamos pra viver, nós matamos por poder. Matamos os seus filhos, Gaia, pelo vazio peremptório nada. E o mar trouxe das ondas para o berço do seu seio, o sacrifício em forma de holocausto daqueles que alvejamos todos os dias. Condene a todos, Gaia. Dê as bem-aventuranças àqueles que neste mundo só desfrutaram de dor e lágrimas, encha-os de alegria e diversão, como uma verdadeira Mãe, que balança vigilante o seu filho entregue, nos sonhos, às maravilhas que não desfrutaram nunca.

Não precisa de mais anúncios, Mãe. Não vamos entender nunca seus recados, nem terremotos, nem tsunamis. Não precisamos de avisos em catástrofes, já criamos os nossos próprios desastres todos os dias, destruímos a nós mesmos, queremos morrer, queremos a extinção. Acolha os expurgados e párias deste mundo, já que esse mundo não é capaz de acolher os pobres que ele mesmo criou. Dê conforto aos que ficam sem saber para onde ir, desnorteados, deslocados, arrancados das raízes e triturados no moinho aniquilante da “pseudovida”. Não há desculpas, não há perdão, só resta desespero no vale de lágrimas. Chegou a hora de anunciar o fim do começo, o fim do recomeço, e gritar para que alguém escute, ao menos pela última vez, o anúncio do começo do fim. Enquanto isso, depois do genocídio de histórias que cometemos na História que, sem aprender reescrevemos, à tinta de sangue inocente, eu “Penso nas crianças mudas, telepáticas, nas meninas cegas inexatas, nas mulheres, rotas alteradas. Perdão, Gaia, nos esquecemos da rosa de Hiroshima, a rosa hereditária, com cirrose, sem perfume, sem rosa, sem nada.”  Por certo, no meio de tantos incertos, o último brado veio da boca daquele que na cruz mataram: “Ó Pai, por que me abandonaste?

Sem mais, mato também a prosa com a profecia de Drummond que, desencantado com o Sentimento do mundo, acordou: “Não serei o poeta de um mundo caduco.”