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Objeto Totalizante e o consumo do produto mediático

2016
ruitinoco28@gmail.com
Psicólogo clínico

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Objeto Totalizante e o consumo do produto mediático

No espaço mediático, o acontecimento e a sua interpretação completam, não raras vezes, um círculo em que o telespetador fica excluído. Em poucas palavras: o acontecimento representado (porque televisionado) é capturado pelos comentários que o expurgam da sua subjetividade e polissemia – isto aconteceu desta e daquela maneira.

Emergem atualmente peritos de impacto na opinião pública. Não se trata tanto da discussão de ideias e de projetos mas de analisar o modo como eles foram defendidos em termos de espetáculo. Quem vendeu melhor ou pior a sua imagem? Quem fez o mesmo a partir das suas perspetivas e interesses? Deste modo, o conceito e a lógica perdem a sua centralidade porque lidas em função do que o sujeito televisionado faz com elas, em termos de marketing visual e de estratégia política – ou outra, conforme os casos em análise.

Estaremos perante uma outra dimensão do que Richard Sennett denomina a corrosão do carácter? De facto, ao encararmos o opinion maker não como expressão de uma visão e de uma posição sobre o mundo – no fundo como personalidade – mas como ator que está menos bem nesta passagem para mais à frente compensar, estamos a despojá-lo da sua coerência, do seu estatuto de sujeito. Torna-se, pelo contrário, na peça de um jogo muito particular: aquele que liga determinado acontecimento televisionado ao campo da sua interpretação.

… mas queria começar o texto com poesia chinesa e parece que já vou um pouco tarde… De qualquer modo, acho útil perceber que a ideia de que ancorar uma representação à sua interpretação, como se se tratasse de um produto acabado se tratasse, não é nova. Já no século VIII, Bai Juyi publicou comentários sobre os textos poéticos que ia produzindo. Assim, a experiência de leitura do poema era enriquecida e, por que não dizê-lo?, condicionada pela circunstância da escrita e os pensamentos do escritor.

Também Matsuo Bashô, japonês, escreveu relatos de viagem em que os textos poéticos se iam entrelaçando com os gestos e os percursos do caminhante. Bashô observa a natureza e reflete sobre episódios marcantes da sua peregrinação: é a propósito deles que escreve o poema que nos dá a ler.

O objeto artístico é, assim, associado à circunstância da sua criação. Quase que podemos aceder ao modo como o texto foi produzido. A subjetividade inerente ao ato artístico torna-se também ela motivo de escrita. Vemos o poema e o seu escritor no ato da criação.

Porém, a natureza destes objetos totalizantes é estética. Fecunda, de algum modo, a ambiguidade e polissemia que a arte, mormente a escrita poética acarreta consigo. O leitor é canalizado para uma determinada circunstância e lugar. A operação é no entanto enriquecedora porque potencia a complexidade do representado.

Pelo contrário, o objeto totalizante no que diz respeito aos media, procede inversamente a estes artifícios literários. Despoja o telespetador da sua própria obrigação de autoria, obliterando em última análise, a sua subjetividade, colonizado que fica pela subjetividade do opinion maker.

O que é afinal o objeto totalizante? Pode-se definir, para o campo mediático, como toda a sequência que, no interior da representação imagética e verbal, produz um determinado acontecimento comentado.

Não nos limitamos à matéria factual, isto é o representado – ou  áudio-visualizado – mas no que quer dizer essa representação. A construção do que quer dizer obedece a um cerimonial preciso. Os consensos dos opinion makers, as suas discordâncias – sobre todos eles cada telespetador é convidado a escolher esta ou aquela interpretação. Esta liberdade confinada, em ambos os casos, dispensa o telespetador do papel ativo na construção de sentidos.

O objeto totalizante tem em si o acontecido e o modo como esse acontecido pode ser visto, interpretado. O objeto totalizante une acontecido e o que esse acontecido quer dizer. Ao fazê-lo, elimina espaço ao pensamento de quem assiste.

Assim, é objeto porque nos é oferecido aos nossos olhos e é totalizante porque carrega consigo a sua própria cosmogonia: é seta disparada e o próprio alvo, simultaneamente.

Munidos desta ideia poderemos voltar a assistir à produção televisiva, a título ilustrativo, mapeando acontecimento mediatizado e o cerimonial (litúrgico também?) da sua interpretação. Ou como avavnça Stiegler muitas vezes os debates sobre temas políticos não passam de reality shows – por não serem verdadeiros espaços públicos, por não tratarem a audiência como um conjunto de cidadãos com direitos e deveres, com uma palavra a dizer sobre o que poderá acontecer ou ser decidido.

O acontecimento e a definição do acontecido encerram-se em objetos totalizantes que remetem a audiência à passividade do pensamento de outrem: o pensamento de outrem como «o mundo».