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Sobre uma certa droga que circula

2017
simaopedromata@gmail.com
Licenciado e Mestre em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). Membro efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). Psicólogo na Norte Vida - Associação para a Promoção da Saúde e Investigador externo do Centro de Ciências do Comportamento Desviante (CCCD) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Os seus interesses de investigação são o fenómeno droga, a exclusão social, a marginalidade urbana e a intervenção psicológica nos comportamentos adictivos. É ainda membro do Serviço de Consulta Psicológica nos Comportamentos Adictivos (SCPCA) da FPCEUP e estudante de Doutoramento do Programa Doutoral em Psicologia na mesma Instituição.

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Sobre uma certa droga que circula

Toda a gente tem uma opinião sobre Drogas, as suas origens, efeitos ou consequências, desde o cidadão comum que nunca as consumiu até aqueles que vivem diariamente em função delas. Alguns apresentam opiniões sobre o assunto porque conhece ou conheceu alguém que as consome ou consumiu, porque viu um programa na TV sobre o assunto, porque uma personagem da telenovela que acompanha anda “metida nisso”. A droga circula, portanto, na cabeça e nas vozes de muita gente mesmo em quem mantem fisicamente com elas um contacto quotidiano mínimo ou até mesmo inexistente. A droga, enquanto objeto, vai ganhando, por isso, um determinado corpo discursivo, com leis próprias e interditos que lhe garante a sua viabilidade como Discurso. Mas, por vezes, aqueles que têm tudo a ver com elas, particularmente os técnicos de intervenção nas toxicodependências, apresentam discursos e práticas que nada têm que ver com elas. É como se procurássemos intervir em algo que preferíssemos conhecer pela rama, de um modo impessoal e distante, “assim levemente como quem chama por mim”.

Ainda poucos anos de intervenção nas toxicodependências conduzem-me a uma constatação: com as devidas e honrosas exceções, a droga falada pelos especialistas que circula pelos Gabinetes de Consulta é, sobretudo, uma droga afastada. É como se quanto mais falássemos sobre ela mais dela nos afastássemos. De quê e de quem? Da matriz ambiental onde ela própria circula: dos bairros, das ruas, dos becos ou das esquinas de um quarteirão. Enquanto especialistas defendemo-nos delas constantemente pelo Discurso que sobre elas produzimos, tornando-as impenetráveis ao nosso entendimento clínico. Paradoxalmente, aquilo que falamos sobre elas torna-se válido apenas quando não as engloba a elas, como se procurássemos falar delas sem praticamente nunca as vermos circular ou evitássemos de as ver e observar. Esta droga falada que circula pelos Gabinetes é, sobretudo, uma droga codificada pelo discurso dos Especialistas. Luís Fernandes traduz de forma muito clara as consequências que este discurso especializado teve (e tem) para os utilizadores de drogas: “Remetidos a uma posição passiva, acabariam por assimilar aquilo que os especialistas lhes iam dizendo que eles eram, confirmando portanto as definições que o dispositivo ia tecendo a seu respeito” (Fernandes, 2011, p. 40).

Mas há, pelo contrário, uma outra droga que circula, não nos Gabinetes de Consulta mas nos bairros, nas ruas e afins. É aquela droga que circula diariamente pela vida do “agarrado”, que lhe comanda o quotidiano, que o faz “curtir uma moca” porque “dá ganza” e a droga “bate” ou que o faz rejeitar e repudiar pela quantidade do “traço” que ela tem e que lhe corta o efeito deixando-o “a bater mal”. Mas esta droga que circula nas ruas não passa para os Gabinetes de Consulta, fica ali mesmo, no local onde são consumidas, faladas e experimentadas pelos utilizadores. Há um divórcio, um afastamento profundo, entre essa Droga falada que circula nos Gabinetes de Consulta e a vivência e experiência que os utilizadores fazem dela bem como dos seus contextos. É como se o entendimento daqueles que a querem entender se distanciasse da experiência daqueles que a consomem. As interrogações são, por isso, neste ponto imperativas: no quadro de distância entre estes dois mundos, qual o espaço para um entendimento proximal e verdadeiramente compreensivo do fenómeno droga e dos utilizadores por parte dos técnicos de intervenção? Como poderá exercer-se uma relação de ajuda com consumidores de drogas se permanecemos no nosso quotidiano profissional fechados nos Gabinetes de Consulta e, sobretudo, encapsulados hermeticamente no entendimento que temos sobre o fenómeno?

Tenho afirmado e escrito que se torna imperioso a saída dos Gabinetes de forma a compreendermos, de um modo próximo e comprometido com os contextos reais de vida, os problemas dos utilizadores de drogas que atendemos atrás das secretárias. É preciso e urgente que nos aproximemos, enquanto técnicos de intervenção do fenómeno sobre o qual intervimos, desses becos, ruas, caminhos, ruelas e bairros onde essa droga circula, e que exerçamos uma atitude de escuta ativa desses contextos e atores, que a mesma seja atenta e principalmente descomprometida moralmente, para que, na altura em que regressarmos ao conforto do Gabinete, estejamos mais munidos para compreender verdadeiramente o sofrimento de alguém que nos pede ajuda.  

 

Referências bibliográficas:

Fernandes, L. (2011). Terapias punitivas e punições terapêuticas: o estranho caso do “toxicodependente”. In M. Cunha & J. Durand (Eds.), Razões de Saúde: Poder e Administração do Corpo; Vacinas, Alimentos e Medicamentos. (pp. 39 - 56). Lisboa: Fim de século.

Simão Mata

Simão Mata é licenciado e mestre em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) e membro efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). É psicólogo na Norte Vida - Associação para a Promoção da Saúde, bem como investigador externo do Centro de Ciências do Comportamento Desviante (CCCD) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Os seus interesses de investigação são o fenómeno droga, a exclusão social, a marginalidade urbana e a intervenção psicológica nos comportamentos adictivos. É ainda membro do Serviço de Consulta Psicológica nos Comportamentos Adictivos (SCPCA) da FPCEUP e estudante de Doutoramento do Programa Doutoral em Psicologia na mesma Instituição.

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