Literalidade e latência: da verdade unicista à mudança idiossincrática

2011

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Literalidade e latência: da verdade unicista à mudança idiossincrática

Para além da literalidade e da latência, estão tantas vezes as verdadeiras mensagens, onde a genuinidade e a veracidade parecem encontrar-se na relação entre o que se expressa e o seu significado para além da sua própria aparência. Isto é, não é numa, nem noutra isoladamente que podemos achar os reais significados, da comunicação intra e extra-psíquica, mas sim na sua interrelação dinâmica. O trabalho de leitura analítica da vigília deve, apesar de tudo, regular-se pelos mesmos ditames analíticos do trabalho dos conteúdos oníricos: entre o conteúdo manifesto e o conteúdo latente.

Não é propriamente novidade, que o conteúdo manifesto seja também representativo de conteúdos latentes, e, que o significado total/real, [ou pelo menos, proximal da(s) verdade(s)] da intra e/ou extra-expressão psíquica, seja tendencialmente incompleto quando compreendido apenas nessa face que se mostra (superfície) ou na outra que não se vê (profundidade). No entanto, é com alguma cautela, e até delicadeza, que a interpretação das “preciosas verdades intra e/ou externorelacionais” deve ser feita, já que se a busca pretender encontrar uma espécie de verdade única (“a verdade” e/ou “a interpretação”), então não haverá espaço para a amplificação do conhecimento interpretativo que permite (e tantas vezes possibilita) a existência da mudança (terapia), para em vez disso se assumir uma medíocre cristalização de algo, que por ser dinâmico (à própria imagem do universo mental) não se poderia considerar como digno de real, se imutável.1

1 Ainda assim, poderíamos, e talvez devêssemos, pensar um pouco em ditas entidades em forma de quadros (ou quadrados) patogénicos, onde a fixação parece presidir, quer à formação do próprio estado, quer à manutenção aparentemente repetitiva e imutável do sujeito. Ou seja, como se duma dinâmica estática se tratasse, que é o mesmo que dizer que o estado seria estático pois a única dinâmica apresentada seria a própria repetição de uma dinâmica em particular, repetida vezes sem conta, por vezes até à exaustão, aquilo que por exemplo alguns apelidaram e chamam (também) de “Repetição Relacional Patogénica” [onde o indivíduo vivência as novas situações à imagem das situações antigas (fixação referencial)].

Vejamos um exemplo de associação livre retirado de uma sessão de terapia (com autorização e confidencialidade asseguradas), onde a vigília se parece encontrar com o sonho, e o espaço de libertação (e até de libertinagem “psicótica”) se abriga na segurança da possibilidade de fantasiar o que realmente se fantasia, sabendo que é naquele espaço que se pode ir lá sem lá ficar, permitindo o regresso e a regressão (ou tantas vezes a mera visualização interpretativa) a estados onde, por exemplo, “o indivíduo ainda nem é indivíduo, e o mundo ainda não é mundo, do útero fusional à ausência de sexo”:

“(...) Não é, uma qualquer dor que me assola… Não é? São os campos que de arroz se estendem até ao teu rosto, são. Que consolo se aloja na perdiz? Qual esforço, subindo ao encosto de um banco de jardim. Agora fá-lo, ora surpreende o entusiástico reparo que não vi. Quem era aquela janela, sentinela? Dispersão. Pressionarias aquela tecla que jamais ousaria toar-te daquele som. Aberta pela supérfula via do engenho frutífero. Não mais queria tê-la comigo, aquela janela que abrigo. (pausa) Ainda agora comecei as primeiras letras e já me vejo a olhar as palavras, que fogem pela parede e se encontram nas calmas serenatas de horror. O espreguiçadouro de Miornot, era antigo, ansião-lítico, do mesmo tipo que abismo. Quem ousa compreender estas arrogantes palavras? São também os cintilantes brilhos parquíssimos de gralhas? Para quê perder o significado de cobrir o telhado de firmes orlas de cor. Contra-pé delegado para sair caro o sabor. Não digo nada, deste mais tudo que desaparece num seguro milionésimo de calor. Servidos os quadros, parecem vidros de ligação. Permanecem permitidos apenas os que queimam agreste salva. Sejam soltas. Não querem ser mortas. Mas são. (pausa) Aquém destemida sai pelo portão de balancé. Sai pela porta que é entrada do que é. Aflige. Recomenda. Atrai-se para a contro-ladainha. Para se voltar a ver que aquela, era minha.(...)”

Convém referir que apesar da contextualização de luz exemplificativa, o trecho de sessão acima transcrito apresenta-se intencionalmente desprovido do contexto original, quer da sessão onde emergiu, quer da própria terapia, o que pode levantar com enorme facilidade os reducionismos mais precários sobre o que realmente estaria a ser “dito”. Independentemente disso, a intenção é mostrar com realidade analítica aquilo que dá título a este texto, ou seja, que da literalidade do que é dito e da latência que contém, pode ser expandido o auto-reconhecimento de significado do que normalmente não é dito, nem ao próprio e muito menos ao outro. Por outras palavras, no espaço onde o Eu se permite encontrar com o outro, pode dar-se também um renovado auto-encontro, diferente de um encontro repetido (sob a alçada dos meramente encontros passados). Talvez importe dizer que é, também, nessa livre expressão que tantas vezes os elementos de conteúdos deslocados para objectos invariavelmente insatisfatórios e consequentemente produtores de sinais e sintomas, se recolocam na via da possibilidade (previamente transferencial) do encontro com objectos realmente possibilitantes da satisfação e/ou frustração (satisfatória), aqueles que podem dar caminho ao percurso para a resolução [do(s) conflito(s)], por serem os apropriados (ou por serem pseudo-substitutos sublimantes suficientemente capazes de o serem).

Claro que é, também muitas vezes, o facto das características dos objectos receptores (apropriados à satisfação e/ou frustração dos conteúdos latentes, por exemplo desejantes) serem inapropriadas para os conteúdos dinâmicos do Super-Eu que tornam o caminho desviado, quer da satisfação, quer da frustração (satisfatória), já que o deslocamento (para objectos diferentes daqueles que podem adequar-se aos conteúdos emergentes) viabiliza mormente acontecimentos sinalético-sintomáticos que podem ir, por exemplo, desde a fixação obsessiva no objecto deslocado até à psicose paranoide. Ambos exemplos, de apresentação defensiva e sinalética da depressão subjacente à (im)possibilidade do encontro amoroso interno e do posterior encontro amoroso (satisfatório e/ou frustrado) com objectos apropriados e reais do mundo externo: a liberdade para o Eu intra-integrado e para a saudável relação com o outro (no e do mundo extra-psíquico); ou, a liberdade para a auto-aceitação intra-integrada do Eu e libertadora da aceitação, possibilidadora e possibilitante, do encontro com os objectos apropriados e reais do mundo externo; ou ainda, do conflito intra-psíquico aniquilador do funcionamento sanígeno à resolução integradora do Eu, permissora e propulsionante, do funcionamento saudável.

Parece fundamental fluir espontaneamente [diferente de não pensante, diferente de só sentinte (?)] para que a expressão do(s) conflito(s) possa ser também uma aproximação à sua resolução, que é também a mudança da parte vitoriosa (quando existente), não necessariamente para parte derrotada, mas muito para a coabitação integrada (tendencialmente) pacífica das “partes em conflito” (partes da (intra)psique em conflito - conteúdos inter-instâncias e/ou intra-instâncias). Por exemplo:

Tantas vezes, a “solução” está no mediador do conflito (p.e., Super-Eu) e tantas outras nas partes aparentemente (e/ou de facto) em guerra, isto é, acontece por vezes, que os conflitos parecem ser entre conteúdos de duas instâncias (p.e., entre o inconsciente e a “quase-pseudo-consciência”), mas no fundo essas (instâncias) podem estar também em luta/trabalho para a agradabilidade do Super-Eu.

[Mesmo os conflitos psicóticos, são também conflitos neuróticos (intra-psíquicos, maioritariamente depressogénicos), que depois se podem revelar (principalmente) na tipologia de conflito psicótico: mundo interno versus mundo externo (mesmo que originariamente se tenham formado por ditames desta própria relação: “Eu versus mundo externo” - o que também permite dizer, não de forma meramente invertida, que também os conflitos neuróticos têm como entidades basilares conflitos psicóticos)].

A agradabilidade ao Super-Eu, é também, necessariamente, a agradabilidade [(in)directa] aos cuidadores primários (já que esses, são os principais contribuintes/impressores para a formação do Super-Eu, inicial e basilar, e até para a sua existência), o que revela e torna relevante a dinâmica relacional do sujeito com o(s) outro(s) na sua vida mais tenra, como um dos principais impulsionadores conflituais ao longo de toda a vida do indivíduo humano. [Impulsionadores conflituais e/ou impressores das bases para a forma de lidar com as relações (dessa actualidade e posteriores) - internas e externas, da relação de objecto primário, à relação de objecto secundário, até à “nova relação” - posteriormente tornada potencial e/ou aparentemente principal.]

[Parece-me necessário salientar (apesar da postura meramente exemplificativa/ilustrativa e não contemplativa da realidade global) que também existem conflitos intra-instância-psíquica, isto é, aqueles que ocorrem dentro de uma única instância psíquica (p.e.: duas ou mais entidades/ conteúdos desejantes simultaneamente incompatíveis - id; duas ou mais entidades/conteúdos de valor e/ou moral simultaneamente incompatíveis - Super-Eu; etc.), para que se possa elevar e/ou aprofundar o pensamento (talvez principalmente sobre os afectos - essas entidades de conteúdo, determinante e determinador, sobre outras entidades psíquicas especialmente subjugadas a essa tão subjugatória). Por outras palavras, este tipo de conflitos (que podem ser de etiologia diversa - de dinâmica relacional intra-instância-psíquica, intra-psíquica-inter-instâncias-específicas, intrapsíquica- global, todas as hipóteses anteriores na relação entre elas, e, todas as hipóteses anteriores na relação com o mundo externo) podem ser considerados como elementos de potencial fomentador de desencadeamento sintomático-patogénico (visível), com ou sem luta/trabalho pela posterior agradabilidade aos ditames residentes no Super-Eu, já que muitos desses conflitos não chegam a sair da sua instância, sendo resolvidos intra-instância, ou não sendo resolvidos podem também permanecer apenas dentro da instância em questão sendo percebida a sua existência maioritariamente através de conteúdos literais simbólico-representativos.]

Ainda a título de exemplo e para alargar a discussão, poderíamos pensar no potencial de patogenia decorrente de um Super-Eu “formado” por cuidadores primários em conflito e/ou em desacordo, p.e. um pai e uma mãe em desacordo e/ou em conflito na educação dum filho, e/ou um dos pais (ou os dois) com mensagens psicotóxicas. Não se deverá com isto pensar que será menor o potencial de patogenia de alguém com um Super-Eu formado principalmente através da relação com cuidadores primários que estiveram maioritariamente concordantes e com mensagens explicito-saudáveis (não contraditórias), já que a tarefa dos cuidadores primários é talvez uma das mais difíceis/exigentes tarefas da condição relacional humana, e também por isso, sujeita a ainda mais limites e falhas (não querendo com isto dizer que as falhas e os limites o são realmente, e, não querendo dizer que as outras tipologias relacionais são mais fáceis ou que não têm também limites e falhas, mas querendo dizer que as dificuldades das outras tipologias de relação são tipicamente, directa ou indirectamente, decorrentes das primeiras). Ainda podíamos juntar a este exemplo, a conjuntura de diversidade de cuidadores primários (principais) que pode existir, [desde um só pai a uma só mãe, a pais divorciados (com ou sem novo(a) companheiro(a)), à ausência de pais (com ou sem pseudo-substitutos), a pais adoptivos, a dois pais do mesmo sexo, etc.], estas e outras características do mundo externo, que depois de internalizadas idiossincráticamente se assumem como partes integrantes e autónomas do indivíduo.

Assim, da psique em conflito (entre ela própria e/ou entre ela e o mundo externo, ou ambas), podem nascer duas grandes tipologias (de referência, mas não únicas) de visibilidade (literalidade) da existência conflitual, que é naturalmente permanente e necessária, como funcionamento regular e integrante da própria vida psíquica:

  1. (no) funcionamento sanígeno - a visibilidade conflitual apresenta-se, ao próprio e ao outro, em formato de sublimação partilhada (p.e.: actividade/expressão visível da resolução do conflito pela via do deslocamento objectal aceitável, suficientemente bom para uma real satisfação/frustração);

  2. (no) funcionamento patogénico - a visibilidade conflitual apresenta-se, ao próprio e/ou ao outro, em formato de sinal e/ou sintoma (p.e.: actividade/expressão visível da existência, contínua e continuada, do conflito sem que este encontre uma resolução suficientemente pacificadora para deixar de o ser).

Desta forma, torna-se imprescindível, pelo menos referir que as generalizações acima (1 e 2), são no mínimo perigosas e absolutamente reducionistas das possibilidades infinito-limitadas a que a especificidade de caso impõe. Se quisermos uma análise cuidada, teremos que ir mais longe, até porque muitas vezes é extremamente díficil de distinguir as verdadeiras diferenças, quer entre “sublimação partilhada” e “sinal e/ou sintoma”, quer entre “funcionamento sanígeno” e “funcionamento patogénico”. Ir mais longe, não passa apenas pela mera distinção, poderá ter que passar por entender que em ambos funcionamentos, independentemente de qual, a necessidade de compreensão dos afectos (e de toda a sua gigantesca envolvente) pode ser uma ponte/caminho entre, por exemplo, o mesmo humano, criar ou destruir, perante exactamente a mesma situação. Será errado pensar-se, sequer, por exemplo, que alguém em funcionamento patogénico estará mais próximo de destruir do que criar, do que aquele em funcionamento sanígeno, tal como (agora sim) o meramente inverso(?).

Para se chegar ao encontro da diversidade interpretativa, parece ser preciso encarar a dita normalidade como uma “meta-normalidade”, isto é, o que está para além dela própria é tantas vezes, também, o que a constitui como tal, não pela diferença, mas pela pertença:

Não basta dizer-se que alguém não joga com o baralho todo, quando tantas vezes até joga com mais (ou outras/diferentes) cartas, se ainda por cima a própria pessoa que disse que alguém não joga com o baralho todo, joga com o mesmo baralho que essa outra pessoa inventou”. Até que ponto as psicopatologias não são também pertença da dita normalidade, já que sem elas, tantas vezes, não haveria, por exemplo, algumas grandes criações [através dos grandes (des)equilíbrios], que depois são utilizadas pelos ditos normais, na sua dita normalidade?

No entanto, parece ser no e do encarceramento sobre si próprio que se encontra o verdadeiro disfuncionamento e/ou funcionamento verdadeiramente patogénico (uma espécie de psicose permissora do funcionamento intra-neurótico como o funcionamento quase exclusivo), isto é, na não partilha da criação funcional (p.e. criação artística não partilhada - apesar de ainda assim esta poder ser, por vezes, verdadeiramente funcional por cumprir a função sublimatória, ainda que sem ser partilhada ao outro) e na não criação funcional ou criação de actividade disfuncional (p.e. actividade obsessivo-compulsiva de verificação da fechadura de uma porta).

Por fim, importa novamente questionar (verdades tidas como elementares e seguras, quase religiosamente dogmáticas e, por isso extremamente difíceis de se acreditar sequer que se podem colocar em questão), para que a mudança seja realmente idiossincrática e não mera pertença a uma pré-verdade unicista, onde cabe tudo e todos, o que se torna tão parecido com o mesmo que nada. Como por exemplo, até que ponto existe de uma verdadeira consciência, enquanto instância intrapsíquica? A análise da análise2, serve de exemplo para a hipótese da impossibilidade duma verdadeira consciência do presente, considerando o presente como a única existência real (única realidade em que realmente vivemos/estamos - “o aqui e agora”), podemos então também considerar a consciência como uma pseudo-consciência e a pseudo-consciência como uma quasepseudo-consciência do passado e do futuro (sendo que toda e qualquer forma de “consciência” se dá exclusivamente no presente)?

2 Primeiro é necessário sentir para depois pensar os afectos, não é possível pensar sobre o que se sente sem se ter sentido primeiro. (Já que pensar sobre o que se está a sentir no próprio momento que se sente implica, no fundo, pensar-se sobre um passado ainda demasiado recente para ser distinguido do presente. O presente passa instantaneamente, uma velocidade cuja capacidade perceptiva humana não consegue destrinçar.)

João Castanheira

Licenciado em Psicologia, membro efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP n.º 3560), com Diploma de Estudos Avançados em Psicologia (3º ciclo) pela Universidad Miguel Hernández de Elche (Espanha) e reconhecimento de Suficiência Investigadora, João Castanheira é Psicólogo Clínico, na área de Psicologia Clínica de Orientação Analítica, com experiência em contexto clínico-terapêutico, escreve artigos principalmente sobre Psicologia Clínica de Orientação Analítica e Psicanálise. Actualmente, é também director geral e director clínico do ITAPA - Instituto Terapêutico Analítico Psicologia Aveiro (Portugal)