Quando só reconhecemos o valor de uma pessoa quando a perdemos…

2016

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Quando só reconhecemos o valor de uma pessoa quando a perdemos…

As relações humanas são, inegávelmente, o que de mais precioso temos na nossa vida, já que nos construímos do início ao fim na e pela relação.

No entanto, pelas mais diversas circunstâncias, podemos estar menos disponíveis ou mais distraídos no que respeita ao investimento que depositamos nos nossos relacionamentos mais significativos.

A maneira como nos posicionamos na vida, é de facto uma factor condicionante. Se nos encontramos enquadrados numa lógica de vitimização, na qual impera o queixume e o pessimismo, torna-se mais difícil reconhecer, valorizar e ser grato por todas as pessoas presentes e disponíveis à nossa volta, familiares e amigos, bem como pelas oportunidades que a vida nos oferece. Uma visita a um lugar paradisíaco, como  uma daquelas ilhas de catálogo de viagens, pode ser algo completamente maçador e aborrecido para alguém que cuja capacidade para apreciar o bom e o belo da vida se encontra dimiuída. A “problematização e a centração em dramas pessoais” bloqueia a capacidade para receber e desfrutar do que de melhor a vida tem para nos oferecer, bem como diminui a disponibilidade para estar atento aos outros e alimentar as trocas relacionais com eles.  

Por outro lado, a crença que certas pessoas são garantidas e estarão sempre presentes para nos receber e amparar quando for preciso, também poderá promover, uma certa “distração” no cuidado e na atenção para com elas. Neste caso, não se trata propriamente de desvalorização, até porque são pessoas afetivamente significativas, mas isso não se traduz na priorização que damos quando toca a dedicar-lhes mais do nosso tempo, atenção e afeto. Quando as circunstâncias da vida determinam a perda destas pessoas ou uma diminuição da sua presença ou disponibilidade, é que há uma tomada de consciência maior e a emergência de algum pesar e arrependimento por não ter havido um maior investimento para com aquelas pessoas.

Contudo, há situações, e aqui podemos falar mais especificamente em relações amorosas,  em que, efetivamente, existe uma clara desvalorização do outro traduzida em críticas frequentes. Esta atitude poderá visar a fragilização da  auto-estima do parceiro e o aumento da sua insegurança de modo a mantê-lo na relação debaixo daquele ascendente e impedir a perda. No entanto, quando a separação realmente acontece, porque o outro chega ao seu limite e decide seguir outro caminho, a dor do abandono e do vazio acaba inevitavelmente por chegar e se instalar. E é aqui, com a partida do parceiro e com a vivência da perda e do vazio, que aquele passa a ser valorizado, podendo haver uma mobilização para reverter a situação e fazê-lo regressar.

Se a perda do parceiro estiver ligada à existência de uma terceira pessoa, também poderá haver aqui um aumento do interesse e do entusiasmo que já antes teria esmorecido. Esta aparente valorização do parceiro que partiu para os braços de outra pessoa, poderá estar relacionada sobretudo com um sentimento de despeito. É como se a perda daquela pessoa representasse o deixar de possui-la, emergindo novamente o desejo de voltar a tê-la e de aliviar a dor  da rejeição e da preterição.

Se nos construímos na e pela relação, tentemos não nos distrair em demasia do que mais precioso possuímos: as pessoas que habitam na nossa vida. Preservar e alimentar os nossos relacionamentos com as pessoas que nos são significativas, é de suma importância, bem como saber valorizá-las e acarinhá-las. Nada nem ninguém pode ser dado como garantido e todo o vínculo necessita de ser alimentado para se conservar.

Como nas palavras de Antoine De Saint- Exupéry, em o Princepezinho: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...Tu és responsável pela tua flor....”

Joana Valério