CIF - Deve-se ou não utilizar?

As diferentes correntes e modelos teóricos. Novas abordagens e novos contextos de intervenção. A teoria e a prática, os conceitos e as estratégias. Preocupações éticas e deontológicas. etc.

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PauloC
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CIF - Deve-se ou não utilizar?

Mensagempor PauloC » quarta jan 30, 2008 1:03 pm

Após fazer uma pesquisa pelo fórum e ler atentamente aquilo que já se falou, continuo com muitas dúvidas.

Segundo a nova D.Lei 3/2008 o relatório deverá ter por baseas orientações passo a transcrever: "Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e Saúde".

Ora o mesmo decreto não refere qual a versão da CIF a ser utilizada. Se a Versão Original, se a versão adaptada para crianças.

Caso estejamos a falar da versão original, é a própria OMS a considerá-la como não apropriada para criança, o que levou à criação de uma adaptação para Crianças, a ICF-CY, que segundo o site da OMS foi publicada pela primeira vez em Outubro de 2007.

Parece ainda que esta versão não foi ainda traduzida para Português. De facto a única referencia que encontrei trata-se de uma versão experimental traduzida e adaptada, com base na CIF (2003) e ICF-CY ( na altura no prelo), pelo Centro de Psicologia do Desenvolvimento e da Educação da Criança da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

Desta forma, e porque desconheço de todo o estado actual dos estudos para a adaptação portuguesa da ICF-CY, gostaria de saber se possuem referencia sobre o final dos estudos para a adaptação para a nossa população, bem como onde poderá ser encontrada a versão final dessa mesma adaptação.

Não obstante de poder estar errado, não acredito que desde Outubro de 2007 até Janeiro de 2008 o instrumento publicado pela OMS se encontre devidamente traduzido e adaptado para a nossa população (o que li em sites não oficiais, aponta para a versão portuguesa se encontrar ainda em fase de estudos).

Não estou aqui sequer a referir os restantes argumentos contra a CIF que encontrei numa breve pesquisa, porque de facto parece-me que o simples facto da adaptação do instrumento se encontrar em fase de estudos é para mim razão suficiente para a não utilização do mesmo para fins que não sejam os de investigação.


Se efectivamente estiver certo e a adaptação não estiver ainda concluida, parece-me que estamos perante um quadro preocupante:

* Por um lado demonstra total desconhecimento de quem aprovou e promulgou a Lei (devo chamar a vossa atenção para que a revisão e aprovação da lei em Conselho de Ministros ocorre em Setembro de 2007, ou seja, antes da publicação da ICF-CY pela OMS)

* Por outro lado temos uma classe profissional disposta a definir o projecto educativo de uma criança com base num instrumento que se encontra ainda em estudo, sem questionar a sua validade e fidelidade, dispostos a gastar dinheiro em formações.

Preocupante foi mesmo ter lido por parte de colegas, que já no ano anterior utilizaram a CIF. Isso é por si só lamentável e preocupa-me que em Portugal existam psicólogos a demonstrar tão pouco rigor na sua actividade, pois ou utilizaram a CIF (desadequada a crianças e jovens), ou utilizaram uma tradução experimental, adaptada de uma versão também ela experimental.

Pena que o SNP e a associação Pró-Ordem ainda não se tenham sequer pronunciado sobre esta matéria.

Quanto a mim, só utilizarei este instrumento quando tiver garantias que os estudos se encontram terminados e que estes tenham revelado o mesmo como adequado.


Saudações Psicológicas
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Mensagempor SGFernandes » quarta jan 30, 2008 1:08 pm

Pois é colega, concordo consigo mas por vezes é a própria entidade profissional a "obrigar" a usar os instrumentos para não se fugir à lei. Penso que o mais correcto será usara a versão para crianças mas não existindo e sendo o DL 3/2008 omisso em matéria de normas transitórias, será complicado ficar à espera.
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Mensagempor cristinapereira » quarta jan 30, 2008 2:31 pm

Olá.
Decidi fazer formação nessa área, pois terminei o curso em 2002 e sei que me falta uma actualização de conhecimentos em relação a estes novos instrumentos. Ando à procura de locais que façam formação nesta área, mas já que ainda nada está concluído/aprovado/traduzido será que vale a pena fazer formação? Eu trabalho com crianças, portanto não sei se a CIF normal serve para alguma coisa...
Já agora gostava de fazer uma pergunta aos colegas que fazem avaliação psicológica: continuam a utilizar o DL 319/91 para fundamentar relatórios de avaliação psicológica? Ou agora utilizam todos a CIF?
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Mensagempor Beija-flor » quarta jan 30, 2008 3:39 pm

"Workshop - Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e Saúde
Caros colegas,

Foi recentemente publicado o Decreto-Lei nº 3/2008, de 8 de Janeiro, que define os apoios especializados a prestar no sistema educativo, aos alunos com necessidades educativas especiais de carácter permanente. Este novo modelo de organização da Educação Especial utiliza a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), como instrumento de referência na avaliação destes alunos.

Considera-se, assim, oportuna a realização de um workshop, sobre a CIF e a operacionalização deste modelo de avaliação, em contexto escolar.

Poderá consultar o resumo dos conteúdos do workshop online referente a esta nova formação Psikontacto - Ciclo 2, esperando que ela lhe possa ser útil.

Com os melhores cumprimentos e um "Até Breve"

Maria do Céu Salvador"
Sónia.rp
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Mensagempor Sónia.rp » quarta jan 30, 2008 6:08 pm

Embora já tenha acesso a toda a documentação existente, continuo a sentir algumas lacunas com esta nova legislação que engloba a CIF, logo, farei alguma formação na área.
Contudo, principalmente em contexto de educação, penso que não faz qualquer sentido classificar as crianças e jovens segundo a CIF, nem reduzir as Necessidades Educativas Especiais ao que lá é exposto.
Contudo, tal como já foi referido, não temos muita escolha...mesmo que sejamos os principais afectados por esta classificação.
PauloC
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Mensagempor PauloC » quarta jan 30, 2008 11:58 pm

De facto este novo enquadramento não é fácil e é um desafio à nossa capacidade de resposta.


Como referi a utilização da CIF para avaliação de crianças e Jovens não é possivel. É a própria OMS que reconhece essa limitação. Logo toda e qualquer formação que tenha por base a aplicação da CIF (versão para adultos) a crianças e Jovens é, a meu ver, no mínimo duvidosa, seja qual for o organismo a promove-la.

A versão da CIF, adequada a crianças que foi estudada e publicada em Outubro de 2007, chama-se ICF-CY, podendo ser traduzida para Português como CIF-CJ (como já li algures).

Acontece que a adaptação da ICF-CY para português parece que ainda se encontra em fase de estudos. Digo parece pois não sei se estes já estão concluidos (esta é a minha dúvida inicial e que motivou este tópico).


Em relação às questões que se levantaram sobre a utilização, formação, ect da CIF na avaliação de crianças e Jovens, a minha visão é a seguinte:

- A utilização da CIF (a versão para adultos) para crianças e jovens é um erro. Foi a própria OMS que o reconheceu e que deu origem aos estudos para a ICF-CY.

- Atendendo a que a OMS apenas anunciou a publicação da ICF-CY em Outubro de 2007, toda e qualquer versão anterior tratava-se de uma versão experimental, logo que não deveria ser utilizada para outros fins.

- Pessoalmente duvido que já exista uma versão da ICF-CY devidamente adaptada para a população portuguesa, mas coloco aqui essa duvida para ser esclarecida.

- Caso esta adaptação não esteja ainda devidamente realizada, a utilização da CIF em Crianças e Jovens portuguesas é um erro técnico, cientifico e profissional, assim como qualquer formação que tenho por base a preparação de técnicos para a sua formação, pois ou está a dar formação com base na CIF para adultos (que é desadequada) ou está a dar formação com base em algo que ainda não existe.


Como nota final apenas gostaria de demonstrar a minha preocupação como a resposta do utilizador SGFernandes.

A psicologia é uma ciência que baseia o seu conhecimento e modelos de aplicação em estudos empiricamente validados. A nossa prática clínica deverá decorrer desses conhecimentos e da ética profissional. Um psicólogo que na sua prática faz algo em que não acredita ou não se sente à vontade, mas que o faz por imposição de terceiros (sejam eles quem forem) a meu ver está a trabalhar mal e deveria repensar a sua actividade.

Eu nunca utilizarei a CIF (de adultos) com crianças, quanto muito utilizarei a versão para crianças e jovens (ICF-CY) depois de devidamente adaptada e depois de realizar formação adequada nesse instrumento. Até lá continuarei a proceder como sempre fiz, apresentando os argumentos que acima descrevi para a não utilização.

Posso perder alguns casos, até posso, mas para mim é mais importante ser um psicólogo que procura defender a qualidade e imagem da Psicologia e isto parece-me ser aquilo que deveria ser preocupação de todos, afinal a ética e deontologia não são apenas palavras bonitas.
PauloC
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Mensagempor PauloC » quinta jan 31, 2008 12:10 am

Sónia.rp Escreveu:Embora já tenha acesso a toda a documentação existente...


Apenas uma questão. Nessa documentação está incluida qualquer versão da ICF-CY devidamente adaptada para a população portuguesa?

Ou seja ela existe? Se sim então há que passar ver se é adequada aos propósitos impostos pela legislação.

E sim temos sempre escolha. Temos a escolha de fazer o que achamos correcto e que credibiliza a nossa profissão. Mas isso é apenas a minha opinião.

Afinal é mais fácil culpar a falta da ordem, as universidades privadas, os alunos dos cursos nocturnos, os psicopedagogos, os assistentes sociais, os anúncios sem nexo, em suma culpar os outros do estado da psicologia em Portugal. Agora quando chega a nossa vez de defender a psicologia, a prática é assobiar para o lado e fingir que não é nada connosco. Ou seja estudamos (pelo menos 5 anos) para sermos psicólogos, mas na prática qualquer pessoa (por muito pouco que perceba de psicologia), apenas porque é superior hierárquico ou paga o ordenado ao fim do mês, parece ter poderes para determinar como a psicologia deve ser aplicada.

Esta ideia até pode parecer absurda para alguns, mas é uma triste realidade.
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Mensagempor *Marta* » quinta jan 31, 2008 12:59 am

Caro PauloC,

A sua intervenção neste tópico tem sido extremamente pertinente e concordo consigo nas limitações e "incongruências" que identifica na CIF. Apesar de ainda estarmos numa fase de transição/adaptação, ainda há muito caminho a percorrer para que tudo isto ande sobre rodas.

PauloC Escreveu:E sim temos sempre escolha. Temos a escolha de fazer o que achamos correcto e que credibiliza a nossa profissão. Mas isso é apenas a minha opinião.


Quanto a esta afirmação... antes fosse assim! (In)Felizmente há um Decreto-Lei que nos regulamenta o Ensino Especial, e esse DL refere-se à CIF. E por muito que queiramos fugir dela, não temos hipótese. Nem sequer está em causa que sejam os presidentes dos conselhos executivos ou os chefes de clínicas (ou similares e afins) a imporem-nos algo e a obrigarem-nos a trabalhar com o que quer que seja. Estamos a falar de diligências do Ministério da Educação e de fiscalizações/inspecções (bastante rigorosas e que cada vez mais passam pelos SPO's). E aqui, PauloC, vai pôr em risco o seu local de trabalho porque há algo que não está ainda totalmente definido e, por isso, considera incorrecto trabalhar com essas ferramentas?
Não considere este meu comentário como um ataque, pois não pretende sê-lo. Afinal de contas, estamos todos no mesmo barco e sujeitos às mesmas regras. E, tal como foi dito aqui, com o novo DL, é impossível ficar à espera de algo mais palpável e mais concreto...
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Mensagempor SGFernandes » quinta jan 31, 2008 9:38 am

Caro PauloC

Relativamente ao seu comentário ao meu post, aquilo que tenho a dizer é precisamente o que a colega *Marta* expôs. É fácil falar quando possivelmente não se depende de terceiros para trabalhar e apesar de reconhecer que não é correcto usar-se a CIF, a verdade é que para quem trabalha num estabelecimento de ensino particular e cooperativo, sujeito a inspecções regulares por parte do Ministério, não se spode dar ao luxo de se recusar a fazer o trabalho, pondo em causa não só o emprego como o próprio paralelismo pedagógico concedido à escola. É que caso não saiba, quando não se cumprem leis (netse caso o DL3/2008), corre-se o risco de um processo que pode inclusive levar ao encerramento da escola.
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Mensagempor PauloC » quinta jan 31, 2008 11:13 am

Eu sei e reconheço todas essas limitações.

Sei que está consagrada na Lei e que a Lei é para cumprir. Mas também todos sabemos que a Lei também se engana e que cabe aos profissionais responsáveis mostrar esse erro e procurar a sua correcção.

Por exemplo todos falam na aplicação da CIF. Eu volto a questionar se é para aplicar a CIF (versão de adultos) ou a ICF-CY. Já algum dos colegas que indagou sobre esse assunto? É que a primeira é desadequada e a segunda não sei em que ponto da tradução está.


Não estou a procurar boicotar a CIF, nem contra a CIF. Estou contra a aceitação massiva da CIF sem que seja questionada. Temos que nos defender questionem quem de direito qual a versão a utilizar. Informem-se e apresentem, devidamente fundamentado, as limitações da versão proposta e os riscos para o avaliando. Em suma deixem transparecer que apenas estão a utilizar esta classificação porque são obrigados e que do ponto de vista cientifico não deveriam estar a utilizar a CIF.

Afinal se todos temos a consciência que a CIF não deveria ser utilizada, o que vamos fazer?
Incorrer numa prática que está errada, ou procurar provar que a CIF ainda não está em condições de ser utilizada convenientemente, colocando em risco o projecto educativo de todas as crianças que forem avaliadas segundo esta classificação?

O que fariam os cirurgiões se o ministério fizesse uma Lei que obrigasse a que todas as cirurgias fossem realizadas com um novo instrumento, que o fabricante considera desadequado para incisões na barriga das pernas e que o instrumento adequado está em estudo? o que é que eles fariam face à cirurgia nas pernas? Iriam todos utilizar o novo instrumento? ou manifestavam e justificavam que não é possível e que se deveria esperar pela conclusão dos estudos e avaliar o novo instrumento de corte?

Calar é concordar e o que me custa é que colegas de profissão concordem com a utilização de um sistema de classificação, sem que avaliem primeiro a adequação do mesmo. Afinal se não formos nós a lutar pelo respeito à Psicologia quem o fará?
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Mensagempor SGFernandes » quinta jan 31, 2008 12:46 pm

Colega PauloC

Eu não disse que concordo com o uso da CIF, aliás ponderei bem esse assunto e após a análise também cheguei à mesma conclusão: que não é de todo uma classificação que se deva usar na educação. Apesar de não conhecer a versão da CIF para crianças e jovens (dado não estar traduzida), penso que será de facto a mais adequada, agora quem fez a lei é que deveria ter isso em consideração. Até podemos ser muitos a contestar a aplicação da CIF no âmbito das NEE, mas acha mesmo que a lei será alterada? Não creio...
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Mensagempor *Marta* » quinta jan 31, 2008 2:30 pm

SGFernandes Escreveu:Colega PauloC

Eu não disse que concordo com o uso da CIF, aliás ponderei bem esse assunto e após a análise também cheguei à mesma conclusão: que não é de todo uma classificação que se deva usar na educação. Apesar de não conhecer a versão da CIF para crianças e jovens (dado não estar traduzida), penso que será de facto a mais adequada, agora quem fez a lei é que deveria ter isso em consideração. Até podemos ser muitos a contestar a aplicação da CIF no âmbito das NEE, mas acha mesmo que a lei será alterada? Não creio...


Exactamente!!
Aliás, no ano passado eu colaborei na elaboração de um estudo piloto, no âmbito de uma formação ministrada pelo Ministério da Educação, e apontámos todas as lacunas que encontrámos na CIF. Creio que as escolas que também colaborara, também deverão ter apontado as mesmas lacunas. Mas infelizmente... estamos sujeitos a uma lei. Podemos contestar, podes informar das lacunas mas temos de continuar a cumpri-la. Não temos alternativa!
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Mensagempor Sónia.rp » quinta jan 31, 2008 2:40 pm

Caro pauloC: por enquanto a única documentação é que tive acesso é a CIF para adultos.
Penso que estamos todos de acordo quando argumentamos o quão inadequada esta CIF pode ser no uso educacional. Quando referi que não tinhamos opção, estava precisamente a querer dizer o que a Marta já referiu: embora possamos evitar, reclamar, falar com as entidades empregadoras, se nos "obrigarem", de acordo com a lei, não temos muita hipótese de escolha.
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CIF

Mensagempor cristinapereira » quinta jan 31, 2008 3:55 pm

Colegas,

Como disse ontem, ando à procura de formação nesta área pois já tenho documentação sobre a CIF mas acho que isso é insuficiente. Encontrei uma entidade que faz formação e coloquei a seguinte questão: "Trabalho com crianças e quero fazer formação sobre a CIF. A formação inclui a ICF-CY?" A resposta deixou-me ainda mais confusa. Digam-me o que acham disto:

"No que respeita aos especialistas envolvidos na adaptação da CIF para crianças e adolescentes, a professora Judith Hollenweger, representante da área de educação na "Rehabilition International" e uma das promotoras do uso da CIF, acha de momento prematura a sua utilização, uma vez que refere que "A CIF não foi criada para substituir outros processos de categorização, como por exemplo o "autismo", mas sim para providenciar informação adicional... Como é usada esta informação adicional e como devem ser elaborados instrumentos práticos que a possam tornar real e aplicável são questões ainda por responder."
Prof. Luís Miranda Correia

Em "Tomada de posição da FEEI":

(...) Mesmo a versão proposta por Simeonsson et al., em 2003, ao lançar uma adaptação da CIF para crianças e jovens (ICF-CY), necessitaria de uma adaptação específica para ser usada em Educação tanto ao nível dos seus itens como dos seus pressupostos de aplicação."

Então aplicamos a CIF, a ICF-CY ou fazemos avaliações como sempre fizemos? Eu trabalho em consultório privado, portanto tenho liberdade para tomar decisões em relação ao meu trabalho. Felizmente não me sinto obrigada a tomar esta ou aquela decisão. Só quero mesmo saber qual será a decisão mais acertada e que não prejudique as crianças.

E já agora, há alguma entidade que dê formação em ICF-CY? É que aquelas que encontrei só dão formação na CIF.
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Mensagempor PauloC » quinta jan 31, 2008 10:04 pm

Parece que a minha questão inicial está respondida.

Actualmente a utilização da CIF é inadequada (até prova em contrário).


A questão a gora é o que fazer. Utilizar e ficar calado? Assobiar para o lado porque é a lei. Então e os conhecimentos científicos na área da psicologia que nos demarca das restantes classes profissionais? Ficam na gaveta? Ou esses só servem para dizer a outros que a psicologia só pode ser feita por quem sabe tem conhecimentos técnicos na área, mas que esses são ignorados pelos próprios profissionais da área.

A lei diz que tem que ser utilizada, mas não diz que a opinião publica não tem direito de saber o que se passa.


Acho que a pratica e o brio profissional fica na consciência de cada um. Nem vou discutir aqui as opiniões pessoais de cada um.

Na minha prática vou continuar a proceder como sempre fiz, tenho essa liberdade e não faço questão de abdicar dela.

Para mim relatórios de crianças baseados na CIF são um erro técnico sem validade cientifica, ocorrendo o mesmo face à ICF-CY até estar devidamente adaptada.

Esta é a minha posição. A posição que defendo e os argumentos que vou utilizar sempre que seja confrontado com esta questão.

Compreendo alguns (por questões profissionais) estejam a ser obrigados, o que eu não compreendo é que o façam calados, como se a CIF fosse uma medida adequada.

Mantenham os vossos empregos, mas defendam acima de tudo as pessoas que recorrer aos vossos serviços e que serão as únicas prejudicadas pelos erros que possam cometer.
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Mensagempor Sónia.rp » quinta jan 31, 2008 10:31 pm

penso que estamos todos de acordo
*Marta*
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Mensagempor *Marta* » quinta jan 31, 2008 11:12 pm

Completamente! :)
PauloC, felicito-o por este tópico... penso que nos trouxe alguma reflexão e isso é importante!
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Mensagempor cristinapereira » sexta fev 01, 2008 10:00 am

Eu estou de acordo e acho que não nos devemos calar se não concordamos com a aplicação da CIF.
Mas o maior problema aqui não é o facto de teimarmos em fazer um bom trabalho e recusar a CIF. Até porque é isso que faço agora. Para mim, o maior problema é se estivermos a prejudicar as crianças com esta decisão. Imaginem que se não utilizarmos a CIF estamos a fazer relatórios que não valem nada? De que serve fazer os relatórios, se eles não servem para nada?
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Mensagempor SGFernandes » sexta fev 01, 2008 10:47 am

Informo os colegas de que sei de fonte segura que a CIF-CJ já está traduzida e muito brevemente sairá. Há alterações relativamente à versão para adultos mas apenas nas componentes Actividades e Participação e Factores Ambientais. Na checklist desta versão surgem no entanto items diferentes na componente Funções do Corpo.
Segundo informação do ministério, é para usar a CIF e depois, quando sair a CIF-CJ oficialmente, acrescentar os capítulos novos.
Última edição por SGFernandes em quinta fev 07, 2008 3:49 pm, editado 1 vez no total.
Cristina Silva
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Mensagempor Cristina Silva » sexta fev 01, 2008 3:27 pm

PauloC, louvo a sua postura e actuação e concordo inteiramente quando diz:
".....Temos a escolha de fazer o que achamos correcto e que credibiliza a nossa profissão....". Acrescento: mesmo que isso implique sofrer de represálias, sejam elas qual forem. Se lutarmos com base na verdade, no caso, na verdade cientifica, ganhamos sempre mesmo que isso não seja visível de imediato.

Lembro-me sempre de alguns grandes homens da história (e que são uma grande referência para mim) que lutaram por verdades e justiças, acima do seu próprio umbigo: Sócrates, Jesus Cristo (não como figura católica), Gandhi, Aristides Sousa Mendes, entre outros. A maioria pagou com a vida mas não cederam porque lutavam por coisas maiores e universais. Não se centraram apenas no seu umbigo.

Entendo que seja difícil, com a falta de trabalho que há, termos essa força. Para mim, o PauloC tem essa força porque se dá como exemplo, o que só vangloria a nossa classe. Identifico-me consigo como pessoa e como psicóloga.

Nós psicólogos, devemos ser os primeiros a darmo-nos como exemplo para a mudança de mentalidades e não precisamos de ser conhecidos para actuarmos elevadamente. Bem que este país precisa!

Fica o meu agrado por publica e actualmente estarem a aparecer pessoas com esta postura, no sentido de mudar um sistema (logo uma sociedade) "doente"! Nem que seja para se repensar as coisas, já é bom!
Falo especificamente do novo bastonário da ordem dos advogados.

Já chateia pessoas que não se põem em causa, que não reconhecem as suas falhas, que para se defenderem ainda se fazem de vitimazinhas, depositando nos outros os seus fantasmas, perseguindo-os, etc.

Sei que não me foco no tema (porque não estou dentro do assunto) mas não podia deixar de aproveitar para deixar estas palavras.

Gostei muito de o ter lido.

Salvé aos restantes intervenientes.


Cristina Silva
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