Mensagempor Cristina Silva » sexta nov 30, 2007 7:53 pm
Caro Alexandre_G,
Estive aqui a ler os seus desabafos com interesse mas fiquei curiosa com algumas coisas. Percebi que tem pensamentos obsessivos, ou seja, fica consumido por uma ideia mas não percebi que tipo de rituais faz.
Depois, refere várias vezes que quer ficar bom, curar-se, parece que já leu tudo sobre o assunto e já se informou de todo o tipo de terapias (típico do funcionamento obsessivo-compulsivo que se centra na racionalização e intelectualização para controlo do conflito interno), inclusive já foi acompanhado por uma psicóloga mas desistiu, alegando falta de disponibilidade financeira.
Não sei o que faz nem a sua idade mas parece ter uma vida tranquila nesse aspecto, pois dá-me a sensação de ter um trabalho seguro, fazendo até práticas desportivas de algum dispêndio, como por exemplo o squash.
Quero dizer com isto que se calhar está a fugir um bocadinho a procurar real e seriamente ajuda.
Diz muitas vezes: “quero ser eu sem estes problemas”. Pergunto-lhe: E o que é ser o Alexandre sem estes problemas?
Procura também uma cura final. Como já leu muita coisa sobre as terapias, saberá com certeza que tal conceito de cura final não existe. As terapias têm como objectivo ajudar as pessoas a integrar na sua consciência, conteúdos que não controlam e que perturbam emocional e comportamentalmente. Isso é que ajuda a lidarmos melhor e a controlar positivamente as emoções mais negativas que todos temos.
Para me fazer entender melhor, todos nós temos um núcleo mais obsessivo (entre outros), por exemplo, no meu caso, esse meu lado, ajuda-me a organizar melhor o dia-a-dia (ex: arrumar a casa, manter a vida em ordem, ou seja, não me dispersar). E isso é bom! Sei identificar quando estou mais obsessiva e até brinco com isso dizendo: “lá estou eu com a minha “veia” obsessiva a funcionar” ou “agora precisava da minha veia obsessiva porque não me apetece nada escrever aquele trabalho tão chato”.
Isto é uma forma saudável porque o tal núcleo obsessivo está bem integrado na personalidade.
Não é saudável no seu caso e o Alexandre sente isso melhor que ninguém. Por isso, acho fundamental que procure ajuda para tratar esse seu núcleo obsessivo que pode ser enlouquecedor.
Agora, o que é que quer? Tratar só o comportamento ou perceber porque é que tem tal comportamento?
Responder a esta pergunta já o ajuda a procurar a psicoterapia mais indicada. Ou seja, se quer só deixar de ter os pensamentos obsessivos e não quer sequer saber o porquê de os ter, então uma psicoterapia cognitiva/comportamental é o mais indicado, porque trata eficazmente esses sintomas, com o risco de voltar a ter o mesmo comportamento noutras alturas da sua vida se ficar só por aí.
Se quer saber o porquê desses sintomas, fazer o caminho do conhecimento próprio, do conhecimento de si, e atingir uma forma mais saudável de funcionar, então uma psicoterapia de orientação psicanalítica ou uma psicanálise (ou como alguém escreveu: “o ronhonhó ronhonhó da psicanálise”. Há quem não entenda de facto), é o mais indicado.
É muito, mas muito mais longo (demora anos) e é um processo que pode ser doloroso, mas acredite, libertador, além de que trata também eficaz e naturalmente os sintomas.
Porque como diz J. Stephen: “ Cada homem tem em si um continente de carácter por descobrir. Feliz aquele que age como Colombo na sua própria alma”.
Ah! E não tente meter nada na cabeça, como tantas vezes diz, tente é tirar da cabeça o que já tem, mas faço-o no espaço certo, que é o da consulta, com um técnico especializado. Para que possam os dois olhar, entender e dar sentido ao que já tem na cabeça.
Deixo-o com uma sugestão: comece a substituir a palavra pensar pela palavra SENTIR.