Irreversível (spoiler)

A partir da articulação das principais correntes da Psicologia e das dimensões psíquicas e comunicacionais idiossincráticas, pretende-se a elaboração de uma abordagem das relações entre arte, cultura, psicologia e desenvolvimento humano.

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Cristina Silva
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Mensagempor Cristina Silva » terça out 21, 2008 8:50 pm

mariapsi Escreveu:"A pianista" tem a cena mais impressionante que jamais vi em cinema!


Como não vi "a pianista", não posso comparar, mas o "Irreversível", tem uma das cenas mais impressionantes que também já vi em cinema (é um filme que nos incomoda, tendo um início alucinante (eu estava a vê-lo deitada no sofá e tive de me sentar porque senão não aguentava aquele início. Consegui suportar e vi-o até ao fim, final que acaba por nos dar algum aconchego (pois traz alguma beleza) depois de um percurso altamente perturbante durante todo o filme).
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Mensagempor Ana Rita » terça out 21, 2008 11:08 pm

Cristina Silva Escreveu:
mariapsi Escreveu:"A pianista" tem a cena mais impressionante que jamais vi em cinema!


Como não vi "a pianista", não posso comparar, mas o "Irreversível", tem uma das cenas mais impressionantes que também já vi em cinema (é um filme que nos incomoda, tendo um início alucinante (eu estava a vê-lo deitada no sofá e tive de me sentar porque senão não aguentava aquele início. Consegui suportar e vi-o até ao fim, final que acaba por nos dar algum aconchego (pois traz alguma beleza) depois de um percurso altamente perturbante durante todo o filme).


Eu fui ver o "irreversível" ao cinema sozinha e houve uma altura que me aconteceu algo inédito: tive vontade de vomitar (e não foi por causa da câmara de filmar instável que se percebe logo de início). Não é concretamente mais violento que outros filmes mas consegue tocar-nos emocionalmente de tal forma e incomodar que foi isso que me impressionou ao ponto de ter aquele sintoma.

Há um filme também interessante que é o "Garden State", em que assistimos à evolução de um jovem no mundo dos afectos. Completamente embrotecido pela medicação desde novo, como forma de não lembrar um trauma que o pai enquanto psiquiatra faz questão que fique submerso, há uma altura que decide sentir e deixar a medicação. Mostra-nos o quanto é bom simplesmente sentir, seja alegria ou sofrimento. Além disso, é um filme que para além da seriedade consegue ser extremamentne cómico. Nunca me esqueço dele sentado no gabinete de um neurologista e ao sentar-se observa que este tem diplomas, certificados, conferências, formações tudo pendurado nas paredes, de tal forma que teve também de pendurar no tecto! Afinal, quem era o patológico ali? :D
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Mensagempor NunoF » terça out 21, 2008 11:16 pm

Ana Rita Escreveu:Eu fui ver o "irreversível" ao cinema sozinha e houve uma altura que me aconteceu algo inédito: tive vontade de vomitar (e não foi por causa da câmara de filmar instável que se percebe logo de início). D


Que nojo, compreendo agora porquê ninguém quer ir ao cinema contigo :?

Diz os cinemas que vais, para eu não aparecer :lol: :lol: :lol: :lol:
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Mensagempor Ana Rita » terça out 21, 2008 11:18 pm

NunoF Escreveu:
Ana Rita Escreveu:Eu fui ver o "irreversível" ao cinema sozinha e houve uma altura que me aconteceu algo inédito: tive vontade de vomitar (e não foi por causa da câmara de filmar instável que se percebe logo de início). D


Que nojo, compreendo agora porquê ninguém quer ir ao cinema contigo :?

Diz os cinemas que vais, para eu não aparecer :lol: :lol: :lol: :lol:


LOL... eu fiz questão de ir sozinha....tipo à uma da tarde sem quase ninguém, excelente! O filme é que me saiu pela culatra, mas ainda assim valeu a pena!
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Mensagempor NunoF » terça out 21, 2008 11:23 pm

Ana Rita Escreveu:
NunoF Escreveu:
Ana Rita Escreveu:Eu fui ver o "irreversível" ao cinema sozinha e houve uma altura que me aconteceu algo inédito: tive vontade de vomitar (e não foi por causa da câmara de filmar instável que se percebe logo de início). D


Que nojo, compreendo agora porquê ninguém quer ir ao cinema contigo :?

Diz os cinemas que vais, para eu não aparecer :lol: :lol: :lol: :lol:


LOL... eu fiz questão de ir sozinha....tipo à uma da tarde sem quase ninguém, excelente! O filme é que me saiu pela culatra, mas ainda assim valeu a pena!


Espectáculo ver um filme sozinho, já agora levaste pipocas e a coca cola?

:lol: :lol: :lol: :lol:
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Mensagempor Cristina Silva » quarta out 22, 2008 3:06 pm

Ana Rita Escreveu:
Cristina Silva Escreveu:
mariapsi Escreveu:"A pianista" tem a cena mais impressionante que jamais vi em cinema!


Como não vi "a pianista", não posso comparar, mas o "Irreversível", tem uma das cenas mais impressionantes que também já vi em cinema (é um filme que nos incomoda, tendo um início alucinante (eu estava a vê-lo deitada no sofá e tive de me sentar porque senão não aguentava aquele início. Consegui suportar e vi-o até ao fim, final que acaba por nos dar algum aconchego (pois traz alguma beleza) depois de um percurso altamente perturbante durante todo o filme).


Eu fui ver o "irreversível" ao cinema sozinha e houve uma altura que me aconteceu algo inédito: tive vontade de vomitar (e não foi por causa da câmara de filmar instável que se percebe logo de início). Não é concretamente mais violento que outros filmes mas consegue tocar-nos emocionalmente de tal forma e incomodar que foi isso que me impressionou ao ponto de ter aquele sintoma.

Há um filme também interessante que é o "Garden State", em que assistimos à evolução de um jovem no mundo dos afectos. Completamente embrotecido pela medicação desde novo, como forma de não lembrar um trauma que o pai enquanto psiquiatra faz questão que fique submerso, há uma altura que decide sentir e deixar a medicação. Mostra-nos o quanto é bom simplesmente sentir, seja alegria ou sofrimento. Além disso, é um filme que para além da seriedade consegue ser extremamentne cómico. Nunca me esqueço dele sentado no gabinete de um neurologista e ao sentar-se observa que este tem diplomas, certificados, conferências, formações tudo pendurado nas paredes, de tal forma que teve também de pendurar no tecto! Afinal, quem era o patológico ali? :D


O "Irreversível" incomoda a esse ponto de facto. Toda a gente que conheço que o viu, teve uma reacção somática pois levas cá com uma paulada emocional (e sem tempo de elaborar no momento) que sentes o incómodo no corpo. Eu também vi sozinha mas em casa e tive de arranjar uma defesa para o poder suportar. Eu penso que aí está também o brilhantismo do filme, pois são raros os filmes que conseguem surtir um efeito emocional tão forte, que consegue levar ao soma.

O "Garden State" fica como referência para futuros visionamentos pois ainda não vi. O problema é que há muitos filmes que não se conseguem encontrar nos clubes de vídeo.

Já agora, alguém viu aquela trilogia "Branco, Azul e vermelho"? Só vi o Azul com a Juliet Binoch (muito bom).
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Mensagempor Skydin » quarta out 29, 2008 9:22 pm

Aproveito para deixar a dica sobre a série In Treatment, baseada na aclamada série israelita Betipul.

SPOILER!!SPOILER!!SPOILER!!SPOILER!!SPOILER!!SPOILER!!SPOILER!!
8)
Quanto è referência feita por Cristina Silva ao filme "Irreversível",


Como não vi "a pianista", não posso comparar, mas o "Irreversível", tem uma das cenas mais impressionantes que também já vi em cinema (é um filme que nos incomoda, tendo um início alucinante (eu estava a vê-lo deitada no sofá e tive de me sentar porque senão não aguentava aquele início. Consegui suportar e vi-o até ao fim, final que acaba por nos dar algum aconchego (pois traz alguma beleza) depois de um percurso altamente perturbante durante todo o filme).


Tenho de discordar em absoluto e é com pena que leio que de facto, o que receei que fosse acontecer com alguns espectadores, após ter visto este filme, efectivamente aconteceu. Ou seja, acho inacreditável que alguém sinta "algum aconchego (pois traz alguma beleza)", simplesmente por o filme terminar com uma cena bonita que é a Monica Bellucci num parquezinho todo florido, onde descobrimos que está grávida. Atendendo a que o filme é contado de trás para a frente, no final do filme, após a "chicotada" emocional e quase física a que somos submetidos o filme todo, ainda ficamos a saber que toda a violação e violência que aconteceu a esta mulher, foi enquanto a mesma estava grávida, pelo que moralmente ainda consegue ser mais aterrador, se imaginarmos o sofrimento que isto lhe acresceu durante a violação.
Infelizmente, o filme está mal executado e originar repulsa física, ao ponto de sentirmos vómitos, repugna e agonia física, por mais que achem que torna o filme bem conseguido e realista, não são suficientes para eliminar este facto. No qual passamos uma hora e meia alucinante, a interpretar até onde chega o sofrimento humano, e ainda têm a lata de nos tentar deixar com um "aconchego"?... Na minha opinião só agravou a pobre transmissão que o filme pretendia passar, o que Gaspar Noé fez, poderia ter sido realizado de outra forma, igualmente marcante, muito melhor estruturada mas menos "enjoativo". É a minha humilde opinião! :wink:
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Mensagempor Ana Rita » quarta out 29, 2008 10:51 pm

Faz sentido o que dizes Skydin, aliás eu não tive esse aconchego porque na verdade já nem me lembrava do final (que é o início) do filme. As cenas da violaçao no túnel e do espancamento com um objecto (não recordo se extintor??) foram de tal forma marcantes que nem consegui reter essa parte da gravidez.

No entanto, devo dizer-te que foi precisamente esse apelo físico que o filme provocou que me deixou espantada. Já vi coisas mais violentas mas que não conseguiam provocar esse efeito de nausea. E o que diferenciou foi sentir que era como se estivessemos ali a sentir o mesmo das vítimas. Quantas vezes vemos homicidios, violações e tantas outras coisas em filmes na televisão e essas cenas ficam sempre no plano da distância, daquilo que não faz parte da nossa realidade? Não conseguimos mentalmente aceder a isso.

Hoje uma rapariga falava-me em consulta de um infeliz espancamento que sofreu há dias. Ela conseguiu transmitir muito bem aquela ideia de todos sabermos o que é espancar mas na verdade não sabermos. Foi essa a ideia com que fiquei no filme. Isto é uma aproximação do real ao ponto de nos provocar sintomas. E sem qualquer romantismo, o real, muitas vezes é muito duro.
Se caíres sete vezes, levanta-te oito.
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Mensagempor mariapsi » quinta out 30, 2008 10:41 am

A técnica de realização (aqueles movimentos de camera) não são alheios ao peso do tema.
É um fenómeno amplamente conhecido e documentado - chama-se motion sickness e (quase) todos já o experienciamos. :wink:
Como? Por exemplo, enjoos durante viagens por estradas sinuosas, enjoos de barco, jogos de computador, etc.
De uma forma simples, é o desfasamento entre o movimento percebido pelos olhos e o ouvido interno, que tenta compensar um desequilíbrio que não existe.

http://en.wikipedia.org/wiki/Motion_sic ... n_sickness

Não vi o final como uma tentativa de amenizar o drama, bem pelo contrário, quando se percebe que ela estaria grávida é como se tudo desabasse entre sentimentos de raiva e injustiça.
Mas discordo que o filme tenha sido mal realizado. Contado doutra forma seria uma coisa demasiado à Hollywood.
Há muitas coisas que nos mexem a nível psicológico (não só o assassinato e violação, mas também o incesto e a pedofilia). Os enjoos físicos são apenas para nos relembrar.

O filme titanic termina duma forma idêntica: uma espécie de foto de gala, apesar de sabermos que a maioria tinha morrido naquelas condições.
Outro filme, recente e do qual não me recordo o nome, provocou imensos enjoos com pessoas a terem de abandonar a sala, por não aguentarem os movimentos de camera (o filme é mostrado como se fosse filmado por um dos personagens).
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Mensagempor Ana Rita » quinta out 30, 2008 10:57 am

Garanto-te mariapsi, que os meus enjoos não foram pelos movimentos da camera! :D
Se caíres sete vezes, levanta-te oito.
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Mensagempor mariapsi » quinta out 30, 2008 12:38 pm

Não me estava a referir a ninguém em particular, sobre os movimentos de camera. Também me senti indisposta. Primeiro com a camera e a longo do tempo com o argumento (não no sentido de ser um mau argumento! :lol:).
O que quis dizer é que os dois, causam uma repusa psicológica e física (e quanto à fisica é instintivo ou pouco racional, não há muito que possam fazer). Tenho a certeza que essa opção foi consciente, por parte do realizador. Bem como outras técnicas, por exemplo, as 2 famosas cenas são filmadas sobre 2 planos próximos, como que nos colocando na cena. E aí surgem sentidos de impotência para alterar a situação (ok, é apenas um filme, eu sei). São 2 espaços fechados (bar e túnel), donde deriva a sensação de poucas possibilidades de fuga. E mais coisas, certamente. Já o vi há bastante tempo...

ps: enjoos complementado por esse enorme sorriso, só me resta desejar-lhe parabéns! :wink: :P
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Mensagempor Skydin » quinta out 30, 2008 2:17 pm

mariapsi

concordo plenamente que o objectivo inicial do filme possa ter sido o que diz:
Não vi o final como uma tentativa de amenizar o drama, bem pelo contrário, quando se percebe que ela estaria grávida é como se tudo desabasse entre sentimentos de raiva e injustiça.


No entanto, achei-o tão pouco estruturado que, como referi anteriormente, receei que alguns espectadores fossem terminar tal como indicou a Cristina Silva, com o "aconchego" que me parece despropositado após o tipo de se filme que é desenvolvido. Ao verificar que de facto existem espectadores com este sentimento, confirmo que o filme não é passado em pleno como pretende, a não ser que também seja pretendida a sensação agradável. Salvaguarda-se, claro, a interpretação de cada um, no entanto, acredito realmente como já disse, que, sem qualquer ambiente Hollywoodesco, o filme poderia chocar de outras formas. O Crash, menos europeu, mas dentro de Hollywood, pouco Hollywood, passa perfeitamente as mensagens que pretende, de um modo incomodativo, quase que vivemos as histórias, sem recorrer a este possível "bem-estar". Mas como este outros tantos. Podia ter obtido criticas e ser controverso, de uma forma perfeitamente eficaz.
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Mensagempor Cristina Silva » quinta out 30, 2008 2:24 pm

Skydin Escreveu:Aproveito para deixar a dica sobre a série In Treatment, baseada na aclamada série israelita Betipul.

SPOILER!!SPOILER!!SPOILER!!SPOILER!!SPOILER!!SPOILER!!SPOILER!!
8)
Quanto è referência feita por Cristina Silva ao filme "Irreversível",


Como não vi "a pianista", não posso comparar, mas o "Irreversível", tem uma das cenas mais impressionantes que também já vi em cinema (é um filme que nos incomoda, tendo um início alucinante (eu estava a vê-lo deitada no sofá e tive de me sentar porque senão não aguentava aquele início. Consegui suportar e vi-o até ao fim, final que acaba por nos dar algum aconchego (pois traz alguma beleza) depois de um percurso altamente perturbante durante todo o filme).


Tenho de discordar em absoluto e é com pena que leio que de facto, o que receei que fosse acontecer com alguns espectadores, após ter visto este filme, efectivamente aconteceu. Ou seja, acho inacreditável que alguém sinta "algum aconchego (pois traz alguma beleza)", simplesmente por o filme terminar com uma cena bonita que é a Monica Bellucci num parquezinho todo florido, onde descobrimos que está grávida. Atendendo a que o filme é contado de trás para a frente, no final do filme, após a "chicotada" emocional e quase física a que somos submetidos o filme todo, ainda ficamos a saber que toda a violação e violência que aconteceu a esta mulher, foi enquanto a mesma estava grávida, pelo que moralmente ainda consegue ser mais aterrador, se imaginarmos o sofrimento que isto lhe acresceu durante a violação.
Infelizmente, o filme está mal executado e originar repulsa física, ao ponto de sentirmos vómitos, repugna e agonia física, por mais que achem que torna o filme bem conseguido e realista, não são suficientes para eliminar este facto. No qual passamos uma hora e meia alucinante, a interpretar até onde chega o sofrimento humano, e ainda têm a lata de nos tentar deixar com um "aconchego"?... Na minha opinião só agravou a pobre transmissão que o filme pretendia passar, o que Gaspar Noé fez, poderia ter sido realizado de outra forma, igualmente marcante, muito melhor estruturada mas menos "enjoativo". É a minha humilde opinião! :wink:


Quando falo em algum aconchego, tem a ver com o visual. No final do filme (que é o princípio), pelo menos as imagens não são tão brutais. É nesse sentido que falo. Todo o filme a levar com imagens tão brutais, no final as imagens aconchegam o olhar, não querendo com isso dizer que aconchega o sentir. Mas acho que o final atenua a paulada. Se acabasse como começou tenho a impressão que saíam todos do cinema de gatas e agarrados à barriga (passo o exagero).

Quanto à forma como ele conta a história, acho que está de facto muito bem conseguido, pois se a sequência fosse "direitinha", do início para o fim, acho que seria mais insuportável e o filme perderia a originalidade.
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Mensagempor Cristina Silva » quinta out 30, 2008 2:34 pm

Skydin Escreveu:mariapsi

concordo plenamente que o objectivo inicial do filme possa ter sido o que diz:
Não vi o final como uma tentativa de amenizar o drama, bem pelo contrário, quando se percebe que ela estaria grávida é como se tudo desabasse entre sentimentos de raiva e injustiça.


No entanto, achei-o tão pouco estruturado que, como referi anteriormente, receei que alguns espectadores fossem terminar tal como indicou a Cristina Silva, com o "aconchego" que me parece despropositado após o tipo de se filme que é desenvolvido. Ao verificar que de facto existem espectadores com este sentimento, confirmo que o filme não é passado em pleno como pretende, a não ser que também seja pretendida a sensação agradável. Salvaguarda-se, claro, a interpretação de cada um, no entanto, acredito realmente como já disse, que, sem qualquer ambiente Hollywoodesco, o filme poderia chocar de outras formas. O Crash, menos europeu, mas dentro de Hollywood, pouco Hollywood, passa perfeitamente as mensagens que pretende, de um modo incomodativo, quase que vivemos as histórias, sem recorrer a este possível "bem-estar". Mas como este outros tantos. Podia ter obtido criticas e ser controverso, de uma forma perfeitamente eficaz.


Mas o Crash (filme excepcional), é outra dinâmica e remete-nos para o pensamento. Ou seja, é um filme para a mente, enquanto que no Irreversível a ideia é mesmo incomodar fisicamente, revolver as "entranhas", o que é de facto conseguido.
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Mensagempor Skydin » quinta out 30, 2008 4:02 pm

Cristina Silva

Na minha opinião o Crash também consegue irritar até as entranhas :shock: O pensamento é tão poderoso 8) que nos pode levar a somatizar qualquer sensação física... É mais nesse sentido que o refiro como exemplo para o que pretendo dizer.

E é contra essa sensação de aconchegar seja o que for, mesmo que só o olhar (uma vez que percebemos a gravidade aumentada do que se passou, pela gravidez) que me insurgi mais neste filme. Achava preferível que, depois do filme visto, viéssemos todos " todos do cinema de gatas e agarrados à barriga (passo o exagero)" como indica. Mas também gostei do modo como o filme foi contado ao contrário, temporalmente, acentua a intensidade.
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Mensagempor Cristina Silva » quinta out 30, 2008 4:30 pm

Skydin Escreveu:Cristina Silva

Na minha opinião o Crash também consegue irritar até as entranhas :shock: O pensamento é tão poderoso 8) que nos pode levar a somatizar qualquer sensação física... É mais nesse sentido que o refiro como exemplo para o que pretendo dizer.

E é contra essa sensação de aconchegar seja o que for, mesmo que só o olhar (uma vez que percebemos a gravidade aumentada do que se passou, pela gravidez) que me insurgi mais neste filme. Achava preferível que, depois do filme visto, viéssemos todos " todos do cinema de gatas e agarrados à barriga (passo o exagero)" como indica. Mas também gostei do modo como o filme foi contado ao contrário, temporalmente, acentua a intensidade.


Se calhar estamos a falar de Crash´s diferentes. Eu estou a falar do de Paul Haggis e que ganhou o oscar em 2006 e não o de David Cronenberg (esse mais antigo)
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Mensagempor Skydin » sábado nov 01, 2008 3:24 pm


Cristina Silva,


Não sei, do que eu disse, o que a leva a sugerir que eu possa estar a falar do Crash (1996) de David Cronenberg. Quando uso o Crash como um exemplo, estou a referir-me ao Crash (2004) de Paul Haggis. Esse é o crash que tão bem conseguido nos leva a pensar, e por conseguinte, a sofrer, com o que se passa, pela atrocidades de determinadas situações.
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Mensagempor Cristina Silva » sábado nov 01, 2008 4:38 pm

Skydin Escreveu:
Cristina Silva,


Não sei, do que eu disse, o que a leva a sugerir que eu possa estar a falar do Crash (1996) de David Cronenberg. Quando uso o Crash como um exemplo, estou a referir-me ao Crash (2004) de Paul Haggis. Esse é o crash que tão bem conseguido nos leva a pensar, e por conseguinte, a sofrer, com o que se passa, pela atrocidades de determinadas situações.


Mas não nos repulsa como acontece com o irreversível. O crash do Paul Haggis é um filme que mexe com os neurónios e não com os intestinos. Para mim é um filme excepcional a todos os níveis, enquanto o irreversível só o considero bom pela forma cinematográfica diferente e pelo facto de levar os espectadores a incómodos físicos. Como não acho que o incómodo físico se passe ao mesmo nível no crash de 2006, pensei que poderia estar a referir-se ao do Cronenberg. Está desfeita a dúvida.
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Mensagempor Ana Rita » sábado nov 01, 2008 9:39 pm

Estou plenamente de acordo. Gostei muito mais do Crash, mas tal como gostei por exemplo da torre de babel ou do magnólia. O irreversível mexe com as entranhas e faz-nos sentir o sofrimento do outro sem ser no plano simbólico.

Atenção que não considero que devam andar por aí a proliferar filmes como o irreversível, muito pelo contrário. É um filme até bastante desorganizador. É preferível acedermos a outras emoções, precisamente no plano simbólico, senão era masochismo... mas não deixa de ser enriquecedora uma experiência cinematográfica diferente.
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Mensagempor Cristina Silva » domingo nov 02, 2008 3:25 pm

Ana Rita Escreveu:Estou plenamente de acordo. Gostei muito mais do Crash, mas tal como gostei por exemplo da torre de babel ou do magnólia. O irreversível mexe com as entranhas e faz-nos sentir o sofrimento do outro sem ser no plano simbólico.

Atenção que não considero que devam andar por aí a proliferar filmes como o irreversível, muito pelo contrário. É um filme até bastante desorganizador. É preferível acedermos a outras emoções, precisamente no plano simbólico, senão era masochismo... mas não deixa de ser enriquecedora uma experiência cinematográfica diferente.


Ora nem mais.
Sublino as referências: Babel e o já histórico Magnólia!

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