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Máquinas da natureza

2015
sara.ferreira@wonderfeel.pt
Psicóloga. Psicoterapeuta. Membro da coordenação terapêutica do Centro WONDERFEEL - Um Novo Bem-Estar. Membro efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses
Publicado no Psicologia.pt a:

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Máquinas da natureza

 

Tudo na natureza tem como propósito economizar energia.

Assim se passa com o nosso cérebro! Se ele estiver habituado com um tipo de situação e se sentir “vivo” naquele tipo de situação, então tendencialmente será para essa mesma situação que ele se (nos) guiará automaticamente.

Literalmente, os nossos cérebros são maquinaria natural de ponta, sofisticadíssima, que nenhuma tecnologia até hoje conseguiu reproduzir (mas continua-se a tentar! ;)).

Você já se deve ter apercebido como na maioria das vezes os nossos pensamentos pura e simplesmente “nascem” nas nossas cabeças. Sem qualquer ordem nossa. Por outro lado, o cérebro faz aquilo a está “acostumado”. Por exemplo, se estimularmos certas áreas ou partes (como por exemplo a área da linguagem, do movimento, da audição, da visão, etc.) moldamos o nosso cérebro para um melhor desempenho nas mesmas, dando-lhes as bases para naturalmente ele saber activar umas e inibir outras.

O cérebro é uma máquina natural totalmente programável. Não no mau sentido. Com “jeitinho” podemos usar essa particularidade a nosso favor. Por exemplo, controlar certos “acontecimentos” mentais poderá ser uma grande chave para você começar a fazer coisas que não fazia (ou achava não saber fazer) antes. Ou então, não se desgastar tanto emocionalmente ou sentir negativamente determinadas coisas.

O cérebro serve para apreender e descodificar informação do real. E existem predominantemente duas grandes áreas na forma como o nosso cérebro a processa. O lado esquerdo e o lado direito. Simples, não é? Mais ou menos! Existem diferenças importantes entre um e outro.

Tentando resumir, o hemisfério esquerdo está relacionado com a seriação proporcional, coordenação sequencial e analítica de estímulos. Noutras palavras, é a parte ligada à lógica, aos factos, raciocínio linear, à estratégia, letras, números, símbolos.

O hemisfério direito é responsável por nos trazer aportes de informações não-verbais (faces, formas geométricas, figuras espaciais e música). Dito de outra forma, tudo o que tem a ver com a emoção, atribuir significado aos factos, estados afectivos, sensações. Basicamente, paixão, criatividade, intuição, e por aí fora…

Enquanto o julgamento métrico é uma função esquerda, discernir qual entre dois objectos está mais próximo é função direita. Embora os dois hemisférios cerebrais trabalhem de maneira conjunta e complementar, existem diferenças no que se refere ao processamento dos vários tipos de estímulos. Há pessoas que tendem a usar predominantemente ou “um” ou o “outro” hemisférios cerebrais, por vezes tendo alguma dificuldade em harmonizá-los ou articulá-los, pondo-os em maior comunicação um com o outro.

Como em tudo na vida, é no meio que se encontra o equilíbrio, pelo que sabermos “funcionar” tanto com o lado esquerdo como com o lado direito dos nossos cérebros só nos poderá trazer maiores vantagens no dia-a-dia. Em que aspectos? Muitos. Mas se imaginar o hemisfério esquerdo como sendo uma “casa” e o hemisfério direito como sendo o “ar livre”, sabemos que tanto um como o outro são importantes para a nossa integridade, saúde e bem-estar. Quando chove, dá jeito ter uma “casa” por perto para nos abrigar, da mesma forma que quando faz bom tempo, sabe-nos melhor estar ao “ar livre” e não fechados… O que é que isto quer dizer na prática? Ora bem! Que não devemos dar “dominância” a um em detrimento do outro. Ou ficarmos “reféns” de só um dos lados. Todos “funcionamos” melhor quanto mais integrados estivermos entre estes dois hemisférios. E muitas vezes verificamos que os cérebros de muitas pessoas vivem condicionados.

Num tempo cheio de desafios, sair de estados de condicionamento é fundamental para alcançamos o que desejamos e ultrapassar as dificuldades que nos são apresentadas diariamente. Quando estamos num qualquer estado de condicionamento, sem usar de todo o potencial da nossa “máquina natural”, percebemos menos as possibilidades que a vida nos oferece. Assim, “olearmos” as nossas máquinas (corpo e mente) de uma forma mais sistémica e unificadora mostra-se como sendo muitíssimo mais eficaz nos nossos processos de crescimento pessoal.

E há vários exercícios que se podem fazer para integrar os hemisférios do nosso cérebro. E quer saber mais? Quando perceber finalmente que tem ao seu dispor todas as ferramentas que o ajudam a ampliar o seu poder escondido debaixo da “sujeira” que se acumula do quotidiano, compreenderá que tomar as rédeas da nossa mente e do nosso corpo torna-se essencial para estar bem e atravessar uma das pontes mais difíceis de se atravessar: a ponte que nos leva de quem somos e onde estamos para quem desejamos ser e onde desejamos chegar.

 

Sara Ferreira

Sara Ferreira é psicóloga, psicoterapeuta, com formações especializadas na área da Psicologia Clínica e da Saúde e Psicologia Comunitária, sendo actualmente também autora e co-autora em diversas publicações técnicas e científicas de renome, assim como portais de referência na área da Psicologia, desenvolvimento pessoal, saúde e bem-estar. Membro Efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Licenciada em Psicologia Aplicada pelo ISPA – Instituto Superior de Psicologia Aplicada, com experiência curricular e profissional no acompanhamento psicológico de utentes (ambulatório e consultas externas) na Unidade de Psicologia do Hospital de Santa Marta em Lisboa, exercendo actualmente a sua prática clínica maioritariamente em contexto privado. Colaborou como psicóloga na Direcção de Serviços de Psiquiatria e Saúde Mental da Direcção-Geral da Saúde, e em diversos projectos da Comissão Europeia, nomeadamente nas redes EAAD – European Alliance Against Depression e IMHPA – Implementing Mental Health Promotion Action, tendo também colaborado na preparação e edição do Programa Nacional de Luta Contra a Depressão, no contexto de programas prioritários do Plano Nacional de Saúde 2004-2010. Colaborou no Grupo de Coordenação da Saúde, no contexto da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, tendo também desempenhado funções de investigadora em diversos projectos de investigação e grupos de trabalho nacionais e internacionais sobre boas práticas em saúde mental e na área da Psicologia da Saúde, nomeadamente, a European Health Psychology Society.

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