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O que há de positivo na Psicologia Positiva? - A controvérsia de uma designação/adjectivação

2013
rita.barros@gaia.ipiaget.org
Professora Adjunta do Instituto Piaget. Licenciada e Mestre em Psicologia (especialização em Psicologia e Saúde) pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Porto. Possui Diploma de Estudos Avançados em Desenvolvimento Pessoal e Intervenção Social pelo Departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação da Universidade de Valência. É Doutorada em Ciências da Educação pela Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Santiago de Compostela.

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O que há de positivo na Psicologia Positiva? - A controvérsia de uma designação/adjectivação

Embora a designação de Psicologia Positiva esteja generalizada junto da comunidade científica, a adjectivação da Psicologia (positiva versus negativa) pode levantar algumas questões conceptuais que merecem alguma reflexão e que passo a equacionar.

Se o julgamento do que é positivo tem que estar referenciado a um quadro de valores e a um sistema de normas culturais, aquilo que na literatura é considerado "positivo" não se trata necessariamente de um processo universal. Seria caso para perguntar: ” Positivo para quem?”

O que designamos por "positivo" não é uma mera ausência do "negativo", portanto esta conceptualização dicotómica da Psicologia parece-me, desde logo, simplista e redutora. Por exemplo, ser feliz não é sinónimo de ausência de infelicidade. Por outro lado, de acordo com o sujeito, circunstâncias e momento temporal, os aspectos positivos podem ser nefastos e os aspectos aparentemente negativos podem afigurar-se funcionais e adaptativos. Muitos dos temas retratados nas investigações são apresentados com uma conotação negativa, sem que haja referência, pelo menos explícita, às suas funções positivas. Parece que os investigadores ainda “… tendem … a ver muito negativamente o que tendemos a chamar de negativo, como se, por exemplo, não houvesse também aspectos positivos na tristeza que um dia nos invade, na ansiedade que nos assalta em certas ocasiões, ou na tensão que certos acontecimentos nos provocam” (Lourenço, 2000, p. 229). Se olharmos para a ansiedade, por exemplo, não podemos desprezar a sua importantíssima função adaptativa, quer na filogénese humana, quer na ontogénese. Mas quando a literatura retrata a ansiedade, fá-lo quase sempre numa perspectiva de disfuncionalidade, em que, ao deixar de cumprir a sua função adaptativa, compromete o adequado funcionamento do sujeito.

As virtudes e potencialidades incluídas nas múltiplas definições de Psicologia Positiva, pressupõem que as fraquezas humanas são disfuncionais, mas alguns autores (e.g. Held & Bohart, 2002) têm vindo a sublinhar o papel positivo que alguns aspectos negativos do funcionamento psicológico podem assumir, pelo menos circunstancialmente.

Assim sendo, entenda-se o "positivo" como complexo e multidimensional, pressuposto que aliás deverá estar subjacente, no meu entender, quer às abordagens teóricas, quer aos estudos empíricos. Estes estudos pretendem, em última instância, contribuir para que as pessoas possam tomar decisões de maneira mais informada. Em todo o caso, a Psicologia Positiva afigura-se com um carácter descritivo e não prescritivo, não se encontrando um posicionamento teórico acerca da desejabilidade das diferentes escolhas. Ora se assim é, teremos que compreender de forma rigorosa a designação de Psicologia Positiva, pois se a ciência psicológica pretende ser factual, isto é direccionada aos fenómenos em si e não ao modo como os fenómenos “deveriam ser”, então serão igualmente importantes, em termos de pesquisa científica, os fenómenos rotulados de positivos e negativos (Lourenço, 2000). A construção de uma necessária matriz empírica aparece então com intuitos descritivos, no sentido de informar os sujeitos das suas escolhas ao longo da vida e não para definir trajectórias de vida ideais ou desejáveis, até porque seriam sempre questionáveis e discutíveis. Mais que não seja, os conceitos de equifinalidade e multifinalidade, explorados no âmbito da Psicologia do Desenvolvimento, facilitam a compreensão da diversidade inerente aos processos de desenvolvimento. Em todo o caso, Seligman e Csikszentmihalyi (2000) sugerem um hipotético papel prescritivo, à semelhança da Psicologia Clínica, que não só descreve estratégias de minimização das manifestações psicopatológicas, como também considera desejável a sua implementação e concretização.

No sentido de uma maior clareza conceptual, penso que a mais valia da Psicologia Positiva reside na unificação de teorias e de diferentes pesquisas centradas sobre aquilo que torna a vida mais digna de ser vivida.

Não sendo o "positivo" não é uma mera ausência do "negativo", tomo de empréstimo a ideia de Sheldon & King (2001), ao considera que a Psicologia Positiva é simplesmente Psicologia.

 

Bibliografia:

Held & Bohart (2002). Introduction: The (overlooked) virtues of “unvirtuos” attitudes and behavior: Reconsidering negativity, complaining, pessimism and “false” hope. Journal of Clinical Psychology, vol. 58, 961-964.

Lourenço, O. (2000). Orientação para o positivo e para o negativo: Um caso especial de assimetria no comportamento humano. Psicologia, Educação e Cultura, vol. IV, nº 2, 227- 241.

Seligman, M. & Csikszentmihalyi, M. (2000). Positive Psychology. American Psychologist, Volume 55, nº 1, p. 5-14.

Sheldon. K. & King, L. (2001). Why positive psychology is necessary. American Psychologist, vol. 56, nº 3, p. 216-217.

 

Rita Barros

Rita Barros é Professora Coordenadora do Instituto Piaget, sendo responsável pelas unidades curriculares da área científica da Psicologia. É Licenciada e Mestre em Psicologia (especialização em Psicologia e Saúde) pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Porto. Possui Diploma de Estudos Avançados em Desenvolvimento Pessoal e Intervenção Social pelo Departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação da Universidade de Valência. É Doutorada em Ciências da Educação pela Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Santiago de Compostela. É Membro Efectivo da Ordem dos Psicólogos, com larga experiência profissional como psicóloga, quer em contexto hospitalar e de clínica privada, quer ao nível da intervenção comunitária.

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