A mentira

As diferentes correntes e modelos teóricos. Novas abordagens e novos contextos de intervenção. A teoria e a prática, os conceitos e as estratégias. Preocupações éticas e deontológicas. etc.

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reis
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A mentira

Mensagempor reis » segunda abr 28, 2008 10:57 pm

Boa noite
Estou a acompanhar uma rapariga que tem necessidade de mentir.No meu ponto de vista, está um quadro de esquizofrenia...mas gostava de ouvir as vossas opiniões.Até que ponto se podem cruzar?
Podem indicar algum manual para eu aprofundar ainda mais este tema?
Alguém já teve algum caso assim?
Obrigada a todos.
Cristina Silva
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Mensagempor Cristina Silva » terça mai 06, 2008 12:01 pm

Reis, é pouco o que nos diz mas pode ler coisas sobre a MITOMANIA, para ver se o quadro se insere em tal.

Cristina Silva
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Re: A mentira

Mensagempor Sete-Luas » terça mai 06, 2008 12:38 pm

Antes de pensar logo numa Psicopatologia, deverá ter em conta o próprio desenvolvimento da criança, nomeadamente a sua idade (aspecto ecuménico). Desta forma, a mentira antes dos seis/sete anos é entendida como lúdica, uma vez que proporciona a distinção entre o mundo interno da criança e o mundo externo. Ou seja, mentir até esta idade é normativo e não é entendida nos mesmos moldes que o é no adulto.

Um segundo aspecto a considerar é a natureza da mentir: ocasional (que é normativa) ou sistemática. Só na verificação de mentira sistemática é que podemos colocar a hipótese de Psicopatologia.

Para concluir, existem três tipos de mentira: utilitária, compensatória ou, tal como disse a Cristina Silva, a mitomania.
Última edição por Sete-Luas em quinta mai 08, 2008 1:56 pm, editado 1 vez no total.
Hugo
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Boa tarde

Mensagempor Hugo » quinta mai 08, 2008 10:39 am

Oi colegas,

No consultório não tive ainda nenhum caso de mentiras extremas (pelo menos que me tenha apercebido), mas acompanhei um jovem num projecto de reinserção social como técnico social, onde constantemente me mentia.

Era um rapaz sozinho, enraivecido contra a mãe, que não conhecia o pai e que no primeiro dia que me conheceu me contou uma história maravilhosa em que ele estava quase na selecção de hoquei. Ao encontrar ali uma pessoa nova, que olhava para ele como pessoa a única arma que conseguiu (no seu sentimento) usar para me "captar" a atenção era mentindo...

Concordo com o Sete-Luas quando diz que não é preciso pensar logo em psicopatologia...

Como é que o colega percebeu as mentiras? a tal "rapariga" apercebeu-se já que o colega entende que ela mente? como é que é que essas mentiras o fazem sentir? Qual foi a razão de ir ao psicólogo?

Os diagnósticos são importantes porque nos permitem avaliar se o caso pode ser motivo de interenção da nossa parte enquanto psicólogos ou se é necessário reencaminhar, mas caso o problema não seja puramente fisiológico (ou mesmo que esteja a ser acompanhado por outro técnico), acho importante pensar sobre aquelas perguntas que me coloquei em cima.

Saber se a rapariga percebeu que sabe que lhe está a mentir não é o mais importante, acho que explorando como a mentira a SI o faz sentir pode conseguir empatizar mais com a rapariga e pensar sobre como este tipo de relação/mentira prejudica a RAPARIGA na sua vida. Mesmo que seja "esquizofrénica"... pode estar doente mas não a impede de sofrer...

Houve alguém uma vez que me disse que o Dr. João dos Santos dizia que quem rouba, rouba afecto. As mentiras fazem-me pensar na mesma onda... quem mente não se sente importante, mesmo que tenha ganhos com essas mentiras... se se mostrar como é deixa de receber esses ganhos... "deve ser assustador para si ser verdadeira" é uma frase que me cruza o pensamento.

Abraço e desculpe a dissertação lol, acho que é do tempo, faz-me engonhar na resposta.

Hugo.
Cristina Silva
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Mensagempor Cristina Silva » quinta mai 08, 2008 10:58 am

É isso mesmo Hugo, João dos Santos dizia: “o furto infantil é uma reacção de compensação à frustração afectiva, não sendo utilitário, mas generoso: a criança apropria-se de objectos … para simbolicamente se compensar, conquistando o amor que não recebe dos adultos….” (pág. 228 da “Vida, Pensamento e Obra de João dos Santos”, de Maria Eugénia Carvalho e Branco).

Na mesma onda, a mentira também se enquadra numa reacção de compensação à frustração afectiva.

Agora, tanto no furto como na mentira infantil, há que ter atenção para que não se tornem formas de comportamento patológico, e isso passa logicamente por perceber e trabalhar a frustração afectiva.

Hugo, espero que o tempo lhe dê mais vezes para dissertações destas! :wink:

Cristina Silva
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Mensagempor Ana Rita » quinta mai 08, 2008 1:45 pm

É através da mentira que nos apercebemos da verdade dessas pessoas. Costumo dizer que o que é mentira ou verdade não é em primeira instância o mais importante, mas sim saber qual a verdade que está dentro da pessoa. Muitas vezes a mentira revela-nos os desejos ou fantasias, assim como os medos e fantasmas.

Como algumas mulheres que nunca foram violadas, mas que vão ao psicólogo e passam várias sessões a relatar a angústia da sua violação imaginária. Não tenho dúvidas que a uma violação que nunca existiu possa ser igualmente sofrida e real. Confrontar a pessoa com a mentira quando esta não está preparada para a enfrentar pode por em causa o processo terapêutico.
Se caíres sete vezes, levanta-te oito.

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