Filha engana os pais intencionalmente

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Overnight
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Filha engana os pais intencionalmente

Mensagempor Overnight » quinta abr 28, 2011 10:18 pm

Peço a ajuda que me possam prestar para tentar perceber o mecanismo psicológico (se assim posso chamar) que poderá ter motivado a construção e manutenção da maior mentira que me aconteceu na vida.

Tenho uma filha com 25 anos que supostamente tinha concluido um curso superior. Comemorámos devidamente o feito (familia e amigos), e só após 1 ano acabámos por descobrir que faltavam disciplinas para a sua conclusão.

O problema só foi descoberto quando eu próprio fui à escola saber o estado do pedido de certificado habilitações.

Tentarei de seguida dar os dados que podem ser importantes para quem me quizer ajudar.

sobre os pais:

estou casado há 30 anos, em casamento unico.

temos outro filho, mais velho, que se licenciou e entrou de imediato no mercado de trabalho com sucesso, morando agora em residência própria, tendo uma relação normal com a irmã, mas a quem também nunca confessou.

nunca lhe faltou nada, assim como ao irmão. Digamos que o que teve um, teve o outro.

Sobre ela:

mora connosco. Regressou após o “final” do curso.

é como se costuma dizer do tipo "nariz empinado...sabe tudo", mas nem por isso deixámos sempre de a considerar uma boa filha e com quem tivemos sempre uma relação completamente "normal"...julgamos.

nunca foi uma muito boa aluna, mas ainda assim só teve de repetir matemática no 12 º ano, tendo-se nessa altura verificado um problema idêntico ao actual mas que julgávamos ter ficado resolvido.

tentou um 1º curso superior que não correu bem por alegar estar desajustado do que pretendia.

acabou por nos apresentar a alternativa de ir estudar para uma cidade do interior, nossa conhecida, para um curso em principio mais adequado para si, o que acedemos por nos parecer ser a possibilidade de lhe darmos um curso superior (objectivo de vida dos pais). Mais custos, mas talvez a unica alternativa.

factor provávelmente importante, namorou esses anos todos (4) com um rapaz dessa cidade, o que não nos levantou grande reserva por ser conhecido, ele e a familia. Tinhamos uma excelente relação com ele. Entretanto acabaram o namoro mas já depois do pretenso final do curso.

íamos frequentemente visitá-la e estar com ela, assim como o inverso nas férias escolares, além de telefonemas diários. Nunca esteve "abandonada".

teve de repetir o ultimo ano, segundo disse para acabar algumas disciplinas.

a situação arrastou-se porque não surgiu emprego que exigisse a apresentação desse documento e nós nem queriamos sequer pensar que poderia haver uma fraude destas...até há pouco tempo.

confrontada com a noticia, primeiro em contacto telefonico e depois frente-a-frente (diálogo com ponderação, ainda que forçada), pouco ou nada conseguimos obter, e pior que tudo nem um pedido de desculpas ou assumpção do erro.

até não ouvimos da sua boca que o curso não estava concluido, apenas o sim à afirmação feita por mim, ou seja, a ouvir quase sempre em silêncio, ela que tem uma boa fluência verbal e consideramos até por vezes "solta" de mais nesta matéria.

é uma rapariga sociável, com grupos de amigos que frequentam a noite aos fins-de-semana, dando até a sensação de após o regresso a casa ter-se libertado ainda mais.

contudo, fomos notando intranquilidade e reacções extemporâneas que nos pareciam de comprometimento.

fiz vários contactos directos para arranjar emprego para ela (licenciada), sempre com conhecimento dela, concluindo agora que ainda bem que não tiveram sucesso, pois criariam uma situação de consequências imprevisiveis para a minha pessoa e até na minha profissão..

está a trabalhar numa recepção, mas “oficiosamente”...sem descontar, portanto com precariedade absoluta, tendo sido ela a "chegar" ao lugar.

na conversa marcámos muito bem que aquilo que fez, recorrente e de forma agravada, é totalmente inaceitável, incompreensível, e de uma enorme injustiça sobretudo para os pais e irmão, e que a partir de agora a confiança não pode existir, continuando a ter, óbviamente, casa e roupa lavada como se costuma dizer.

Contudo, a porta fica entreaberta, no sentido de se quizer recuperar a nossa confiança terá de demonstrar inequivocamente que está a desenvolver esforços para arranjar emprego mais efectivo, mesmo que de dimensão inferior ao que quereria (?), estando fora de hipótese investirmos mais nos estudos.

Outra atitude que muito nos agradaria: deixar de fumar (outro hábito criado fora), que sempre considerei uma atitude estúpida, face ao conhecimento cientifico dos seus maleficios.

Estamos agora a lidar com uma rapariga com quem temos dificuldade de diálogo, ainda que anteriormente ele existisse, ainda que sobre coisas “sérias” ela por norma o rejeitasse.

Posto isto, que provávelmente será curto para traçar um perfil psicológico da minha filha, só gostaria de ter algumas dicas sobre o “mecanismo” que poderia ter motivado uma situação destas que achamos perversa e até maquiavélica.

Será uma incapacidade de lidar com a realidade ? de assumir os erros ? mas a sua inteligência, que julgamos existir, não previu as consequências visiveis e potenciais ? teve tantos dias para poder interromper o processo e não o fez à espera de quê ? ganhar tempo...para quê ? são só algumas das muitas interrogações e quase nenhumas certezas que temos.

Muito gostaria da v/ajuda, mesmo que em abstracto, por que só percebendo onde falhámos (de certeza) poderemos tentar corrigir, se formos a tempo.

Obrigado.
Carlos
Cristina Silva
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Re: Filha engana os pais intencionalmente

Mensagempor Cristina Silva » sexta abr 29, 2011 4:11 pm

Overnight Escreveu:
Posto isto, que provávelmente será curto para traçar um perfil psicológico da minha filha, só gostaria de ter algumas dicas sobre o “mecanismo” que poderia ter motivado uma situação destas que achamos perversa e até maquiavélica.

Será uma incapacidade de lidar com a realidade ? de assumir os erros ? mas a sua inteligência, que julgamos existir, não previu as consequências visiveis e potenciais ? teve tantos dias para poder interromper o processo e não o fez à espera de quê ? ganhar tempo...para quê ? são só algumas das muitas interrogações e quase nenhumas certezas que temos.

Muito gostaria da v/ajuda, mesmo que em abstracto, por que só percebendo onde falhámos (de certeza) poderemos tentar corrigir, se formos a tempo.

Obrigado.
Carlos


Boa tarde Carlos

Percebo a sua vontade em compreender o porquê do comportamento da sua filha, e perceber as motivações dela, pois deve estar muito zangado e com um sentimento de traição. Mas a resposta que pretende é dificil de dar pois não há "mecanismos" explicativos para uma situação relacional complexa, que aqui um pouco expõe.

Contudo, parece-me que continua a olhar para a sua filha como uma menina/rapariga, quando se trata de uma adulta a quem só a ela cabe decidir, escolher, falhar, errar e assumir as responsabilidades e consequências de todas essas decisões, pois só assim é que nos podemos tornar verdadeiros adultos livres e responsáveis.

O que pretendo dizer, é que a sua filha é mais do que apenas o "resultado da relação" que estabeleceram com ela, e não se deve pesar com esse sentimento de achar que falharam, pois como todos os pais e mães, fizeram o que acharam que seria melhor para ela. Mas chega uma altura que os pais e mães têm que se retirar e deixarem de funcionar pelos filhos, permitindo-lhes a eles o exercício pleno da sua condição de adulto, mesmo que as escolhas dos filhos adultos não vão de encontro ao que idealizámos para eles, e nos sintamos muito frustrados por isso e com perda de controlo sobre eles.

Se alguma coisa há para corrigir, não lhe cabe a si fazê-lo, pois assim vai continuar a substituir-se à sua filha, não lhe deixando espaço para o crescimento adulto, com todas as responsabilidades e complexidades que isso traz. Mas é ela que tem de enfrentar e resolver as coisas, e decidir sobre a sua vida. As exigências devem ser delas e não suas.

Sei que isto é dificil e angustiante, mas não vai resolver essa angústia enquanto não se deixar de responsabilizar por todos os actos da sua filha e pelas não conquistas que idealizou para ela. Mas pode sempre conversar com alguém sobre o que sente.

Cumprimentos
Cristina Silva
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Re: Filha engana os pais intencionalmente

Mensagempor Overnight » sexta abr 29, 2011 6:24 pm

Cristina,

Agradeco-lhe imenso a nota, que não só a compreendo como a subscrevo.

Quer isto dizer, que a termos esse comportamento que sugere, o mesmo é inconsciente. Mas é verdade que pode também passar por algo parecido com a tal "super-protecção" sobretudo da parte da mãe, mas tendo essa consciência não é de facto intencional.

Pelo contrário, sempre desejámos que fosse ela a decidir por si, mas claro que tentamos influenciar as suas escolhas (a tal "educação ?"). Onde está a fronteira entre as duas atitudes...é talvez a questão.

Uma coisa é certa, nunca impedimos que fizesse o que quizesse , mesmo o curso foi escolhido por ela. Forçada porque sabia da importância que atribuiamos a isso e pelo sucesso do irmão ? talvez, mas isso...seria um exemplo que se não fosse capaz de seguir deveria assumi-lo e...virava-se a agulha. Nem todos podem ser licenciados...estavamos preparados para isso. Ela sabia-o, tinhamos-lhe dito.

Nunca nos disse que não queria seguir os estudos assim como nunca vimos uma vontade efectiva de encontrar emprego.

É que as decisões serem dela...de acordo, o problema é que não estamos a ver nada de positivo e não conseguiremos assistir passivamente à ausência de sinais positivos e ainda mais depois da cena relatada. Mas claro que percebo o que diz na sua nota.

Enfim, é como diz um sentimento de frustração muito grande, sobretudo por não conseguirmos compreender o enredo que criou e manteve tanto tempo,
mas veremos o que isto vai dar.

Muito obrigado,
Carlos
Cristina Silva
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Re: Filha engana os pais intencionalmente

Mensagempor Cristina Silva » sábado abr 30, 2011 1:45 am

Overnight Escreveu:Cristina,

Pelo contrário, sempre desejámos que fosse ela a decidir por si, mas claro que tentamos influenciar as suas escolhas (a tal "educação ?"). Onde está a fronteira entre as duas atitudes...é talvez a questão.

Nunca nos disse que não queria seguir os estudos assim como nunca vimos uma vontade efectiva de encontrar emprego.

É que as decisões serem dela...de acordo, o problema é que não estamos a ver nada de positivo e não conseguiremos assistir passivamente à ausência de sinais positivos e ainda mais depois da cena relatada. Mas claro que percebo o que diz na sua nota.

Muito obrigado,
Carlos


Carlos, não tem nada que agradecer, eu é que agradeço estar aqui a partilhar os seus sentimentos.

Mas quando diz: "....sempre desejámos que fosse ela a decidir po si...." Essa é que é a questão dificil! onde está a fronteira entre as duas "atitudes": o nosso desejo e a realidade do outro!
No meu parecer, não há fronteira, deve haver é uma aceitação da realidade do outro (aceitar que a sua filha possa ainda não saber o que pretende, possa ainda não conseguir tomar decisões, que se sinta "pressionada" pelos desejos da família, que só consiga lidar com isso escamoteando a verdade...enfim, que se sinta perdida entre o seu eu e o eu dos outros significativos, exigentes de certas performances.....isso pode tornar-se uma carga incapacitante....levar a pessoa a sentir (no seu inconsciente) de que nunca será suficientemente capaz de agradar e realizar os desejos dos outros, adiando as "conquistas").

Mas de facto, tudo o que não é consciente, não é intencional, e quanto a isso não tem sequer de se justificar. Se fosse intencional, não seria inconsciente.
É interessante ter referido a "super-protecção". Melhor que ninguém, o Carlos poderá pensar no significado e consequências disso (e parece-me que já está a pensar!).

Até amanhã (ou outra manhã qualquer).
Cristina Silva
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Re: Filha engana os pais intencionalmente

Mensagempor Overnight » sábado abr 30, 2011 10:54 am

Cristina Silva Escreveu:...que só consiga lidar com isso escamoteando a verdade...enfim, que se sinta perdida entre o seu eu e o eu dos outros significativos, exigentes de certas performances.....isso pode tornar-se uma carga incapacitante....levar a pessoa a sentir (no seu inconsciente) de que nunca será suficientemente capaz de agradar e realizar os desejos dos outros, adiando as "conquistas").

Gostei especialmente desta parte. Poderá ser à volta disto que o problema se desenvolveu...digo eu.
Apenas estou inconformado porque sempre rejeitei a ideia dos super-filhos, super-dotados, pelo que não terei passado essa mensagem, mas lá está, também não seria por aí.
Como diz, poderá ser um "simples" sentimento de incapacidade de nos agradar, mas é pena que numa situação destas a pessoa não assuma uma posição tipo "não quero (ou não dá) ir por aí" apresentando alternativas ou, pelo menos, procurando. É complicado...só pode.
Até já...se poder ser.
Carlos
Cristina Silva
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Re: Filha engana os pais intencionalmente

Mensagempor Cristina Silva » sábado abr 30, 2011 1:59 pm

Overnight Escreveu:
Apenas estou inconformado porque sempre rejeitei a ideia dos super-filhos, super-dotados, pelo que não terei passado essa mensagem, mas lá está, também não seria por aí.
Como diz, poderá ser um "simples" sentimento de incapacidade de nos agradar, mas é pena que numa situação destas a pessoa não assuma uma posição tipo "não quero (ou não dá) ir por aí" apresentando alternativas ou, pelo menos, procurando. É complicado...só pode.
Até já...se poder ser.

Carlos


Percebo o seu incoformismo! E é de facto complicado. São muitos os sentimentos que se misturam, e aqui só podemos supor o que se passa na cabeça da sua filha, pois só ela é que pode dizer dos seus sentimentos. Espero que um dia consigam conversar aberta e sinceramente para que se possam compreender mutuamente.

Um bem haja Carlos.
Cristina Silva

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