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A arte de sobreviver a ambientes tóxicos

2018
joana_s.j_rodrigues@hotmail.com
Psicóloga clínica
Publicado no Psicologia.pt a: 2018-06-25

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A arte de sobreviver a ambientes tóxicos

O ser humano é um ser fantástico! Tem uma enorme capacidade de adaptação. No entanto, essa adaptação pode criar dificuldades de se avançar em determinados momentos da vida.

Uma criança nasce e entra em contacto com o Mundo através dos seus cuidadores, esses são os modelos e através destes a criança vai aprendendo e desenvolvendo-se. À medida que este desenvolvimento vai acontecendo, a criança / adolescente / jovem / adulto, vai-se apercebendo que o modelo parental (ou de outros cuidadores) pode não ter sido efectivamente o mais saudável e vai acabando por desenvolver estratégias para se adaptar ao meio onde está inserido.

O conceito de sobrevivente não tem que ser utilizado apenas para as situações de guerras ou de grandes traumas. Uma criança que vive num meio onde existe negligência ou algum tipo de abuso (violência física, violência verbal...), não sabendo o que fazer, pode desenvolver várias estratégias para "sobreviver", com o objectivo de se cuidar e se equilibrar. Se pensarmos numa criança de 10 anos que não tem afecto porque os pais são emocionalmente ausentes, esta criança vai naturalmente tentar proteger-se e, apesar de se sentir sozinha e indefesa, irá desenvolver formas para superar a dor / tristeza / revolta. Contudo, uma criança de 10 anos desenvolve as estratégias que é capaz nessa idade. Mas, o que vai acontecendo a essa estratégia à medida que vai crescendo?

Um adulto "sobrevivente" a experiências de vida emocionalmente duras tende a ir evoluindo as estratégias que foi criando em criança, tende a adaptá-las... Contudo, muitas vezes fica preso a estas, mesmo quando o contexto é diferente. Muitas vezes este adulto pode activar as estratégias de defesa (protecção) quando sentir que existe algo idêntico às situações "difíceis" que viveu. O medo do abandono, o medo da indiferença, o medo da crítica são receios muito comuns em adultos que, de alguma forma, sentiram que viveram uma infância marcada por falta de afecto e atenção, ou até mesmo negligência e abuso.

Muitas vezes estes adultos conseguem ser perfeitamente funcionais e terem uma vida totalmente equilibrada. Contudo, nas relações mais íntimas, de relacionamentos mais próximos, podem surgir as estratégias que se habituaram a usar naquele determinado contexto mais adverso... e é essencial a consciência de que o contexto, sendo totalmente diferente, necessita de estratégias também elas totalmente renovadas. Não fará muito sentido (racionalmente falando) que uma pessoa não partilhe a responsabilidade de algo importante com o seu/sua companheiro/a, porque tem dificuldade em confiar, sendo que a estratégia que utilizou durante muito tempo foi simplesmente contar consigo próprio...

 

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

Joana de São João Rodrigues

Joana de São João Rodrigues é Psicóloga, Membro Efetivo da Ordem dos Psicólogos e especialista em Psicologia Clínica e da Saúde. Possui licenciatura e mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. É Pós-Graduada em Educação Social e Intervenção Comunitária e Membro Associado da Associação Portuguesa de Terapias Comportamental e Cognitiva. É Formadora Certificada pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e pelo Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua. Desenvolveu actividade clínica de apoio a doentes com doença oncológica e seus familiares no Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil do Centro Regional de Oncologia de Lisboa, no Serviço da Clínica da Dor. Deu apoio psicológico às famílias e crianças com cardiopatias congénitas internadas no Hospital Vall d'Hebron para cirurgia através da Associació d'ajuda als Afectats de Cardiopaties Infantils de Catalunya (Associação de ajuda aos Afectados por Cardiopatias Infantis da Catalunha), em Barcelona. Desenvolveu actividade de apoio às necessidades das mulheres vítimas de violência doméstica/abuso sexual, pela Associação de Mulheres Contra a Violência, em Lisboa. Esteve integrada em diversos projectos de Cooperação Internacional, onde deu formação na área da promoção da saúde em Angola e Guiné-Bissau. Desde 2011 exerce clínica privada com jovens, adultos e seniores, e é técnica de cuidados continuados integrados de saúde mental na Associação para o Estudo e Integração Psicossocial, em Lisboa. Desde Março de 2016 que integra a Equipa da ClaraMente - Serviços de Psicologia Clínica e Psicoterapia, com o objectivo de promover a saúde mental e a qualidade de vida, disponibilizando serviços de Psicologia Clínica e Psicoterapia em consultório, domicílio e via online.

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