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A maior mentira das histórias de amor: “Quero alguém que seja honesto e que se sinta livre para dizer o que pensa!”

2017
lmaia@ubi.pt
Licenciado em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade do Minho. Mestre em Neurociências pela Faculdade de Medicina de Lisboa. Doutorado em Neuropsicologia pela Universidade de Salamanca. Especialista em Neuropsicologia e Psicobiologia pela Universidade de Salamanca. Pós-Doutorado em Ciências Médico-Legais pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar. Docente universitário no Departamento de Psicologia e Educação da Universidade da Beira Interior. Neuropsicólogo e psicólogo clínico (prática privada). Editor associado da "Revista Psicologia e Educação" (UBI). Editor da “Iberian Journal of Clinical & Forensic Neuroscience” (Portugal). Editor da RUMUS "Revista Científica da Universidade do Mindelo" (Cabo Verde)

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A maior mentira das histórias de amor: “Quero alguém que seja honesto e que se sinta livre para dizer o que pensa!”

“A formosura da alma campeia e denuncia-se na inteligência,

na honestidade, no reto procedimento, na liberalidade e na boa educação”.

 

Miguel de Cervantes (1605)

 

Inicio este texto com aquilo que tem sido uma dimensão de grande complexidade para o meu entendimento, mesmo quando chego a ficar perplexo pela simplicidade da questão que aqui trago hoje à discussão: afinal de contas, queremos lidar com pessoas emocional e psicologicamente honestas, ou essa é uma mentira que vamos, de forma mais ou menos descarada, defendendo que é o que queremos; mas depois, quando encontramos alguém que nos trata assim, com honestidade psicológica e emocional, de forma cândida e tranquila, o que fazemos? A maioria foge!

Como dizia Umberto Eco (2014) “Talvez a missão daqueles que amam a Humanidade seja fazer com que as pessoas se riam da verdade, porque a única verdade consiste em aprender a libertar-nos da paixão insana pela verdade”.

Talvez Umberto Eco tenha razão ao relativizar a noção de verdade. Mas aquilo para o qual aqui chamo a atenção é a expressão da honestidade emocional e psicológica, entre, por exemplo, pai e filho, entre um casal, etc. Não se trata de verdade absoluta, mas sim de honestidade (mesmo que o honesto, possa estar equivocado).

 

Quando muitos seres humanos iniciam uma relação, na minha opinião, correm o risco de cometerem um erro gravíssimo, desde o verdadeiro início da relação: partem do princípio que os valores e opiniões de cada um devem chegar para assegurar que a relação dê certo. Afinal, cada um de nós tem a tendência de olhar para si próprio como uma pessoa equilibrada e, por isso, a sua forma de ver a vida, e logo as relações, deve chegar e sobrar para que esta nova relação tenha tudo para dar certo. Quando isso acontece, a pessoa pode estar a cometer um grande erro: esquecer que uma relação, por definição é, no mínimo, a dois, e por isso a outra pessoa também traz para este novo relacionamento o seu historial de vida, as suas aprendizagens, a forma como vive; e isso é impossível de apagar.

Aplicado a este ponto, Søren Kierkegaard tem uma frase belíssima: o autor diz que o ser humano está amaldiçoado a uma verdade inquestionável, que é o facto de apenas poder interpretar a sua vida, de trás para a frente (ou seja, analisando o que já viveu). Todavia, o grande desafio da sua vida é que, todos os dias, tem que viver a sua vida, mesmo que não faça a mínima ideia do entendimento daquilo que o espera (em inglês: Life can only be understood backwards; but it must be lived forwards!).

O que explanei talvez se compreenda melhor se fizermos um pequeno exercício que, por vezes, faço com os meus pacientes, amigos, comigo!!!!!

Imaginem que telefono ao acaso para um número da lista telefónica que sei ser, por exemplo, da Cidade da Covilhã, e coloco esta simples pergunta? “Olhe, desculpe estar a ligar para o seu telefone. Peguei no primeiro número e nome que a lista telefónica indicava ser da Covilhã. É que eu preciso ir para a Câmara Municipal e não sei como lá chegar; poderia ajudar-me?” Pensem por favor um pouco: qual a pergunta obrigatória para que do outro lado da linha possa vir alguma ajuda? Nenhuma ajudará, se a pergunta não for: “Ora isso depende de onde o sr. está; se me disser onde está eu digo como lá chegar!

A questão é tão simples que até é constrangedora: quando iniciamos uma relação será que nos damos ao luxo de perguntarmos a nós próprios onde estamos? É que se utilizarmos o “chegar à Câmara Municipal da Covilhã” como metáfora de um local, um ponto de encontro geográfico - mas que também pode ser emocional, psicológico, moral, ético, o que quiserem, ou seja, como um “ponto de encontro” intermédio em que ambos vão fazer um esforço para lá chegar e tentar ser felizes - então pensem no que acontece quando se inicia uma relação e não existe esta preocupação de termos que nos deslocar da nossa zona de conforto para nos encontrarmos a meio. Pensem ainda no exemplo geográfico: é totalmente diferente alguém dizer, “pois quero ir para a Câmara Municipal, e estou aqui numa avenida onde tem uma repartição do Inatel e das Finanças” (quem conhece a Covilhã, sabe que o melhor que a pessoa poderia dizer seria, "olhe, está tão perto que o melhor é estacionar o carro que eu já lhe digo como chega lá em 5 minutos"); outra coisa seria a pessoa dizer que está em frente a um grande hospital pois acabou de sair da autoestrada (ui, então convém mesmo que se explique como chegar lá acima, à cidade, de carro, e depois, como se chega à Câmara); mas ainda podemos ter pessoas que digam: “Onde estou? Não sei bem…. Sabe, nunca cá vim, e apenas sei que me disseram que era perto da Cidade da Guarda; então eu vim pela autoestrada e quando encontrei a primeira saída para a Guarda… saí!” Bom, aí é que convém dizer que a pessoa tem pelo menos que andar mais de 50 km para chegar à Câmara Municipal da Covilhã; poderá vir a pé é certo, mas tal não garante que demore pouco. E provavelmente quando lá chegar, os funcionários já terão naturalmente ido embora.

Agora imagine que este exemplo é o de um relacionamento amoroso em construção: ou os dois pretendem fazer um esforço de cada um por si, e também com a ajuda do outro, fazer apenas o seu caminho, mesmo que um esteja a cinco minutos a pé e o outro a 50 km de distância daquilo que é pretendido por ambos; ou então temos um problema. Muitas pessoas colocam-se na posição de se preocupar apenas com aquilo que têm que percorrer para chegar ao destino comum, e esquecem-se que o outro, para chegar a esse mesmo destino, tem que fazer um esforço sobre-humano.

Se se lembrassem do Alquimista, de Paulo Coelho, lembrar-se-iam que o nosso tesouro está onde está o nosso coração (1988). Mas considero que isso seja difícil de alcançar se ambos não forem completamente honestos com a forma como devem respeitar o ideal de relação que o outro tem, e vice versa, e, assim, de forma honesta, procurarem encontrar-se a meio da viagem, num ponto imaginário, mas ao mesmo tempo tão real que torne a viagem possível e, logo, que os leve, aos dois, ao destino que ambos pretendem.

Nessa caminhada, nenhum deveria ter medo da honestidade do outro acerca da construção da relação. Se alguém fizer uma pergunta, então que espere uma reposta honesta, e não uma resposta que não a faça sentir mal. Em todas as construções de relacionamento existem opiniões diferentes, e por isso, se não aguenta a honestidade da outra pessoa, então não pergunte! E muito menos diga que a pessoa só a faz sentir mal! Isso não me parece justo, até porque quem perguntou foi quem depois ficou magoado! Então não perguntasse… ou estaria à espera que se respondesse com uma mentira apenas para não se sentir mal! Já agora, quanto a esse aspeto, e como este é um artigo de opinião, posso referir que alguns dos momentos que mais me fizeram crescer como Homem e Pai foi quando alguém - geralmente quem realmente gosta de mim - me diz aquilo que tem que ser dito, sem preocupaçõezinhas se me vai magoar ou não! E eu, como já sou crescidinho, não fujo amedrontado a correr para a minha zona de conforto; pelo contrário, esses momentos foram alguns dos de maior crescimento moral, ético, estético, etc., porque, embora me tenha sentido muito mal com o que me tenham dito, senti que era honesto e merecido, e por isso não culpo a pessoa por me ter dado esta dádiva da honestidade. Pelo contrário, fico-lhe eternamente agradecido!

E a maioria de nós, é isso que aceita numa relação? Eu tenho uma opinião formada, mas o leitor é que é o juiz deste texto, e por isso impeço-me a avançar com respostas feitas.

 

Por isso intitulei este artigo de opinião de “A maior mentira das histórias de amor: ‘Quero alguém que seja honesto e que se sinta livre para dizer o que pensa!’”

E quase poderia acrescentar como subtítulo expressões como: “Quero alguém que seja honesto e que se sinta livre para dizer o que pensa! Desde que não diga que estou a ser egoísta, mesmo quando até eu sei que estou”, “… desde que não diga que eu quero ditar as regras desta relação!”, “… desde que não diga que para ser honesto, tem que responder de acordo com o que pensa, mesmo que isso me magoe, pois eu não quero que me façam sentir mal!”, “Mas tirando tudo isto, a única coisa que quero é ‘alguém que seja honesto e que se sinta livre para dizer o que pensa!’” (!!!!!!!)

Faz-me lembrar a famosa frase do filósofo Sócrates: “Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade” (1911).

Como humano e psicólogo, termino sugerindo humildemente que as pessoas pensem essencialmente nesta frase de Chaplin: “Aproveita quando estiveres no palco. Brilha, expressa-te, diz ao mundo o que pensas, vive! Caso contrário, se estiveres com medo de te magoar, e nada fizeres, quando deres por ti, as cortinas já estarão fechadas, a plateia já terá ido embora, restarão algumas pessoas a limpar os restos deixados pela assistência, e tu ficarás sozinho, atrás do pano, na escuridão! (Maia, 2016, p. 6)”

Com honestidade, até ao próximo texto.

 

Apoio bibliográfico:

Cervantes, M. (1605). El Ingenioso Hidalgo Don Qvixote de la Mancha. Editor: Francisco de Robles, Espanha.

Coelho, P. (1988). The Alchemist, HarperCollins paperback, p. 21

Maia, L. (2016). A crua profundidade humana. In prefácio de António Barata. Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã. Chiado Editora. Lisboa.

Umberto Eco (2014). Confissões de um jovem romancista. Editora Cosac Naify; ISBN 978-85-405-0539-1. p. 42.

Kierkegaard, S (1847) Upbuilding Discourses in Various Spirits, Hong p. 246-247.

Socrates (1911). Encyclopaedia Britannica, Inc.

Luis Maia

Luis Alberto Coelho Rebelo Maia é Licenciado em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade do Minho, Mestre em Neurociências pela Faculdade de Medicina de Lisboa, Doutorado em Neuropsicologia pela Universidade de Salamanca, Especialista em Neuropsicologia e Psicobiologia pela Universidade de Salamanca e Pós-Doutorado em Ciências Médico-Legais pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar.
É docente universitário na Universidade da Beira Interior, no Departamento de Psicologia e Educação, onde lecciona nas áreas das neurociências, metodologias de avaliação e intervenção psicológica e psicologia do desporto.
É também terapeuta com consultório próprio na Cidade da Covilhã, onde exerce a sua função de neuropsicólogo e psicólogo clínico, abrangendo diversas áreas da avaliação e intervenção psicológica. Está registado na Ordem dos Psicólogos Portugueses, com Título de Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Especialista em Neuropsicologia.
Autor de mais de duas dezenas de livros, conta com alguns best sellers, nomeadamente as obras “Educar Sem Bater”, “E tudo Começa no Berço”, “A psicologia do verbo amar e o erradicar da negligência”, “Violência Doméstica e Crimes Sexuais”, e ainda “Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica”.
É ainda autor de centenas de artigos científicos publicados nacional e internacionalmente, tendo sido galardoado com cerca de uma dezena de prémios de mérito nacionais e internacionais pelos seus trabalhos e desempenho no campo da psicologia.

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