PUB


Ciúme: do normal ao patológico

2013
catarina.lucas@live.com.pt
Psicóloga clínica, licenciada em Psicologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e mestre em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade da Beira Interior.

A- A A+
Ciúme: do normal ao patológico

 

O que é o ciúme?

O amor e os dilemas do ciúme podem ser encontrados em textos bíblicos, mitos, tragédias, bem como em obras de literatura, dança e pintura, tendo-se algumas perpetuado ao longo do tempo, como é o caso de Otelo do autor Shakespeare, em que o ciúme é representado através de um monstro de olhos verdes. Assim, o ciúme parece não ser uma experiência contemporânea, mas sim algo atemporal, que atravessa diferentes épocas e múltiplos contextos culturais.

Apesar de não ser fácil definirmos consensualmente o ciúme, pode dizer-se que este se refere ao medo que a pessoa sente em perder a importância que detém na vida do outro. É gerado pela possível perda do companheiro para um rival real ou imaginário. É um sentimento de apreensão relativo à possibilidade de ser abandonado, rejeitado e traído, bem como ao receio de deixar de ser amado.

Se há quem olhe para o ciúme negativamente, há também quem o encare como protetor da relação, pois as relações interpessoais possuem extrema importância na vida do ser humano, pelo que é normal a existência de emoções específicas que tenham como finalidade proteger essas relações de pessoas rivais. Uma dessas emoções seria o ciúme.

 

Porque sentimos ciúme?

O facto de ser do conhecimento geral que muitas pessoas traem gera ansiedade e angústia relativamente ao próprio relacionamento. Assim, com as poucas garantias de “amor eterno” e segurança na relação, aumenta a hipótese de que o ciúme surja. Nesta perspetiva, o ciúme teria como função a manutenção da relação com o parceiro.

Contrariamente a outros sintomas, que duram enquanto a causa se mantém, o ciúme perdura além das causas, pois pode iniciar-se mesmo sem elas. Na verdade, o ciúme pode surgir após uma traição, sendo que, a partir desse momento, a pessoa começa a imaginar novos quadros de infidelidade, existindo uma generalização. O outro passa a ser olhado como um potencial traidor, tendo início os comportamentos de controlo e os conflitos. Todavia, outros fatores podem justificar o ciúme, nomeadamente a baixa autoestima, raiva, desconfiança, tristeza, incerteza relacional, interferência de terceiros e o tipo de relação.

 

Do normal ao patológico

No amor, assim como em outros comportamentos excessivos como o jogo, não é tarefa fácil estabelecer o limiar entre o normal e o patológico. Há quem diga que toda a relação pressupõe um determinado grau de ciúme com o intuito de testar o amor existente, já que a apatia pode revelar falta de interesse. A maior parte das pessoas refere o ciúme como algo normal em todas as relações, tornando-se assim difícil saber quando o ciúme passa a ser patológico. Supõe-se então que o ciúme apresenta uma dimensão patológica quando causa sofrimento à pessoa que vivencia ciúme ou que é alvo do ciúme, afetando a relação.

Nestes casos, o ciúme está permanentemente no pensamento do sujeito, torna-se omnipresente, diminuindo a capacidade de a pessoa se centrar em pensamentos alternativos. A partir deste momento não sofre apenas o ciumento mas também a pessoa vítima de ciúme. O alívio do desconforto causado pelo ciúme é conseguido através de comportamentos que visam a comprovação do comportamento do outro. O ciumento duvida de si mesmo e não necessita provas para acusar o parceiro.

A linha divisória entre imaginação e certeza é muito ténue. As dúvidas podem transformar-se em ideias hipervalorizadas ou delirantes e depois de instaladas segue-se a verificação compulsiva, a procura de provas de infidelidade e o questionamento frequente do parceiro. Este ciúme delirante é um conhecido fator de risco para a violência e homicídio.

 

Ciúme, benéfico ou prejudicial à relação?

Um estudo que desenvolvi junto de 1169 sujeitos portugueses revela que são aqueles que manifestam ciúme moderado que evidenciam maiores níveis de satisfação sexual, podendo colocar-se a ênfase na perspetiva que encara o ciúme como protetor da relação e demonstração de interesse pelo outro. É possível até, em alguns casos, verificar um aumento do desejo associado ao ciúme, motivado pela competitividade.

Por outro lado, os sujeitos que manifestam níveis de ciúme mais baixos são aqueles que se encontram mais insatisfeitos, o que coloca a hipótese de que a ausência de ciúme não é tão positivo como muitas vezes se ouve no senso comum, pois poderá evidenciar a falta de interesse pelo outro e o desinvestimento na relação. Este aspeto surge muitas vezes como algo pior do que ter um companheiro ciumento.

Catarina Oliveira Lucas

Catarina Oliveira Lucas é psicóloga clínica, licenciada em Psicologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e mestre em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade da Beira Interior. Além de psicóloga, é também formadora e escritora, sendo autora dos livros ´Perturbação Obsessivo-Compulsiva - manual de intervenção´ e ´Perturbações do Comportamento Alimentar´. É ainda palestrante e investigadora, possuindo vários artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais. Possui experiência no trabalho clínico com crianças, adolescentes e adultos.

mais artigos de Catarina Oliveira Lucas