A toxicomania frente ao declínio da função paterna

2007
claudirio@hotmail.com
Psicanalista - Centro Universitário Newton Paiva (Belo Horizonte - Minas Gerais, Brasil)

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A toxicomania frente ao declínio da função paterna

A Psicanálise nos remete inevitavelmente à interpretação do inconsciente do sujeito, que é explorado no discurso, por meio do qual ele é capaz de fazer as devidas retificações em busca da cura.

Neste estudo da dinâmica analítica, interessa-nos o produto das retificações referentes ao uso de substâncias capazes de restituir o que falhou no campo simbólico. A incapacidade de metaforizar, de produzir elaborações no campo simbólico, tende a conduzir o sujeito a atuação no real do corpo, o que pode levar a quadros extremos de pânico, anorexia, auto-flagelação ou dependência de drogas lícitas ou ilícitas.  É sabido que a tão abordada “dependência física” pode ser atribuída apenas a substâncias como a heroína e o álcool, uma vez que tais drogas podem levar a crises de abstinência, que aparecem diretamente no corpo. Outras drogas sem dúvida também conduzem o usuário a quadros de dependência, mas à dependência psíquica. Porém, é ledo engano afirmar que a dependência psíquica é menos grave que a dependência física, uma vez que, se esta produz crises de abstinência, aquela provoca a chamada “fissura”, que pode levar o usuário a cometer verdadeiras atrocidades para obter a droga que o leva a sensações das quais seus psiquismo é deveras dependente. Prova cabal dessa assertiva encontramos nos quadros de sujeitos viciados em jogo, sexo, ou mesmo nas conhecidas “mulheres que amam demais”. Todos esses quadros apresentam um contexto dramático, no qual vidas são destruídas e até mesmo perdidas e o combate a tais patologias não é nada simples, já que não temos sequer como intervir por meio de um processo de desintoxicação, pois não existe a “substância”, mas apenas o efeito.

O trabalho psicanalítico utiliza a linguagem para fazer emanar o inconsciente. É fato que os dependentes de drogas adotam um vocabulário específico e elegem determinados signos lingüísticos codificados entre eles, de modo a construir um universo restrito do qual o analista, via de regra, é relegado à condição de excluído.

Somos remetidos diuturnamente ao “discurso capitalista”, que promete o gozo sem limites, o poder tudo sempre. Nesse contexto, o inconsciente fica comprometido e o sujeito afasta-se cada vez mais do seu desejo para não lidar com a falta.

A droga aparece justamente como uma tentativa de encobrir essa falta. Ao se drogar, o sujeito já está imerso num discurso adoecido, em que a vida é uma droga, em que o gozo é primordial e pelo qual o sujeito rompe quaisquer laços afetivos. Seu afeto, por assim dizer, está no gozo, na ilusória sensação de completude que a droga pode vir a proporcionar. Em tal condição, o fazer se sobrepõe ao dizer e o corpo é o ponto por onde flui esse fazer.

É comum toxicômanos afirmarem que têm controle sobre a droga, que a dominam ao invés de serem dominados e, assim, destituem o analista do lugar de “suposto saber”. Eles acreditam deter o conhecimento, quando na verdade são escravos do vício. Cabe ressaltar, no entanto, que o vício não aparece para escravizar ninguém. A droga só ocupará o lugar de “Senhor” se o sujeito se apresentar como escravo e isso acontece justamente na atuação do sujeito, quando este renuncia à própria subjetividade, que pode ser metaforizada para a retificação de questões do inconsciente, para atuar no real do corpo.

A droga acaba trazendo as respostas imediatas, tão requeridas por um sujeito que escapa da subjetividade. Com isso, seu psiquismo busca a repetição do gozo desenfreado oferecido pela droga.

No gozo da droga, o Outro é rechaçado. O uso de certas substâncias, que muitas vezes começa como a busca de pertencer a determinado grupo acaba tendo efeito contrário. O sujeito isola-se num mundo cada vez mais empobrecido de laços e abdica do gozo libidinal, abdica do Outro, já que ele possui uma forma de gozar auto-erótica, a exemplo do que ocorre em quadros de anorexia e de somatizações.

O “mais de gozar” a que se entrega o toxicômano é uma tentativa desenfreada e ilosória de preenchimento do vazio instaurado pela falta estrutural, que jamais é preenchido. Esses sujeitos se drogam para fugirem da angústia e se drogam mais em face do fracasso de tal tentativa. A inscrição simbólica da falta é precária ou inexiste, pois o sujeito está no campo do gozo, o que ratifica a afirmação de que a dependência psíquica é imperativa, domina o usuário de drogas.

Normalmente o recurso às drogas ocorre no anseio de delinear um limite ao corpo, até então não definido. A overdose e a dissolução de laços sociais muitas vezes vêm estabelecer tal limite. Na fala de dependentes de certas substâncias tóxicas, é comum ouvirmos o argumento de que sentem extrema necessidade de se sentirem normais, tamponando o furo, o enorme vazio que percebem em suas vidas.

Recorrente também é o discurso de pais de viciados, que tentam fundamentar sua desilusão no fato de sempre terem suprido seus filhos de todas as necessidades. Isso caracteriza a crença equivocada de serem capazes de suprir a falta estrutural e anular a castração, sendo esta fundamental à instauração de limites na constituição do sujeito barrado, livrando-o, assim, da busca desenfreada do gozo.

Desastrosas podem ser as conseqüências da crença na plenitude, na supressão do furo estrutural. Pais que tentam de todas as formas livrar os filhos da castração acabam por remetê-los a um sofrimento atroz, pelo fracasso percebido diante da falta inevitável. O recurso à droga aparece como tentativa de atenuar o sofrimento imposto pela falta, pela constatação de ser um sujeito comum, que não pôde ser livrado da castração, possibilidade a que o sujeito muitas vezes é levado a crer pela superproteção dos pais, pela oferta antes da necessidade, comportamento comum entre pais de toxicômanos, anoréxicas e portadores de diversos distúrbios de personalidade.

É fato incontestável que o efeito da droga é, num primeiro momento, prazeroso, ou não haveria demanda para seu uso. A atenuação das tensões, a descontração, a desinibição, o gozo imediato e a momentânea supressão do sofrimento podem ser efeitos sedutores. Cabe-nos, porém ressaltar que a grande falha nessa experiência é a inércia a que o sujeito é conduzido. A quebra dos laços sociais é inevitável e o mal-estar acaba por se instaurar de forma avassaladora, com o corpo sendo relegado a uma condição de silêncio absoluto e o grave comprometimento da identidade sendo praticamente inevitável. O sujeito é apagado, seu discurso é desconexo e a possibilidade de metáfora inexiste. Esse quadro fica evidenciado ao depararmos com pacientes que se apresentam como “drogados”, adjetivo que via de regra suprime o próprio nome na apresentação inicial, pois foi assim que a sociedade os nomeou.

Essa mesma sociedade, dita moderna, é marcada pelo declínio da função paterna, de modo que os limites são flexibilizados. O jovem, por sua natureza ousada, busca naturalmente conhecer os extremos limítrofes; desse modo, a droga pode ser um caminho percorrido em busca desse limiar, que acaba não sendo percebido em tempo hábil, pois ninguém percebe o momento exato em que está se tornando um dependente dessas substâncias. O jovem acredita ter o controle da situação, já que, pelo afrouxamento do “Nome-do-pai”, fica delegado ao próprio jovem estabelecer as fronteiras.

Podemos inferir dessa reflexão que o declínio da função paterna é fator bastante contribuinte e talvez determinante na inserção do jovem no mundo das drogas. Delegar ao jovem o estabelecimento dos próprios limites pode significar condená-lo a danos muitas vezes irreversíveis. A falta de limites pode conduzi-lo à busca de limiares perigosos e nefastos. Falar ao jovem sem referencial paterno sobre os efeitos danosos das drogas podem remetê-lo à busca desses efeitos, frente a uma vida em que a castração não funciona como mola propulsora para a edificação do sujeito.

Daí decorre a dificuldade na recuperação de toxicômanos. Falar do mal pode ser inócuo quando o que se busca é o próprio mal numa incontida pulsão de morte. Falar de limites também poderá ter pouco êxito, uma vez que tais limites ficaram por conta do próprio dependente, que definiu que o limite é o gozo, sendo que este não tem limites, já que o inconsciente quer gozar sempre e a qualquer preço.

 

Referências Bibliográficas:

FREUD, Sigmund.: Além do Princípio de Prazer, in Volume XVIII. Edição Eletrônica. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969-1980.

_____________: Mal estar na civilização, in: Volume XXI. Edição Eletrônica. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969-1980.

LACAN, Jacques. O seminário livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

FENICHEL, Otto. Teoria Psicanalítica das Neuroses. São Paulo: Atheneu, 2000.