A herança de Herman Rorschach Sofia Soares Pereira pereira.sofiasoares@gmail.com Psicóloga Clínica e da Saúde. Diploma de Estudos Avançados em Personalidade, Avaliação e Tratamento Psicológico. Doutoranda em investigação com o Rorschach 2012
Idioma: Português (P Palavras-chave:
Resumo
Comemorou-se no ano passado os 90 anos da publicação
do trabalho de Herman Rorschach – “Psicodiagnóstico Rorschach”.
A partir da corrente psicanalítica, influenciado por
Bleuler e Jung, o trabalho de Herman Rorschach provocou grande interesse
em muitos autores e tem sido bastante utilizado em todo o mundo nas
áreas da justiça, clínica, educação, neurociências, social e do
trabalho, investigações entre outros. Herman Rorschach faleceu em 1922
em Herisau - Suiça, no ponto alto da sua carreira, deixando por
completar a sua obra. Devido a este acontecimento, o autor da prova das
manchas de tinta não completou as grelhas interpretativas nem o seu
quadro teórico. Deste modo nasceram várias escolas de investigação e
utilização do Rorschach, na medida em que foram vários os seus
sucessores, cada um com a sua sistematização. Oberholzer, com
publicações posteriores à morte de Herman Rorschach; Ben-Echemburg, com
a sua técnica paralela ao Rorschach que realizou juntamente com o
próprio autor; Hans Binder, com a matização das respostas de sombreado;
Walter Morgenthaler, com os seus diferentes estudos na técnica de
eleicção dos cartões que o examinado mais gosta e menos gosta; Margarita
Loosli-Usteri e Edwald Bohm e muitos outros autores, que seguiram as
directrizes do autor das manchas de tinta. No entanto, cada um destes
sistemas tinha um ponto em comum: mantinham-se fiéis às ideias originais
de Herman Rorschach. As diferenças residiam no suporte teórico dos seus
sucessores. Na Europa, os mais conhecidos são os sistemas de
Loosli-Usteri e Bohm. Nos Estados Unidos, principalmente os de Klopfer,
Beck, Piotrowski, Hertz e Rapaport. As divulgações e as investigações
desenvolvidas por estes autores permitiram um aperfeiçoamento da técnica
e uma melhor compreensão da mesma, quer nos Estados Unidos, quer na
Europa. Em 1957 estavam consolidados os diferentes sistemas de Rorschach,
sem que nenhum dos seus sistematizadores chegasse a acordo para a
integração num só sistema. Existia até investigações entre 1950 e 1970
que iam neste sentido, mas eram excepções. Uma destas excepções foi
publicada por John E. Exner, Jr em 1969. Beck e Klopfer incentivaram
esta publicação. Este resultado demonstra as diferenças inter-sistémicas
(por exemplo, apenas dois dos cinco coincidiram nas instruções sobre
como sentar o examinado perante o psicólogo). Cada sistema desenvolveu a
sua própria forma de codificar as respostas, sendo os modelos muito
diferentes entre si. Exner compilou todos os trabalhos das cinco escolas
de Rorschach, criando assim o Sistema Compreensivo. Os cartões
mantiveram as suas características originais, a alteração foi que deixou
de ser uma ferramenta experimental para passar a ter uma correcção
objectiva e manter o carácter projectivo por natureza. Este Sistema foi
introduzido em Portugal pelo Professor Doutor Danilo R. Silva na
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de
Lisboa.
Antes do falecimento de Herman Rorschach (1921), o
autor referiu que o seu trabalho constituía apenas um começo e que não
estaria nada definitivo uma vez que tinha a certeza que havia dados
importantes que faltavam encontrar. Foi neste sentido que o Doutor José
Rodrigues Isidoro, professor e director da Faculdade de Psicologia da
Universidade de Salamanca, editou pela primeira vez em 1975 três cartões
projectivos a serem aplicados imediatamente após o último cartão de
Rorschach. Estes cartões, com segunda edição em 2010, foram denominados
Cartões Projectivos JRI e servem essencialmente como complemento aos dez
cartões de Herman Rorschach. São cartões monocromáticos com formas
bastante particulares e foram elaboradas seguindo a mesma técnica que os
outros dez. Muito há para se escrever sobre estes cartões, no entanto,
neste artigo, destacam-se apenas alguns pontos.
“Os princípios de simetria (ao ser manchas de tinta
colocadas sobre um papel e posteriormente dobradas) foram respeitados e
tidos em conta na sua elaboração”. (Jiménez, 1990)
Cabe ao técnico a escolha de aplicar ou não os
cartões projectivos JRI. Se optar pela aplicação, deve ter em conta de
que esta não é isolada, mas sim em conjunto, perfazendo um total de
treze cartões apresentados ao examinado de forma contínua.
Os cartões projectivos JRI têm a mesma numeração
romana, mas fazem-se acompanhar do símbolo + (mais). Os cartões são
identificados como I+ (primeiro), II+ (segundo), III+ (terceiro). O
cartão I+ é negro enquanto que os cartões II+ e III+ são vermelho-vivo.
Sendo as cores mais intensas, sentiu-se a necessidade
de diferenciar o choque à cor rosa, azul, laranja, verde do choque ao
vermelho. Dois destes três cartões projectivos são completamente
vermelho-vivo, o que facilita a interpretação para um melhor
diagnóstico.
“A nossa experiência tem demonstrado que há elementos
importantes nos cartões projectivos JRI que de não aplicá-los podem
passar despercebidos para o técnico que utiliza a prova”. (Jiménez,
1990)
Jiménez (1990), referiu que para além da importância
da cor, o conteúdo e o movimento também determinam as respostas.
O cartão I+ é monocromático de cor negra. Suscita
facilmente respostas ou sentimentos de nervosismo, dificuldade de
interpretação e até mesmo bloqueio.

“Este cartão pode ajudar-nos a clarificar um possível
choque ao cinza/negro que pode surgir num dos outros cartões de
Rorschach, especialmente nos cartões I, IV e V”. (Jiménez, 1989)
Se o técnico tiver dúvidas na existência ou não de
choque à cor, é possível que com o cartão I+ saia da dúvida. O negro e o
cinza são particularmente importantes para um diagnóstico de angústia ou
depressão. É um dos cartões mais aceites positivamente pelos examinados.
No cartão II+, o mais importante é o choque ao
vermelho-vivo. É um cartão totalmente vermelho que depois do examinado
ter percepcionado o negro no cartão anterior, pode ficar bloqueado com
este. Se existir dúvidas nos cartões II e/ou III do Psicodiagnóstico de
Rorschach, este cartão II+ ajuda a esclarecer.

Jiménez (1989), numa das suas obras investigou neste
cartão o choque cinestésico com uma amostra de 526 adolescentes de ambos
os sexos. Comprovou-se a existência de uma correlação muito alta deste
choque cinestésico entre os cartões III do Psicodiagnóstico e o cartão
II+ dos cartões projectivos JRI.
“Isto pode confirmar que um examinado que tenha um
choque cinestésico ao cartão III, a probabilidade de ter o mesmo choque
no cartão II+ é muito alta”. (Jiménez, 1989)
A este cartão é costume produzirem-se tantas
respostas quantas as recolhidas no Psicodiagnóstico de Rorschach. A
agressividade latente é notória neste cartão uma vez que há motivações
inconscientes do examinado quando percebe que as duas figuras principais
estão em movimento agressivo. Se não houver essa predisposição, os
examinados referem que as figuras estão a relacionar-se pacificamente. A
percepção de figuras humanas e em movimento é frequente neste cartão. Há
assim um duplo sentido que dá abertura total para o examinado projectar
a sua agressividade (se for o caso).
No cartão III+, encontramos novamente a cor vermelha
acrescida do facto de não ser tão facilmente perceptível. Por este
motivo, há um número elevado de respostas aos detalhes da mancha (D).

Jiménez (1989) afirma que a importância à cor
vermelha é tão evidente que pode surgir também neste cartão, dando
contributos importantes para a sintomatologia agressiva. Este cartão é
muito rejeitado pelos examinados.
Os cartões projectivos JRI são um instrumento
fundamental e de um poder inconfundível na avaliação de personalidade do
examinado. Como atrás foi referido, estes catões complementam o
Psicodiagnóstico Rorschach, é esse o seu principal objectivo.
Em resumo e de acordo com Jiménez (1989), as
contribuições mais importantes são: 1º aumento do número de respostas e
um menor tempo de reacção nos cartões projectivos JRI que no
Psicodiagnóstico; 2º o valor sintomático das respostas de detalhe
oligofrénico (Do); 3º a categoria dos determinantes (F) e a notável
incidência de respostas de conteúdo humano e em movimento muito
superiores nos cartões projectivos JRI que no Psicodiagnóstico; 4º a
complementaridade de ambos os conjuntos de cartões é bastante
perceptível: os conteúdos humanos (superior nos cartões projectivos JRI
é inferior aos do Psicodiagnóstico) e os conteúdos animais (superior no
Psicodiagnóstico e inferior nos cartões projectivos JRI); 5º através da
análise de correlações entre o Rorschach e os cartões projectivos JRI
podemos comprovar uma alta fiabilidade nos cartões projectivos JRI; 6º
altíssima correlação entre os factores de angústia nos cartões
projectivos JRI e Psicodiagnóstico de Rorschach; 7º os cartões
projectivos JRI são essencialmente sensíveis em perturbações da
personalidade; 8º notável riqueza psicodiagnóstica através dos
diferentes choques proporcionados pela cor, pela cinestesia e pelos
conteúdos agressivos; 9º os cartões projectivos JRI contribuem para a
análise da personalidade, nomeadamente na sintomatología afectiva,
angustiosa e agressiva da personalidade.
Num trabalho de investigação com mulheres vítimas de
violência doméstica, desenvolvido por mim no ano de 2008, confirmou-se
os itens acima identificados e destacou-se ainda outros: 1º forte
projecção à cor nos cartões projectivos JRI; 2º aumento significativo de
conteúdos sexuais, sangue, anatómicos e radiográficos; 3º aumento
significativo de fenómenos especiais. Na Prova de Eleição de
Morgenthaler, os cartões II+ e III+ foram os mais rejeitados.
Com ambos os conjuntos (Psicodiagnóstico Rorschach +
Cartões Projectivos JRI) obtém-se uma quantidade e diversidade de
variáveis que com as suas quase infinitas inter-relações bem como os
diferentes tipos de informação que se cria torna-se a base do seu
potencial.
O Psicodiagnóstico de Rorschach recebe assim um
precioso complemento através da obra do Professor Doutor José Rodrigues
Isidoro que contribui para uma avaliação da personalidade concreta e
eficaz. Desde a particularidade dos seus estímulos, a riqueza
informativa que gera, a impossibilidade de ser falseado, assim como a
possibilidade de integração de dados quantitativos e qualitativos que
oferece são, os principais motivos pelos quais se continua a realizar
investigações dedicadas à sua eficácia, a 90 anos depois da sua
publicação.
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Madrid
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Universidad de Salamanca. Facultad de Psicología. Departamento de
Personalidad, Evaluación y tartamientos Psicológicos
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