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O tempo e o templo

2018
pedrosampaiominassa@gmail.com
Graduando em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo (Brasil)

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O tempo e o templo

Templo deriva do latim templum, espaço delimitado no ar por um áugure, que com seu bastão, lia os auspícios. Áugure e auspícios são palavras que remontam o Império Romano. Auspícios indicavam os sinais divinos lidos pelo áugure na cerimônia de “tomar os auspícios”, em que este observava a pauta das aves nos céus, os deuses celestes da época. Diz a lenda que Rômulo e Remo, por exemplo, na busca do lugar ideal à fundação da cidade de Roma, recorreram a tais deuses, observando onde a concentração de aves (auspícios) fosse maior, para ali se assentarem.

Alguns dicionários etimológicos identificam a raiz da palavra de templum com a de tempus (tempo). Tal aproximação se dá, provavelmente, porque ambos os termos indicam um espaço limitado, ora em relação ao céu, ora em relação à duração. Nesse sentido, em que medida os templos devem se deixarem transformar com os tempos?

A obsolescência de nosso tempo é talvez a grande ameaça às religiões. Em seus altares, ou estas se colocam à frente no tempo, ou sujeitam-se ao templo fechado e fecham-se no tempo perdido para sempre. Com a tecnologia e a modernidade, perdemos a noção de tempus, pois o que outrora era novo torna-se pouco. Agora, se a modernidade é capaz de redimensionar a noção de tempo, não será ela potencialmente capaz de fechar a ideia de templo?

Fato é que os templos de ontem não são dos tempos de hoje, ou se reinventam para prosseguirem com seus dogmas, ou param para sempre e fecham suas portas. Como tornar culturas religiosas milenares compatíveis com os valores sociais do Século XXI? A nosso ver, somente pela renovação da linguagem templária. Os tempos em que o latim era a língua dos templos, por exemplo, acabou, assim como os tempos de frequência obrigatória e diária aos templos, também sucumbiu. Será que os tempos dos templos passaram?

É demasiadamente pretensioso dizer que as religiões acabarão se os templos não se renovarem, mas os indícios são contundentes do fenômeno de esvaziamento. Se em Roma Antiga os áugures olhavam os auspícios nos céus para acharem respostas, não é dada a hora dos atuais sacerdotes olharem para as “novas aves nos céus da contemporaneidade”, a fim de encontrarem o caminho para a dita vida eterna das religiões? A obsolescência atingirá tanto menos às religiões, quanto mais os ditos homens do templo tornarem-se verdadeiros homens a tempo e a contento do nosso tempo.