O trânsito e as novas relações de trabalho Tom Coelho tomcoelho@tomcoelho.com.br Educador, conferencista e escritor com artigos publicados em 15 países. É autor de ´Sete Vidas – Lições para construir seu equilíbrio pessoal e profissional´, pela Editora Saraiva, e coautor de outros quatro livros. 2012
Idioma: Português (Brasil) Palavras-chave: Relações de trabalho, SOHO, trânsito, mobilidade, GEE, estresse, absenteísmo, presenteísmo, acidentes de trabalho, jornada flexível, comprometimento
"Não importa onde você trabalha, há mais de uma
forma de criar um projeto,
onde o entusiasmo é palpável, onde algo que possa fazer a diferença
esteja
ao virar a esquina."
(Marcelo Costa)
Mobilidade. Este é um dos maiores desafios de um
mundo com sete bilhões de pessoas. E não apenas para as grandes cidades.
Não é o direito, mas a capacidade de ir e vir que
está comprometida. Dia destes, devido a uma chuva intensa e prolongada,
levei quase duas horas para percorrer seis quilômetros.
A questão ambiental está em voga. Porém, poucos
percebem que um carro trafegando a uma velocidade média de pedestre
consome mais pneus e pastilhas de freio, aumenta sua depreciação e eleva
o consumo de combustível às alturas, despejando mais gases de efeito
estufa e poluindo ainda mais o ar.
A falta de transporte coletivo em quantidade e de
qualidade impede a integração do automóvel com as redes de ônibus, trem
e metrô. E mesmo as estações inauguradas recentemente não dispõem de
edifício-garagem para estimular o motorista a rodar menos com seu carro.
A mobilidade não é apenas um problema de
infraestrutura viária, mas de saúde pública. Afora a perda material, há
efeitos intangíveis e de difícil
mensuração. Primeiro, o tempo das pessoas, que deixam de cumprir
compromissos e realizar tarefas diversas porque estão presas no
trânsito.
Reuniões canceladas, clientes e pacientes não atendidos, produção que
deixa de ser gerada.
Segundo, o estresse. A paciência, a tolerância e o
equilíbrio emocional são colocados à prova ao extremo, trazendo à tona o
que há de pior nas pessoas. Motoristas que não dão passagem a pedestres
e a outros veículos, motociclistas que trafegam irresponsavelmente em
alta velocidade pelo corredor formado entre as faixas de rolagem, gente
que ocupa assentos preferenciais no transporte coletivo e não os cedem a
quem de direito.
Aliás, são os mais pobres os que mais sofrem. O
desenvolvimento econômico empurrou os trabalhadores para a periferia das
cidades, exigindo-lhes despertar no final da madrugada para se dirigirem
ao trabalho, desperdiçando até seis horas diárias para ir e voltar.
Nossa sociedade está privando as pessoas do convívio
familiar e minando a saúde de seus trabalhadores. Aumentam os acidentes
de trabalho, em decorrência do cansaço e da desatenção durante a
atividade laboral, bem como os acidentes de trajeto. Crescem o
absenteísmo, o presenteísmo, as doenças profissionais e psicossomáticas.
Enquanto os governos não fazem sua parte, mitigando
os já mencionados problemas de infraestrutura, é premente repensar as
relações de trabalho, incentivando o trabalho à distância, mediante uma
gestão por confiança capaz de prescindir da presença física dos
colaboradores na sede da empresa. Precisamos avançar na qualidade da
conexão de banda larga para estimular as videoconferências. São muitas
as questões que podem e devem ser resolvidas on-line ou por telefone. O
trabalho SOHO (small office, home office) é uma necessidade hoje e não
do futuro.
É evidente que temos uma legião de trabalhadores
operacionais que jamais poderão ser incluídos neste sistema. Ainda nos
anos de 1990 eu pretendia implantar uma jornada flexível, mas era
impraticável dentro de uma atividade industrial na qual o processo
produtivo é sequencial. Se o responsável pelo corte do aço decidisse
chegar mais tarde, os soldadores não teriam matéria-prima para
trabalhar, comprometendo todo o sistema...
Por fim, cabe também um alerta aos profissionais.
Conheço uma empresa que oferece café e pão com manteiga às oito horas da
manhã aos seus vendedores apenas para exigir-lhes a presença no
escritório antes de saírem à rua para as visitas agendadas, impedindo
que alguns resolvam simplesmente dormir até depois das dez, expondo mais
do que sua falta de profissionalismo, a ausência de comprometimento.
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